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A Montanha Mágica

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

Uma visita a Davos

Thomas Mann começou a pensar A Montanha Mágica em 1912, depois de visitar a mulher, Katia, que se tratava de um problema no pulmão num sanatório de Davos, na Suíça. Ele ficou algumas semanas, e os médicos, ao examiná-lo, aconselharam que ficasse mais tempo; ele voltou para casa. O episódio foi parar no livro: na seção O termômetro, é o dr. Behrens quem examina o visitante, acha um lugar úmido no pulmão e o manda para a cama. Mann imaginou a princípio uma novela curta e irônica, um contrapeso cômico a Morte em Veneza, que saíra naquele mesmo ano. O texto cresceu, e a visita de três semanas de Hans Castorp, que começa em A chegada, virou sete anos de narrativa.

A guerra que partiu o livro ao meio

A guerra de 1914 interrompeu o trabalho, e Mann só o retomou depois dela. O romance foi terminado em 1924 por um autor que vivera a guerra e a derrota da Alemanha, e isso aparece logo na abertura: no Propósito, o narrador diz que a história é antiga porque se passa antes da Grande Guerra, que abriu um sulco entre dois mundos. Em 1918, Mann publicara as Considerações de um apolítico, em que defendia a cultura alemã contra a ideia de civilização democrática que atribuía ao irmão, o escritor Heinrich Mann. O duelo de ideias entre Settembrini e Naphta, que ocupa o centro do livro, ecoa essa briga.

A tuberculose e a vida de sanatório

Quando a história começa, a tuberculose era uma das doenças que mais matavam na Europa. O bacilo fora identificado por Robert Koch em 1882, mas não havia remédio, e os antibióticos só chegaram na década de 1940. O tratamento era a cura de repouso: ar puro de altitude, comida farta e longas horas deitado ao ar livre. Davos, a cerca de 1.600 metros, era um dos grandes centros desse método, e é essa rotina que Hans aprende nas primeiras semanas, com o termômetro de sete minutos e o repouso na sacada, em Sutileza do pensamento. Havia também tratamentos mais duros, como o pneumotórax, em que o médico provoca o colapso do pulmão doente para que ele descanse, técnica criada pelo italiano Carlo Forlanini no fim do século XIX; Joachim o explica a Hans no primeiro passeio. Os raios X, descobertos por Wilhelm Röntgen em 1895, já ajudavam no diagnóstico: Hans vê o esqueleto do primo na sala escura da cena da radiografia.

A Europa de antes de 1914

O sanatório é internacional, e nele conversam as correntes que levariam a Europa à guerra. Settembrini, o humanista italiano, herda o liberalismo e o Iluminismo: o avô dele foi carbonário, e ele se diz discípulo do poeta Giosuè Carducci, cujo hino a Satanás, dos anos 1860, saudava a razão contra a Igreja, como se vê em Satana. Naphta, o jesuíta, defende uma mistura de fé medieval e revolução social: para ele, os princípios econômicos da Igreja antiga voltam no comunismo moderno, em Da Cidade de Deus e da redenção pelo mal. Em A grande irritação, ele cita o naufrágio do Titanic, de 1912, como um acontecimento de efeito edificante. No fim, a guerra de 1914, deflagrada depois do assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, em Sarajevo, chega ao Berghof com as primeiras mobilizações, e é ela que expulsa Hans da montanha, em O trovão.

Publicação e recepção

O livro saiu em novembro de 1924, em dois volumes, pela editora S. Fischer, de Berlim, e a extensão cumpre a promessa de contar tudo com minúcia, feita no Propósito. Teve boa acolhida de leitores e da imprensa. Cinco anos depois, em 1929, Mann recebeu o Nobel de Literatura, e a justificativa da Academia Sueca citou principalmente Os Buddenbrook, o romance de estreia dele, e não A Montanha Mágica.

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