Clavis Libri

Personagem

Macbeth

Quem é

Barão de Glamis, general do rei Duncan e seu parente, herói da guerra contra o rebelde Macdonwald e os noruegueses, e o homem que, depois de ouvir três bruxas, mata o rei que dorme em sua casa para ocupar o trono. É o protagonista da peça, e a peça o acompanha por dentro: quase tudo o que sabemos dele vem dos apartes e dos solilóquios em que ele pensa o crime antes de cometê-lo, vê um punhal no ar, ouve a voz que condena o sono e, já rei, descobre que a coroa só se mantém com mais sangue. Termina sem a mulher, sem amigos e sem obediência, cercado e morto por Macduff.

Trajetória

Antes de entrar em cena, Macbeth é só glória: na cena 2 do Ato I, o Capitão ferido conta que ele e Banquo derrotaram o rebelde Macdonwald e resistiram aos noruegueses, e Duncan, ao condenar à morte o Barão de Cawdor, traidor, passa o título a Macbeth.

O que ele perdeu, o nobre Macbeth ganhou. (I.2)
Ato I: A profecia e a tentação

Na cena 3 do Ato I, as bruxas o saúdam como Barão de Glamis, de Cawdor e futuro rei, e Ross e Angus confirmam a segunda promessa logo em seguida, nomeando-o Cawdor. Banquo avisa que o mal às vezes diz verdades pequenas para trair nas grandes. Macbeth, perturbado, já imagina um assassinato e se pergunta se a Sorte poderia coroá-lo sem que ele precisasse agir: a profecia não manda matar ninguém, e o pensamento do crime é dele.

Na cena 4 do Ato I, Duncan nomeia Malcolm Príncipe de Cumberland e anuncia que irá a Inverness. Em aparte, Macbeth vê no título do príncipe um degrau que precisa galgar e pede às estrelas que escondam a luz.

Macbeth: Estrelas, escondam o seu brilho; não permitam que a luz veja meus profundos e escuros desejos.
Macbeth

Na cena 5 do Ato I, a carta que ele mandou à mulher conta o encontro com as bruxas, e é Lady Macbeth quem assume o plano da noite: ele deve parecer inocente e deixar o resto com ela. Na cena 7 do Ato I, sozinho, pesa o crime: Duncan é seu parente, seu rei e seu hóspede, e nada o empurra senão a própria ambição. Quando a mulher chega, ele recua, diz que não vão prosseguir porque o rei o honrou, e é envergonhado: ela contesta sua virilidade e expõe o plano de embebedar os camareiros e pôr neles a culpa. Ele cede e decide cobrir o que sabe o coração falso com uma cara serena.

Na cena 1 do Ato II, à meia-noite, Banquo conta que sonhou com as bruxas, e Macbeth responde que nem pensa nelas, enquanto oferece honra em troca do apoio de Banquo, que só aceita se a honra e a consciência ficarem intactas. Sozinho, ele vê no ar uma adaga com gotas de sangue e segue para o quarto do rei. Na cena 2 do Ato II, volta com o crime feito e abalado: não conseguiu dizer amém e ouviu uma voz anunciar que Glamis matou o Sono e que Macbeth não dormirá mais. Trouxe as adagas consigo, em vez de deixá-las no quarto, e não ousa voltar; é a mulher quem as leva.

Macbeth: Pensei ter ouvido uma voz a gritar “Dormir, nunca mais! Macbeth é o assassino do Sono, do Sono inocente, do Sono que desenreda o novelo emaranhado das preocupações, do Sono que é a morte rotineira da vida de cada dia, o banho depois da árdua labuta, o bálsamo das mentes afligidas, o prato principal da grande mãe Natureza, o mais importante nutriente do banquete da Vida”. [...] “Dormir, nunca mais! Glamis matou o Sono, e, portanto, Cawdor não mais dormirá. Macbeth não mais dormirá.”
Macbeth

Na cena 3 do Ato II, indica o quarto do rei a Macduff e, descoberto o corpo, mata os camareiros, dizendo que o fez num rompante de amor ao rei. Malcolm e Donalbain fogem, e na cena 4 do Ato II Macduff conta que Macbeth foi eleito e partiu para Scone para ser coroado.

Na cena 1 do Ato III, já rei, diz que carregar a coroa não é nada e que o importante é carregá-la em segurança, e que seu medo tem raízes em Banquo: as bruxas lhe deram uma coroa infrutífera, para ser arrancada por descendência alheia. Convence dois assassinos ressentidos a matar Banquo e Fleance naquela noite. Na cena 2 do Ato III, o casal admite que a coroa não trouxe paz, ele diz que só feriram a serpente e que já não dorme sem pesadelos, e esconde da mulher o plano, anunciando só um ato terrível antes do fim do dia.

Na cena 3 do Ato III, um terceiro assassino, mandado por ele mesmo, se junta aos outros dois, e Banquo morre, mas Fleance escapa. Na cena 4 do Ato III, avisado à porta do salão, Macbeth volta à mesa e vê o fantasma de Banquo sentado em seu lugar, que os convidados não enxergam. Perde o controle diante da corte, e Lady Macbeth despacha os nobres. Sozinho com ela, nota a ausência de Macduff e decide procurar as bruxas de novo, pelos piores meios. Na cena 5 do Ato III, Hécate repreende as bruxas por servirem alguém que ama os próprios fins e promete ilusões que o levem a desprezar o Destino, e Macbeth não sabe de nada disso.

Na cena 1 do Ato IV, ele exige respostas na caverna e recebe três aparições: uma cabeça armada o manda temer Macduff, uma criança ensanguentada diz que nenhum nascido de mulher poderá feri-lo, e uma criança coroada, com uma árvore na mão, diz que ele só cairá quando o bosque de Birnam marchar contra Dunsinane. Pede ainda para ver os descendentes de Banquo e vê oito reis, com Banquo ao fim. Lennox traz a notícia de que Macduff fugiu para a Inglaterra, e Macbeth decide que os impulsos do coração serão também os do braço: na cena 2 do Ato IV, os assassinos chegam ao castelo de Fife, matam o filho e perseguem Lady Macduff, cuja morte Ross confirma na cena 3.

Na cena 3 do Ato V, em Dunsinane, despreza a fuga dos barões, confiando na promessa sobre Birnam, humilha o Criado que traz a notícia do exército inglês, pede a armadura a Seyton e exige do Médico uma cura para a rainha. Na cena 5 do Ato V, zomba do cerco até ouvir gritos de mulheres e saber que a rainha morreu, e responde com o discurso sobre o amanhã.

Macbeth: Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. [...] A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado.
Macbeth

Um Mensageiro jura ver Birnam avançar, e Macbeth, abalado, passa a duvidar das palavras que o iludiram e corre às armas. Na cena 7 do Ato V, cercado, mata o jovem Siward. Diante de Macduff, diz que carrega uma vida enfeitiçada que nenhum nascido de mulher pode acabar, e ouve que Macduff foi arrancado do ventre da mãe antes do tempo. Amaldiçoa a língua que lhe diz isso e acusa os demônios de jogar com palavras ambíguas, mas recusa render-se para ser exibido como o Tirano num mastro e luta até o fim. Macduff volta com a cabeça dele e saúda Malcolm como rei.

Temas que encarna

O crime nasce nele antes de qualquer pressão de fora. Na cena 3 do Ato I, logo depois de a primeira promessa se cumprir, Macbeth já pensa num assassínio ainda fantasioso e se pergunta se a Sorte poderia coroá-lo sem a sua ação, e Banquo, ouvindo a mesma profecia, lê nela um aviso. A profecia não fala em matar, e é Macbeth quem completa o raciocínio, no ponto em que a peça cruza Ambição e Destino e livre-arbítrio.

As profecias se cumprem pela letra, e por meios humanos: na cena 4 do Ato V, Malcolm manda cada soldado levar um galho para esconder o número da tropa, e na cena 7 do Ato V Macduff revela ter sido tirado do ventre da mãe antes do tempo. Macbeth acusa os demônios de brincar com as palavras.

Nada disso é milagre, e o que o enfurece é não admitir que foi ele quem leu como impossibilidade o que a promessa deixava em aberto. O Sobrenatural da peça engana dizendo a verdade.

Macbeth é o personagem em quem o Poder mais se esvazia à medida que se completa. Cada passo o deixa mais só: na cena 2 do Ato III já decide sem a mulher, na cena 1 do Ato IV age sem hesitar, e na cena 3 do Ato V lista o que a velhice devia trazer, respeito, amor, obediência e amigos, e diz que nada disso lhe cabe desejar. Na cena 5 do Ato V, a morte da rainha não o faz parar para o luto, e o que ele diz do tempo e da vida mostra o que a coroa lhe deixou.

A Violência dele muda de natureza ao longo da peça. Em Inverness, o crime custa uma noite de imagens, o punhal, as mãos, a voz sobre o sono, e a Culpa aparece como sofrimento da imaginação. Depois do banquete e das aparições, a dúvida desaparece e o massacre de Fife acontece sem uma cena de hesitação, num Macbeth que já não pensa antes de matar.

Relações

  • Lady Macbeth: a mulher que dá nome ao que ele deseja, o envergonha na cena 7 do Ato I e o empurra ao crime, e de quem ele se afasta aos poucos, decidindo sozinho a partir da cena 2 do Ato III.
  • Banquo: o companheiro de armas que ouve a mesma profecia e a lê ao contrário, e que ele manda matar na cena 3 do Ato III, voltando como fantasma na cena 4 do Ato III.
  • Duncan: o rei, parente e hóspede que ele mata em Inverness, e que o honra até a véspera.
  • Macduff: o barão de Fife que a primeira aparição manda temer, cuja família ele manda massacrar e que o mata no fim.
  • Malcolm: o herdeiro que ele vê como obstáculo na cena 4 do Ato I e que volta como rei na cena 7 do Ato V.
  • As Bruxas: quem lhe diz o que será, e a quem ele volta, pelos piores meios, depois do banquete.