Clavis Libri

A Montanha Mágica · Capítulo I

A chegada ao Berghof

Introdução

Resumo da seção

O capítulo de abertura narra a chegada de Hans Castorp a Davos, mas o Propósito, escrito antes de qualquer personagem entrar em cena, já entrega a chave do romance inteiro: a história é velha por natureza, não por distância no tempo. Na sequência, o narrador usa a própria viagem para lançar uma tese que vai sustentar o livro todo, a de que o espaço faz ao homem o que se costuma atribuir só ao tempo, e Joachim Ziemssen, no primeiro diálogo, já fala a língua do sanatório como quem não percebe mais a própria estranheza dela.

Propósito

Resumo da seção

Antes de qualquer cena, o narrador diz que quer contar a história de Hans Castorp pela história em si, e que ela deve ser relatada no passado mais remoto, porque se desenrola antes da Grande Guerra. Promete narrá-la com exatidão e minúcia, e brinca com o tempo que isso vai tomar, que decerto não chegará a sete anos.

Análise

Ainda no primeiro parágrafo, o narrador nega que a antiguidade de uma história dependa de quanto tempo já passou desde que ela ocorreu. não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade

O próprio narrador diz que a observação serve para aludir e remeter ao caráter problemático e à peculiar duplicidade desse elemento misterioso, o tempo: é a chave de leitura do romance, dita antes da primeira linha do enredo. Logo em seguida ele explica a idade da história pela Grande Guerra, uma peripécia e um limite que abriram um sulco profundo nas vidas e consciências dos homens, de modo que o que envelhece a história não é o calendário, mas a distância entre o mundo em que ela se passa e o mundo de quem a lê.

O narrador também anuncia, já no Propósito, o método com que vai contar a história. Narrá-la-emos pormenorizadamente, com exatidão e minúcia

É uma promessa de ritmo, não só de estilo: o narrador está avisando que os anos de Hans Castorp lá em cima vão ser contados devagar, e que essa lentidão é proposital.

Fechando o Propósito, o narrador brinca com a duração da própria narrativa e antecipa, ainda que negando, a medida real da estada de Hans Castorp. Decerto não chegará — Deus me livre — a sete anos!

Para discutir O narrador afirma que "não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade" e, na mesma passagem, promete contá-la "com exatidão e minúcia". De que depende, então, a antiguidade de uma história, e por que ele liga essa ideia à promessa de contar tudo com tanto pormenor?

A chegada

Resumo da seção

Hans Castorp, rapaz de Hamburgo, viaja sozinho a Davos-Platz para uma visita de três semanas ao primo Joachim Ziemssen, com baldeação em Landquart e uma subida de trem de bitola estreita pelas montanhas. Em Davos-Dorf, Joachim o espera na plataforma e o leva de carro ao Sanatório Berghof (ver O Berghof). Pelo caminho fala do tempo "aqui em cima", da paisagem e dos cadáveres descidos em trenós, e da "dissecação psíquica" de Dr. Krokowski, assistente de Dr. Behrens; o prazo do primo indigna Hans Castorp, e os cadáveres e a dissecação psíquica o fazem rir sem conseguir se conter.

Análise

A duração da visita é fixada logo na primeira frase da seção. Ia de visita, por três semanas.

Já na descrição da viagem, o narrador a interrompe para formular a tese central do capítulo: o espaço, não o tempo, é o que desliga um homem do seu mundo. Dois dias de viagem apartam um homem [...] do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; apartam-no muito mais do que esse jovem podia imaginar enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, roja-se de permeio entre ele e seu lugar de origem revela forças que se costuma julgar privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda.

A tese do tempo suspenso, que domina o romance, entra aqui como tese do espaço: é a distância percorrida que começa a afrouxar o vínculo de Hans Castorp com Hamburgo. O desdobramento pertence a outro trecho do livro, não a este capítulo.

Hans Castorp não pretendia levar a viagem a sério: queria vencê-la depressa e voltar a Hamburgo exatamente onde parara. Propusera-se liquidá-la depressa, porque tinha que ser feita, depois regressar para casa tal como partira, e retomar sua vida anterior exatamente no ponto em que a abandonara por um instante.

Joachim espera na plataforma de Davos-Dorf, antes do destino, e a chegada se dá sem que Hans Castorp a perceba. Não, você já chegou, sim. Estamos no vilarejo.

Hans Castorp repete a mesma medida ao primo, tratando-a como um dado simples de calendário. Ora, daqui a três semanas.

Joachim responde relativizando a mesma medida, e é aqui que o vocabulário do sanatório entra pela primeira vez na conversa. Três semanas representam quase nada para nós aqui em cima, mas para você que vem de visita e tenciona demorar-se só três semanas é uma porção de tempo. [...] “Regressar daqui a três semanas” é uma ideia lá de baixo.

Essas três semanas ditas em voz alta logo no primeiro diálogo são a medida que o leitor precisa guardar: contra elas, e não contra um número abstrato, os sete anos anunciados no Propósito se tornam vertiginosos.

Diante da indignação de Hans Castorp com os seis meses que Behrens ainda lhe prescreveu, Joachim descreve o efeito do lugar sobre a noção de tempo com uma naturalidade que já soa como um hábito adquirido, não como observação de recém-chegado. Aqui não fazem muita cerimônia com o tempo da gente. Você não tem ideia. [...] Tudo isso se aprende [...] Aqui todas as concepções se transformam.

No mesmo trecho, ainda na subida de carro até o sanatório, Joachim menciona os mortos do Schatzalp com a mesma displicência com que comentaria o clima. No inverno, eles têm de transportar os cadáveres em trenós, porque os caminhos se tornam impraticáveis…

O riso quase incontrolável de Hans Castorp diante dessa frase mede a distância entre os dois primos naquele primeiro dia: o que para Joachim já é rotina de sanatório ainda soa, para o recém-chegado, como humor negro.

Joachim fala também do assistente do médico-chefe, e a atividade que o prospecto destaca é a que mais diverte o recém-chegado. No prospecto fala-se especialmente da sua atividade: a dissecação psíquica dos pacientes.

Hans Castorp grita que a coisa é nojenta e a hilaridade o toma de novo, a ponto de chorar de rir, enquanto Joachim também ri de bom grado. É assim, entre risos, que os dois descem do carro diante do portal do Berghof.

Para discutir Durante a viagem, o narrador diz que o espaço revela "forças que se costuma julgar privilégio do tempo". Por que a distância, e não a duração, é o que primeiro afasta Hans Castorp de Hamburgo, e o que isso sugere sobre as "três semanas" que ele planeja ficar?

Nº 34

Resumo da seção

Um criado de libré leva os primos pelo elevador e pelo corredor branco até o quarto de Hans Castorp, o número trinta e quatro, entre o de Joachim e o de um casal russo. Joachim conta que uma americana morreu ali anteontem e que o quarto foi desinfetado, e Hans Castorp, nervoso, fala de aldeído metílico, de charutos e de frio nos pés com calor no rosto. Ao descerem para o jantar, ouve a tosse de um aristocrata austríaco, que o impressiona vivamente.

Análise

Joachim apresenta o quarto no mesmo fôlego em que explica por que ele ficou livre. Aqui está o seu quarto — disse Joachim. — Número trinta e quatro.

A explicação vem no mesmo desprendimento com que Joachim falara dos trenós. Anteontem morreu aqui uma americana — disse Joachim.

Diante da história da americana e do noivo que chorava no corredor, Hans Castorp desvia para a desinfecção, como quem fecha o assunto. Desinfetaram, então está ótimo

Entre os pertences que Hans Castorp menciona ao se instalar está uma quantidade precisa de charutos, o detalhe que ao longo do romance vai servir como instrumento de medida do seu estado físico, não apenas como traço de gosto burguês. tinha na maleta duzentos Maria Mancini, seu charuto preferido

Ainda no quarto, Hans Castorp descreve uma sensação contraditória de frio no corpo e calor no rosto que Joachim trata como efeito comum do ar da montanha. Estou é com frio! Um frio horroroso, ao menos no corpo, pois o rosto me arde!

No corredor, a caminho do restaurante, o narrador descreve a tosse de um hóspede como nada que Hans Castorp tivesse ouvido antes. uma tosse inteiramente despida de prazer e alívio, que não se dava em acessos regulares, mas soava como se alguém chafurdasse de maneira débil e horripilante no lamaçal da podridão orgânica

Joachim identifica o dono da tosse com a mesma secura com que citara os mortos. Este é um caso sério. Um aristocrata austríaco, homem elegante, como que feito para andar a cavalo. E agora vai desse jeito.

Para discutir Ao receber o quarto em que uma americana morreu anteontem, Hans Castorp diz "Desinfetaram, então está ótimo" e passa a falar de micróbios. O que esse desvio mostra sobre a maneira como ele lida com a morte, e o que já revela do tipo de visitante que ele é?

No restaurante

Resumo da seção

Os primos jantam numa sala quase vazia, onde só uma senhora come lendo, e Hans Castorp bebe vinho enquanto Joachim, entre queixas do tédio e do prazo de mais meio ano, ri com ele das gafes da sra. Stöhr. Hans Castorp começa a cochilar à mesa, é levado ao vestíbulo e ali Joachim o apresenta ao dr. Krokowski, que zomba da sua perfeita saúde. De volta ao quarto, Hans Castorp dorme e sonha com Joachim de trenó e com a sra. Iltis.

No jantar, pressionado sobre se ao menos o tempo passa depressa ali, Joachim dá a formulação mais seca que o romance tem sobre o lugar, e ela vem dele, não do narrador nem de nenhum dos pedagogos que ainda vão chegar.

Análise

Depressa ou devagar, como queira [...] Ele não passa é de modo algum, sabe? Aqui não há tempo nem vida; não há é coisa alguma

A frase antecipa, em boca de militar entediado, tudo o que o Excurso do capítulo IV vai desenvolver como teoria, e é a que costuma ser citada quando se resume o romance. Vale reter que ela é dita no primeiro dia, antes de qualquer doutrina, e por quem só quer ir embora.

O jantar termina em riso repetido dos dois primos, provocado pelas histórias que Joachim conta sobre os outros hóspedes, um riso que se estende até sacudir o corpo de ambos. E quase deitados, recostados no espaldar das cadeiras, ambos riram-se tanto que o corpo lhes estremeceu e ficaram com soluços quase ao mesmo tempo.

O calor no rosto e o riso maior do que a situação pedia são, já no primeiro jantar, sintomas que o capítulo instala sem explicar.

Joachim volta a falar do próprio infortúnio, e o cansaço de Hans Castorp o interrompe. viu que ele estava a ponto de adormecer, até já estava cochilando

Krokowski recebe a notícia de que o novo hóspede veio sem doença com um sorriso e uma frase que desfaz a ideia de saúde. Nesse caso o senhor é um fenômeno digno de ser estudado. Eu, pelo menos, ainda não encontrei um homem sequer em perfeita saúde.

Ao se despedir, depois de Hans Castorp recusar toda assistência médica, Krokowski devolve a recusa como diagnóstico. Pois então, sr. Castorp, durma bem, na plena convicção de sua saúde inatacável!

Para discutir No primeiro jantar, Joachim diz que o tempo "não passa é de modo algum" e que "Aqui não há tempo nem vida". Por que o romance põe essa frase na boca de Joachim, antes de qualquer doutrina, e o que ela ganha ou perde por ser dita como queixa e não como teoria?