Capítulo I: A chegada ao Berghof
Ainda no primeiro parágrafo, o narrador nega que a antiguidade de uma história dependa de quanto tempo já passou desde que ela ocorreu. não é propriamente ao tempo que a história deve o seu grau de antiguidade
O próprio narrador diz que a observação serve para aludir e remeter ao caráter problemático e à peculiar duplicidade desse elemento misterioso
, o tempo: é a chave de leitura do romance, dita antes da primeira linha do enredo. Logo em seguida ele explica a idade da história pela Grande Guerra, uma peripécia e um limite que abriram um sulco profundo nas vidas e consciências dos homens
, de modo que o que envelhece a história não é o calendário, mas a distância entre o mundo em que ela se passa e o mundo de quem a lê.
O narrador também anuncia, já no Propósito, o método com que vai contar a história. Narrá-la-emos pormenorizadamente, com exatidão e minúcia
Fechando o Propósito, o narrador brinca com a duração da própria narrativa e antecipa, ainda que negando, a medida real da estada de Hans Castorp. Decerto não chegará — Deus me livre — a sete anos!
A duração da visita é fixada logo na primeira frase da seção. Ia de visita, por três semanas.
Já na descrição da viagem, o narrador a interrompe para formular a tese central do capítulo: o espaço, não o tempo, é o que desliga um homem do seu mundo. Dois dias de viagem apartam um homem [...] do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; apartam-no muito mais do que esse jovem podia imaginar enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, roja-se de permeio entre ele e seu lugar de origem revela forças que se costuma julgar privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda.
Hans Castorp não pretendia levar a viagem a sério: queria vencê-la depressa e voltar a Hamburgo exatamente onde parara. Propusera-se liquidá-la depressa, porque tinha que ser feita, depois regressar para casa tal como partira, e retomar sua vida anterior exatamente no ponto em que a abandonara por um instante.
Joachim espera na plataforma de Davos-Dorf, antes do destino, e a chegada se dá sem que Hans Castorp a perceba. Não, você já chegou, sim. Estamos no vilarejo.
Hans Castorp repete a mesma medida ao primo, tratando-a como um dado simples de calendário. Ora, daqui a três semanas.
Joachim responde relativizando a mesma medida, e é aqui que o vocabulário do sanatório entra pela primeira vez na conversa. Três semanas representam quase nada para nós aqui em cima, mas para você que vem de visita e tenciona demorar-se só três semanas é uma porção de tempo. [...] “Regressar daqui a três semanas” é uma ideia lá de baixo.
Diante da indignação de Hans Castorp com os seis meses que Behrens ainda lhe prescreveu, Joachim descreve o efeito do lugar sobre a noção de tempo com uma naturalidade que já soa como um hábito adquirido, não como observação de recém-chegado. Aqui não fazem muita cerimônia com o tempo da gente. Você não tem ideia. [...] Tudo isso se aprende [...] Aqui todas as concepções se transformam.
No mesmo trecho, ainda na subida de carro até o sanatório, Joachim menciona os mortos do Schatzalp com a mesma displicência com que comentaria o clima. No inverno, eles têm de transportar os cadáveres em trenós, porque os caminhos se tornam impraticáveis…
Joachim fala também do assistente do médico-chefe, e a atividade que o prospecto destaca é a que mais diverte o recém-chegado. No prospecto fala-se especialmente da sua atividade: a dissecação psíquica dos pacientes.
Joachim apresenta o quarto no mesmo fôlego em que explica por que ele ficou livre. Aqui está o seu quarto — disse Joachim. — Número trinta e quatro.
A explicação vem no mesmo desprendimento com que Joachim falara dos trenós. Anteontem morreu aqui uma americana — disse Joachim.
Diante da história da americana e do noivo que chorava no corredor, Hans Castorp desvia para a desinfecção, como quem fecha o assunto. Desinfetaram, então está ótimo
Entre os pertences que Hans Castorp menciona ao se instalar está uma quantidade precisa de charutos, o detalhe que ao longo do romance vai servir como instrumento de medida do seu estado físico, não apenas como traço de gosto burguês. tinha na maleta duzentos Maria Mancini, seu charuto preferido
Ainda no quarto, Hans Castorp descreve uma sensação contraditória de frio no corpo e calor no rosto que Joachim trata como efeito comum do ar da montanha. Estou é com frio! Um frio horroroso, ao menos no corpo, pois o rosto me arde!
No corredor, a caminho do restaurante, o narrador descreve a tosse de um hóspede como nada que Hans Castorp tivesse ouvido antes. uma tosse inteiramente despida de prazer e alívio, que não se dava em acessos regulares, mas soava como se alguém chafurdasse de maneira débil e horripilante no lamaçal da podridão orgânica
Joachim identifica o dono da tosse com a mesma secura com que citara os mortos. Este é um caso sério. Um aristocrata austríaco, homem elegante, como que feito para andar a cavalo. E agora vai desse jeito.
Depressa ou devagar, como queira [...] Ele não passa é de modo algum, sabe? Aqui não há tempo nem vida; não há é coisa alguma
O jantar termina em riso repetido dos dois primos, provocado pelas histórias que Joachim conta sobre os outros hóspedes, um riso que se estende até sacudir o corpo de ambos. E quase deitados, recostados no espaldar das cadeiras, ambos riram-se tanto que o corpo lhes estremeceu e ficaram com soluços quase ao mesmo tempo.
Joachim volta a falar do próprio infortúnio, e o cansaço de Hans Castorp o interrompe. viu que ele estava a ponto de adormecer, até já estava cochilando
Krokowski recebe a notícia de que o novo hóspede veio sem doença com um sorriso e uma frase que desfaz a ideia de saúde. Nesse caso o senhor é um fenômeno digno de ser estudado. Eu, pelo menos, ainda não encontrei um homem sequer em perfeita saúde.
Ao se despedir, depois de Hans Castorp recusar toda assistência médica, Krokowski devolve a recusa como diagnóstico. Pois então, sr. Castorp, durma bem, na plena convicção de sua saúde inatacável!
Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô
Ao ouvir o avô recitar os nomes, o menino sentia algo que o narrador descreve como um efeito quase físico, o som dos prefixos genealógicos acumulados soando como vindo de um mundo submerso: esses "bis, tris, tetra", sons obscuros de tumba e de tempos soterrados, que todavia expressavam uma ligação piedosamente mantida entre o presente — a sua própria vida — e aquele mundo submerso
.
O próprio avô repetia a cada vez, sobre a mesma bacia, o relato de três batismos, o de Hans, o do pai dele e o do próprio avô, cada um com a água caindo na mesma concavidade dourada, e é diante dessa repetição idêntica que o narrador nomeia pela primeira vez o sentimento central do capítulo, a impressão estranha, entre sonhadora e angustiante, de algo que desfilava sem se mover, que se mudava e contudo permanecia, algo que era tanto reiteração como vertiginosa monotonia
.
Para a criança, e depois para a lembrança do adulto, era a segunda imagem que valia como autêntica, e a primeira que se reduzia a uma aproximação incompleta dela: para o menino de sete anos tanto como para a recordação do adulto, a imagem cotidiana e familiar do ancião não constituía a genuína e verdadeira
.
Assim o menino aprovou no seu íntimo que o avô surgisse em plena autenticidade e perfeição no dia em que chegou a hora de lhe dizer adeus para sempre
, porque na morte o avô, solenemente desobrigado daquela adaptação passageira, assumira em definitivo o seu genuíno e merecido aspecto
.
O narrador nota que a repetição, em vez de despedaçar o menino, produziu nele um distanciamento peculiar: Afinal já era a terceira vez, num curto lapso de tempo, e numa idade tão tenra, que a morte agia sobre o espírito e os sentidos — principalmente os sentidos — do pequeno Hans Castorp
, e o terceiro enterro acrescentou um matiz especial [...] que o imunizou contra os frequentes acessos de choro e o contágio do pranto dos demais, fazendo que tudo isso se lhe afigurasse como uma reação normal
.
Dessa terceira morte o narrador extrai a formulação com que resume o duplo rosto da morte no romance inteiro: a morte tinha dois aspectos, um piedoso, significativo, de melancólica beleza [...] e ao mesmo tempo tinha outro, absolutamente diverso e até mesmo oposto, um aspecto muito físico, bem material, que era impossível qualificar propriamente de belo, significativo, piedoso, nem sequer de triste
.
uns quatrocentos mil marcos: a herança de Hans Castorp
é a soma que o cônsul consegue salvar da liquidação, aplicada a juros e cobrada com a comissão legal de praxe, apesar do parentesco.
O homem não vive somente sua vida pessoal como indivíduo; consciente ou inconscientemente, participa também da vida de sua época e de seus contemporâneos
, e o bem-estar de cada um depende não só dos seus objetivos pessoais, mas de o tempo em que vive oferecer ou não uma resposta às perguntas mais gerais sobre o sentido do esforço humano.
Quando essa resposta falta, o efeito não fica confinado ao ânimo: Para alguém se dispor a empreender uma obra que ultrapasse a medida da necessidade pura e simples, sem que seu tempo saiba uma resposta satisfatória à pergunta "Para quê?", é indispensável um isolamento e prontidão moral, algo raro e de natureza heroica, ou então uma vitalidade muito robusta
, e Hans Castorp, diz o narrador, não possuía nem uma coisa nem outra.
O narrador insiste em que essa carência de sentido supremo não fica só no plano moral: esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo
.
O velho Wilms, da casa Tunder & Wilms, decide por ele, e é dessa frase que sai a carreira de engenheiro naval. Hans Castorp deveria estudar engenharia naval, isso sim seria uma ideia, então ele poderia entrar na minha firma, e eu cuidaria do rapaz
Tinha atrás de si quatro semestres de estudos na Escola Politécnica de Dantzig e outros quatro nas escolas congêneres de Brunswick e de Karlsruhe.
O diagnóstico é firme quanto ao lugar, não quanto à doença: nem Norderney nem a ilha de Föhr bastariam desta vez, a seu ver Hans Castorp, antes de entrar nos estaleiros, deveria passar algumas semanas nas altas montanhas
.
O cônsul recusa as altas montanhas para si e propõe que o sobrinho vá sozinho visitar o primo, e o narrador explica por que a ideia era natural: a doença de Joachim, diferente da de Hans Castorp, é séria. Pois Joachim Ziemssen estava doente — não doente como Hans Castorp, mas de outro modo, realmente sério, que causara mesmo um grande susto a toda a família.
O capítulo fecha com a medida do tempo que Hans Castorp se dá, a mesma que o romance vai desfazer. Pretendeu viajar por três semanas.
Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini
O narrador enumera os nomes possíveis para essa reação, todos igualmente insuficientes: pureza da alma, ou talvez o belo e austero nome de pudicícia, ou ainda os nomes depreciativos de indisposição à verdade ou de tartufice, ou até mesmo o de piedade ou resguardo místico [...] atitude que se manifestava em um ensombramento pudico de sua fisionomia, como se ele mesmo nada devesse saber daquilo que ouvia, nem o quisesse: essa expressão de inocência não era propriamente original, mas ele tinha o hábito de adotá-la em certas ocasiões
E de repente corou por baixo da camada de pó de arroz: o que ele já previra claramente acabava de suceder: a brincadeira, sem dúvida alguma, tomara um rumo animalesco.
Joachim explica o apelido da mulher de preto com o mesmo desprendimento com que fala dos mortos. Todos a chamam assim porque essas palavras são as únicas que se ouvem dela.
Havia sete mesas na sala, a maioria em sentido longitudinal e apenas duas colocadas de través. Eram mesas grandes, cada qual com capacidade para dez pessoas, se bem que nem todas estivessem completamente ocupadas.
colegas de Joachim, companheiros seus de destino, todos enfermos por dentro, a conversar e a tomar seu café da manhã
A "costureira" da mesa já fala em excitação sem motivo, o primeiro sinal de que o mal de todos ali é o mesmo que começa a chegar a Hans Castorp. declarou sentir-se, pelo contrário, muito agitada, desassossegada, tomada de uma tensão interior
A porta da esquerda bate durante a refeição, e Hans Castorp sente uma fúria que o próprio narrador não explica por inteiro. Hans Castorp sentiu um ódio mortal por esse ruído, que desde sempre o enfurecera [...] tinha vontade de esbofetear a quem cometesse esse crime na sua presença
Na saída, Behrens dá a Hans Castorp o conselho de que Settembrini vai rir mais tarde. Nada melhor, no seu caso, do que viver por algum tempo como se tivesse uma ligeira tuberculosis pulmonum e acumular proteínas.
A mocinha de suéter verde assobia sem abrir a boca, e Hans Castorp só entende o que ouviu quando Joachim explica. Essa é a Kleefeld, Hermine Kleefeld. Ela assobia com o pneumotórax.
Joachim explica por que os pacientes jovens são tão alegres, e a resposta dele vira a chave do primeiro dia. Às vezes me vem a ideia de que essa coisa da doença e da morte no fundo não é séria; é antes uma espécie de relaxamento.
o padre levava à altura do peito o viático recoberto, mantendo a cabeça humildemente inclinada; era o Santo Sacramento, você sabe
Ninguém me tirará da cabeça que um moribundo é mais nobre do que um indivíduo qualquer que passeia e ri e ganha dinheiro e enche a pança!
Logo depois da sentença, o riso da véspera volta a dominá-lo, ainda mais forte. de súbito suas palavras se afogaram numa gargalhada que se apoderou dele e o dominou; era o mesmo riso da véspera, uma risada que brotava das entranhas, lhe sacudia todo o corpo e não tinha fim, que lhe cerrou os olhos e arrancou lágrimas por entre as pálpebras comprimidas
“Um tocador de realejo”, pensou Hans Castorp, e assim não se admirou nem um pouquinho do nome que ouviu
Quantos meses lhe pespegaram os nossos Minos e Radamanto?E, momentos depois:Então o senhor veio por vontade própria a estas alturas, visitar esta gente decaída que somos
Fique sabendo, meu senhor, que ignoramos a semana como medida de tempo. Para nós, a menor unidade é o mês.
Nenhuma dessas falas nega que os pacientes estejam doentes, mas nenhuma trata a doença como elevação: juiz do inferno e gente decaída são figuras de rebaixamento, não de nobreza. É a mesma régua com que, logo em seguida, Settembrini recusa o próprio diabo que Hans Castorp invocara sem pensar. Ao ouvir "difícil como o diabo", ele pergunta se o rapaz sabe que seu grande mestre
dedicou ao demônio um hino, e recita o verso O salute, o Satana, o Ribellione, o forza vindice della Ragione
A única dignidade que Settembrini nomeia neste capítulo é humana, não patológica: somente ele guarda a tradição da dignidade e beleza do humano
O tempo não tem natureza própria, em absoluto. Quando nos parece longo, é longo, e quando nos parece curto, é curto, mas ninguém sabe em realidade a sua verdadeira extensão.
Medimos o tempo por meio do espaço, portanto. Mas isso é a mesma coisa que medir o espaço com o auxílio do tempo [...] o que fazem somente pessoas sem espírito científico.
Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de um modo uniforme; e onde está escrito que é mesmo assim? Para a nossa consciência, não é. Somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e nossas medidas, permita-me esta observação, não passam de convenções…
sentir que o coração bate gratuitamente, sem motivo nem sentido, por assim dizer por conta própria [...] é como se o corpo seguisse o seu próprio caminho e se tivesse desligado da alma
reina nele, sob aspectos físicos e químicos, a mais franca animação
Quando Hans Castorp diz que Marúsia tem aparência sadia, o rosto de Joachim muda de cor, e é a primeira vez que o texto mostra o que o primo guarda. o rosto de Joachim, apesar de tostado pelo sol, mostrava uma cor terrosa, como a adquire a pele queimada, quando o sangue se retira, e que sua boca se crispara de um modo particularmente doloroso
É nesse passeio que a "costureira" ganha nome e ofício. A costureira não era costureira, mas uma professora do Liceu Estadual Feminino de Königsberg, e por isso se expressava com tanta correção. Seu nome era sra. Engelhart.
Settembrini costuma dizer que vivemos uma vida horizontal, que somos uns horizontais.
Incluindo a sopa, constava de nada menos que seis pratos.
Ela caminhou sem ruído, o que criou um estranho contraste com sua entrada barulhenta; caminhou de um modo furtivo e peculiar, com a cabeça levemente avançada, até a última mesa à esquerda
Ao ver o rosto dela, Hans Castorp sente algo que ainda não sabe nomear. Uma recordação vaga, ele não sabia de que nem de quem, assaltou-o leve e passageiramente ao ver esse rosto
“Uma fêmea, naturalmente!”, pensou Hans Castorp
O corpo de Hans Castorp avisa antes dele, e o aviso passa sem que ele reflita. Quando fez uso do lenço, notou nele manchas de sangue, mas não teve forças para refletir a esse respeito
Conservo-o preparado para o dia em que esta coisa aqui começar a me aborrecer muito, e então terei a honra de uma despedida digna.
Incurável, minhas senhoras! Olhem o homem que aqui está à sua frente; é um caso incurável [...] Nada mais preciso fazer; não entro mais no balanço; posso me rir de tudo…
imaginou para si o que significaria ver-se definitivamente livre da pressão da honra e gozar para sempre as imensas vantagens da vergonha, uma sensação de gozo dissoluto o assustou
Mais uma vez — a quarta — achava-se sentado em seu lugar, na sala das sete mesas, com a abóbada de cores singelas.E, horas depois,às sete horas, encontrava-se ali pela quinta vez, por ocasião do jantar.
No vestíbulo, depois do jantar, Hans Castorp já não distingue o que viveu do que sonhou, e diz isso a Settembrini sem constrangimento. O senhor conhece essa sensação de sonhar e de saber que se sonha, de querer despertar e não conseguir? É justamente o que se passa comigo.
que tal se ainda esta noite preparasse suas malas e aproveitasse o trem de amanhã para pôr-se a caminho e safar-se daqui?
“O que ela me lembra? E quem, neste mundo inteiro?”, ele pensou.
se eu logo abandonasse o posto, só por sentir durante alguns dias um pouco de calor e de tonturas, teria vergonha de mim e me julgaria covarde
Inclino-me diante da razão [...] Inclino-me também diante da coragem.
Depois, Hans Castorp sonhou que se encontrava no pátio do ginásio, onde durante tantos anos passara os intervalos entre as aulas, e que estava a ponto de pedir emprestado um lápis à madame Chauchat, que igualmente estava presente.
ele fez um esforço violento para se desprender do sonho; pois agora já sabia e queria gravar na memória que acontecimento e que pessoa ela lhe recordava com tamanha intensidade
No sonho seguinte, a tese do tempo que Hans Castorp improvisara de manhã vira, para ele, uma descoberta que quer comunicar a Joachim. evidenciou-se que o tempo nada mais era senão uma “irmã muda”, uma coluna de mercúrio desprovida de escala, para aqueles que quisessem trapacear
O sonho que se repete duas vezes na noite, uma delas de madrugada, entrega a Hans Castorp a mão de madame Chauchat. estendeu-lhe a mão para beijar — não as costas, mas sim a palma
A sensação que o sr. Albin lhe dera à tarde volta no sonho, muito mais forte. Novamente o invadiu então, dos pés à cabeça, aquela sensação de gozo dissoluto por que passara
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro
Se comprasse um saco de peles, peço que me entenda, eu teria a impressão de estar querendo me domiciliar aqui e de tornar-me, em certo sentido, um de vocês
, Compra necessária
A doença absolutamente não é nobre, nem digna de reverência, de modo algum.
, Compra necessária
Uma alma sem corpo é tão desumana e horripilante quanto um corpo sem alma.
, Compra necessária
Um conteúdo rico e interessante é [...] capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia
, Excurso sobre o sentido do tempo
O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa — esse fato também se baseia no hábito
, Excurso sobre o sentido do tempo
continham oxigênio, conforme Joachim lhe explicou, em resposta à sua pergunta. Era oxigênio puro, a seis francos o balão, e esse gás vivificante era ministrado aos agonizantes, para lhes dar um derradeiro estímulo e prolongar a duração das suas forças.
, Hans Castorp faz uma tentativa de conversação em francês
Era o primeiro moribundus com que Hans Castorp deparava em sua vida, visto os pais e o avô terem morrido, por assim dizer, pelas suas costas.
, Hans Castorp faz uma tentativa de conversação em francês
Tous les dé, monsieur
, Hans Castorp faz uma tentativa de conversação em francês
Mas, quando as pessoas estão sérias e tristes e a morte entra em jogo, não me sinto propriamente deprimido nem acanhado; pelo contrário, tenho a sensação de estar no meu elemento
, Hans Castorp faz uma tentativa de conversação em francês
Aparentemente a música é toda movimento, e contudo suspeito nela o quietismo. [...] tenho contra a música uma antipatia de caráter político
, Politicamente suspeita!
Olhe, essas pecinhas insignificantes duram sete minutos, em média, não é? E esses sete minutos têm alguma coisa em particular, têm princípio e têm fim
, Politicamente suspeita!
ela mede o curso do tempo de uma forma especial e cheia de vida, e assim lhe empresta vigilância, espírito e preciosidade. A música desperta o tempo; desperta a nós, para tirarmos do tempo um gozo mais refinado; desperta… e portanto é moral
, Politicamente suspeita!
Não exagero ao declarar que ela é politicamente suspeita.
, Politicamente suspeita!
Perdão, você poderia me emprestar um lápis?
, Hippe
Mas você deve devolvê-lo sem falta depois da aula.
, Hippe
Como é parecido com ela, com aquela mulher, aqui de cima!
, Hippe
Os olhos com que ela o fixara, bem no rosto e mirando as manchas de sangue no casaco, eram exatamente os de Pribislav
, Análise
o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer [...] Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado
, Análise
Ficou claro que o dr. Krokowski, no fim da sua conferência, fez propaganda intensa a favor da dissecação das almas, e convidou todo o mundo, com os braços abertos, para vir até ele. Vinde a mim todos os que trabalhais e vos achais carregados, disse ele, embora com outras palavras.
, Análise
Mas será possível que quem se inclua entre os escravos de uma potência exerça sobre ela efetivo domínio espiritual? Quem está oprimido pode libertar?
, Dúvidas e ponderações
lhe ficara o referido tremor de cabeça peculiar ao avô
, Conversas à mesa
A sra. Chauchat chamava-se Clawdia.
, Conversas à mesa
Já não se podia dizer que o coração batia à toa, sem motivo, e sem nexo com a alma.
, Conversas à mesa
o guardanapo dela começa a deslizar do colo e fica a ponto de cair ao chão
, Temor nascente
que na sua posição, cor e expressão pareciam-se de modo surpreendente e mesmo assustador com os de Pribislav Hippe. “Pareciam-se” não seria de modo algum a expressão adequada — estes olhos eram os mesmos
, Temor nascente
sentia qualquer coisa como um temor nascente, uma angústia semelhante àquela que lhe causava a sensação de estar preso na mesma cela com a quase oportunidade favorável
, Temor nascente
Certamente, isto são dois mundos, dois pontos cardeais
, Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo
Recordou um solitário passeio de barca, ao crepúsculo, num lago de Holstein, passeio que fizera em fins de verão, alguns anos antes.
, Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo
Seu nome era: civilização!
, Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo
Aqui em cima, a menor unidade de tempo era o mês
, O termômetro
Mas catarros não vêm do frio. Eles vêm é de uma infecção para a qual se está predisposto.
, O termômetro
Hans Castorp tinha 37,6.
, O termômetro
quando os olhos falam, tratam-nos por "você", mesmo que a boca ainda não tenha sequer pronunciado "o senhor"
, O termômetro
cheguei à opinião bastante firme de que o senhor era, clandestinamente, um dos nossos e acabaria por perceber esse fato, como fizeram tantos outros que vieram aqui para divertir-se, estudaram o ambiente, torcendo o nariz, e um belo dia ficaram sabendo que seria conveniente para eles [...] abandonarem a atitude de curiosidade displicente e passarem aqui uma temporada extensa
, O termômetro
não vale a pena regressar, Hans Castorp, pois dentro em breve teria de apresentar-se novamente
, O termômetro
Bem, o ar que temos aqui é bom contra a enfermidade. [...] Mas, ao mesmo tempo, este ar também é bom para a enfermidade; compreende? No começo acelera o seu curso, revoluciona o corpo, fomenta a irrupção da doença latente, e tal irrupção é, com a sua licença, o seu catarro
, O termômetro
Bem, Castorp, o senhor vai se meter na cama; assim poderemos ver se algumas semanas de repouso total bastam para desembriagá-lo.
, O termômetro
Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis
A seção de abertura formula, antes de qualquer cena, a tese sobre o tempo do doente acamado que domina o capítulo inteiro. É o mesmo dia que se repete uma e outra vez; mas, justamente por se tratar sempre do mesmo dia, parece no fundo pouco adequado o termo "repetição"; melhor seria falar de monotonia, de um agora que parou ou de eternidade. Trazem a sopa até você na hora do almoço, assim como a trouxeram ontem e a trarão amanhã. E ao mesmo tempo você se sente presa de uma sensação singular [...]: você se vê invadido por uma espécie de vertigem, enquanto a sopa se aproxima; os tempos confundem-se, misturam-se no seu espírito, e o que se revela a você como verdadeira forma da existência é um presente sem extensão, no qual lhe trazem a sopa eternamente.
Diante do horror de Hans pela morte, Settembrini oferece a sua doutrina de humanista, que une morte e vida e proíbe usar uma contra a outra. a única maneira sadia e nobre, aliás, também, como acrescento expressamente, a única maneira religiosa de encarar a morte é compreendê-la e senti-la como uma parte, como um complemento, como uma condição inviolável da vida
No laboratório de radioscopia (ver A radiografia), Behrens mostra primeiro a Hans Castorp o próprio esqueleto de Joachim, que ele examina na penumbra através do anteparo luminoso. Deus do céu, era o coração. Hans Castorp estava vendo o coração honroso de Joachim. — Estou vendo seu coração! — disse com voz estrangulada.
Terminada a radioscopia de Joachim, Behrens permite a Hans Castorp contemplar a própria mão através do anteparo, e é aqui que o capítulo chega à sua cena mais forte. E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, em realidade, não cabe ver ao homem, e que jamais teria crido poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. Viu, antecipado pela força dos raios, o futuro trabalho da decomposição; viu a carne em que vivia, solubilizada, aniquilada, reduzida a uma névoa inconsistente, em meio à qual se destacava o esqueleto minuciosamente plasmado da sua mão direita, e em torno da primeira falange do dedo anular pairava, preto e frouxo, o anel-sinete que o avô lhe legara [...]. Com os olhos daquela parenta da família Tienappel, contemplou uma parte familiar do seu corpo [...], e pela primeira vez na vida compreendeu que estava destinado a morrer.
Sobre a análise, tema das conferências de segunda-feira, Settembrini dá o critério com que a mede. A análise é boa como instrumento do esclarecimento e da civilização; é boa, quando abala convicções estúpidas, dissipa preconceitos naturais e solapa a autoridade; é boa, em outros termos, enquanto liberta, refina, humaniza e prepara os escravos para a liberdade. É má, muito má mesmo, quando estorva a ação, quando prejudica as raízes da vida e se mostra incapaz de lhe dar forma.
Terminada a carta, o narrador diz o que ela significa para Hans, com uma palavra que ele não chega a formar, e que pouco tem a ver com o uso que Settembrini lhe dá. Essa terceira carta esgotava o assunto e teria um efeito duradouro — não segundo os conceitos de tempo que reinavam lá embaixo, mas segundo os daqui de cima; ela consolidava a liberdade de Hans Castorp.
O narrador diz do que se compõe a paixão de Hans, entre o corpo e o sonho. referia-se, numa palavra, ao corpo dela, um corpo lânguido e exaltado, acentuado em demasia pela doença e transformado pela doença, uma vez mais, em corpo.
O termômetro (ver O termômetro) mede aqui a paixão, e não a doença: o mercúrio cai quando Hans se sente rejeitado e sobe quando a saudação o redime, e o narrador faz a ligação explícita. O humilhante aviltamento da natureza de Hans Castorp foi superado pela saudação que trocara com Clawdia Chauchat; e sua satisfação, a rigor, devia-se à consciência que ele tinha desse encontro. Sim, Joachim tinha razão: o mercúrio tornava a subir!
No vestíbulo, Settembrini mostra a Hans Castorp a carta da Liga para a Organização do Progresso, que o incumbiu de redigir, para uma enciclopédia de vinte volumes sobre o sofrimento humano, o verbete dedicado às belas-letras. A ordem e a classificação formam o começo do domínio, e o inimigo mais perigoso é o inimigo desconhecido. [...] em aproximadamente vinte volumes de tipo enciclopédico, serão enumerados e tratados todos os males imagináveis dos homens [...]; numa palavra, a obra mostrará os elementos químicos que, em múltipla mistura e combinação, compõem todos os sofrimentos humanos
No mesmo encontro, Settembrini leva Hans Castorp à saleta de leitura e expõe a sua posição sobre o corpo diante do espírito, chamando o corpo de princípio mau justamente por amar o homem. Digo "sim" ao corpo, honro-o e sinto amor por ele [...]. Mas existe um poder, um princípio ao qual dedico a minha fervorosa aprovação [...], e esse poder [...] é o espírito. [...] não ignoro que, dentro da antítese de corpo e espírito, o primeiro representa o princípio mau e diabólico; pois o corpo é natureza, e a natureza [...] é má: mística e má!
Para sustentar essa hostilidade do espírito contra a natureza, Settembrini invoca um episódio histórico real. Voltaire revoltou-se contra ele. [...] Não admitiu aquele fado ou fato brutal, negou-se a abdicar perante ele. Protestou em nome do espírito e da razão contra esse excesso escandaloso da natureza que vitimou três quartas partes de uma florescente cidade e milhares de vidas humanas
É Hans Castorp quem conduz Behrens da pele até a linfa, e é dele, impetuoso, a pergunta de fundo. Que é o corpo? [...] Que é a carne? Que é o organismo humano? De que se compõe?
À pergunta sobre a composição da carne, Behrens responde numa cadeia que termina identificando vida e morte no mesmo processo químico. A vida é essencialmente uma combustão das proteínas das células, donde provém esse agradável calor animal, que às vezes é excessivo. Pois é, viver é morrer, nesse ponto não adianta dissimular. Trata-se de uma destruction organique, como um francesinho qualquer, na sua leviandade inata, qualificou a vida.
Depois de percorrer as tentativas da ciência de explicar a origem da vida a partir da matéria inanimada, o narrador formula a definição central do capítulo, meditada por Hans Castorp à luz vermelha do abajur. Era calor, o produto calorífico de uma instabilidade preservadora da forma, uma febre da matéria que acompanhava o processo de incessante decomposição e reconstituição de moléculas de albumina [...]. Não era nem matéria nem espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenômeno sustentado pela matéria, tal e qual o arco-íris sobre a queda-d'água, e igual à chama. Mas, se bem não fosse material, era sensual até a volúpia e até o asco, o impudor da natureza tornada irritável e sensível com respeito a si própria, e a forma lasciva do ser.
A mesma meditação chega ao pecado original como metáfora biológica, fechando o raciocínio que ligou doença, prazer e origem da vida num só movimento. A enfermidade era a forma licenciosa da vida. E a vida, por sua vez? Não passava ela, quiçá, de uma doença infecciosa da matéria [...]? [...] Eis o que era o pecado original.
Quando Settembrini zomba do novo hábito de Hans Castorp como busca de justificação por boas obras, a resposta dele, a que o italiano retruca citando a Escritura, defende o direito de levar o sofrimento a sério contra a "atividade prática" do humanista. Às vezes, quando tenho tempo, e sem que o regime sofra por isso, ocupo-me com os casos graves e sérios, compreende? Com aqueles que não estão aqui para divertir-se nem para entregar-se à licenciosidade, mas que estão morrendo.
O primeiro gesto concreto desse projeto é o envio anônimo de flores à jovem Leila Gerngross, moribunda de dezesseis ou dezessete anos, com um cartão que Hans Castorp redige antes de conhecê-la. Da parte de dois companheiros, com os melhores votos para o seu pronto restabelecimento
Hans Castorp explica a Clawdia por que escolhe o francês para dizer o que nunca disse em alemão. Pourquoi parler? [...] pour moi, parler français, c'est parler sans parler, en quelque manière: sans responsabilité, ou comme nous parlons en rêve.
É também em francês que Hans Castorp liga explicitamente a paixão presente ao episódio escolar do capítulo anterior, o pedido do lápis a Pribislav Hippe. Une fois déjà, lorsque j'étais collégien, je t'ai demandé ton crayon [...] parce que je t'aimais irraisonnablement, et c'est de là, sans doute, c'est de mon ancien amour pour toi que ces marques me restent que Behrens a trouvées dans mon corps, et qui indiquent que jadis aussi j'étais malade
No auge da cena, ajoelhado diante dela, Hans Castorp condensa em francês a tese que todo o capítulo vinha preparando desde a radiografia e as leituras de anatomia. Oh, l'amour, tu sais… Le corps, l'amour, la mort, ces trois ne font qu'un. Car le corps, c'est la maladie et la volupté, et c'est lui qui fait la mort, oui, ils sont charnels tous deux, l'amour et la mort, et voilà leur terreur et leur grande magie! [...] Laisse-moi ressentir l'exhalation de tes pores et tâter ton duvet, image humaine d'eau et d'albumine, destinée pour l'anatomie du tombeau, et laisse-moi périr mes lèvres aux tiennes!
Clawdia responde chamando-o de burguês bonito com a manchinha úmida no pulmão, põe-lhe na cabeça o seu gorro de papel do Carnaval e sai prevendo-lhe uma curva de febre ruim naquela noite; a última frase que lhe dirige, já da porta, fecha o episódio com o mesmo objeto que o abriu. N'oubliez pas de me rendre mon crayon.
Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim
Joachim, que descobre ter passado de Gaffky 2 para 9 em catorze dias, perde a calma que sempre o caracterizou. Que me deixem em paz com Gaffky! Vou dar a isso um ponto final; volto para casa, mesmo que me custe a vida!
Num encontro depois do Carnaval, Settembrini pergunta a Hans se gostou da romã e, diante do espanto dele, responde com uma sentença sobre os frutos do reino das sombras. Aconteceu algumas vezes que deuses e mortais tenham visitado o reino das sombras e encontrado o caminho de volta. Mas os habitantes do inferno sabem que quem comeu dos frutos desse reino lhes pertence para sempre.
No domingo de Páscoa, ao avisar que sai da casa, Settembrini cita a sentença que Behrens lhe pronunciou. Posso prolongar a minha vida, mas só aqui. A sentença, o veredicto final é “prisão perpétua”.
Joachim viu como o primo desaparecia na penumbra da caverna analítica do dr. Krokowski.
A primeira imagem que o texto fixa dele é toda em arestas: Tudo nele parecia cortante: o nariz adunco que dominava o rosto, a boca de lábios finos e comprimidos, as grossas lentes dos óculos de aros leves, atrás dos quais apontavam os olhos de um cinzento claro, até mesmo o silêncio que o homem guardava, e que fazia supor que também a sua maneira de falar seria incisiva e lógica
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Settembrini acusa Naphta de dividir o mundo em dois campos, e Naphta faz dessa divisão o próprio princípio do espírito. O dualismo, a antítese, eis aí o princípio motor, passional, dialético e espirituoso. Ver o mundo dividido em dois campos adversários: isso é espírito. Todo monismo é fastidioso.
Quando os dois passam à cama do monge, símbolo do isolamento contemplativo, Hans Castorp se mete na conversa e fala da própria experiência: a espreguiçadeira lhe deu mais ideias do que a planície em todos os anos passados. É o primeiro lance do aprendiz entre os dois mestres, e ele os toma pelo que lhe serve. a cama, ou melhor, a espreguiçadeira me fez progredir muito nos últimos dez meses e me proporcionou mais ideias do que o moinho, na planície, no curso de todos os anos passados.
Settembrini retruca que ao Ocidente cabem a razão e a ação, e Naphta devolve com a obra dos monges, que aproveita para despojar de qualquer sentido social. Era um exercício puramente ascético, [...] Era o mais imaculado egoísmo religioso.
Além disso, ele tem um nariz de judeu; você não viu? Só os semitas têm esses corpos minguados
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Hans Castorp, que já disse que vai visitar Naphta, recusa a Joachim a separação entre ficar mais inteligente e melhorar de saúde, e a recusa como paisano responsável, que quer formar opinião sobre a confusão que ouviu dos dois. Mas, meu caro, acho que deve ser possível combinar essas duas coisas. Caso contrário, você chegaria a dividir o mundo, e isso não pode dar certo.
Diante do espanto de Hans Castorp com a escultura, feia e bela ao mesmo tempo, Naphta enuncia o princípio estético que sustenta toda a sua posição: Produtos de um mundo da alma e da expressão [...] são sempre feios de tanta beleza e belos de tanta fealdade
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É indiscutível a legitimidade da concepção eclesiástica da ciência, que se pode resumir nas palavras de Santo Agostinho: “Creio para compreender”
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A democracia não tem outro sentido senão o de ser um corretivo individualista de toda forma de absolutismo do Estado. [...] As conquistas do Renascimento e do Século das Luzes, meu senhor, chamam-se personalidade, direitos do homem, liberdade!
Desde os dias de Gregório Magno, fundador do Estado divino, da Cidade de Deus, a Igreja considerou-se incumbida de reconduzir os homens ao governo de Deus
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Já sabemos que o poder é mau. Mas, para que chegue o reino, é preciso suspender momentaneamente o dualismo entre bem e mal, aquém e além, espírito e arbítrio, e uni-lo em um princípio que reúna o ascetismo e o domínio. Eis aí o que chamo necessidade do terror
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Nessa mesma exposição, Naphta apoia a condenação medieval do lucro na opinião de São Tomás de Aquino, segundo a qual o comércio em si, o mero negócio comercial, a compra e venda no intuito de obter um lucro, mas sem transformação nem melhoramento da mercadoria, representavam uma profissão ignominiosa
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Ele é, à sua maneira, uma espécie de filho enfermiço da vida, um joli jésuite com uma petite tache humide
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porque a morte dissolve e redime, porque traz a redenção, mas não a redenção do mal, e sim a redenção pelo mal. A morte dissolve a ética e a moralidade, redime da disciplina e da moderação, liberta para a volúpia
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Joachim fixa o motivo da partida com a firmeza de um oficial. Faz mais de um ano e meio que estou aqui, sr. Conselheiro. Não posso esperar mais tempo.
Behrens recusa o papel que o pedido de Hans parece lhe atribuir, e a explosão diz o que ele entende por sua função. Sou um funcionário desta empresa! Sou médico! Sou somente médico, o senhor compreende? Não sou alcoviteiro, não sou nenhum Signor Amoroso da via Toledo, na bela Nápoles, está me entendendo? Sirvo a humanidade sofredora!
Hans [...], venha logo, você também!
Ao ver na cômoda de Hans uma chapa de vidro com o esqueleto de um torso feminino, o tio pergunta o que é, e a resposta de Hans, curta e sem desculpa, é uma recusa de explicar-se à planície: o objeto que o tio não consegue nomear é a lembrança que prende Hans à montanha. Isso? É uma lembrança
O texto não diz que a conversa à mesa fez o cônsul fugir, mas a ordem das cenas sugere. O que Behrens explica a ele é como o morto, depois de inchar e rebentar, volta a ser apresentável em sociedade. O mais importante é deixar de feder.
O narrador fecha o episódio medindo o que o malogro vale para cada lado. Terminou assim a tentativa da planície de se reapossar do fugitivo Hans Castorp. [...] Para a planície, o malogro significaria renúncia definitiva, acompanhada de um dar de ombros; para ele, porém, liberdade plena, em face da qual seu coração, aos poucos, já deixava de estremecer.
O pai, Elia Naphta, morre num motim provocado pela morte não esclarecida de duas crianças cristãs: encontraram-no crucificado, fixado com cravos à porta da sua casa incendiada
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Não progrediu além do subdiaconato [...] e como a hemoptise se repetisse, e a febre não desse mostras de ceder, teve que submeter-se, à custa da ordem, a um tratamento prolongado
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quanto mais enfermo, tanto mais humano, e o gênio da enfermidade é mais humano que o da saúde
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Ao fim de uma tarde inteira de discussão que passa por Deus, o diabo, a nobreza e o burguês, o próprio narrador registra que nenhuma das duas posições se sustenta sozinha: Uma encruzilhada e emaranhamento completos, a grande confusão, e Hans Castorp acreditava perceber que os adversários se teriam mostrado menos encarniçados se durante sua querela essa confusão não lhes houvesse pesado sobre a alma
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Examinando os flocos na manga com olhos de naturalista amador, que já os vira sob a lente, ele repara na perfeição hostil do seu desenho: eles eram regulares em excesso, num grau jamais alcançado pela substância organizada para a vida. A esta repugnava uma precisão tão exata, que se lhe afigurava mortal, como o mistério da própria morte
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Não quero conceder à morte poder algum sobre meus pensamentos! Pois é nisso que consistem a bondade e a filantropia, e em nada mais. [...] O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte que ela
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No mesmo devaneio, pouco antes dessa frase, Hans Castorp escolhe os jovens corteses do golfo sonhado e recusa os dois mestres de uma vez. Quero, com toda a minha alma, aderir a eles e não a Naphta, tampouco a Settembrini. Ambos são charlatães.
O que sonhara estava em vias de se apagar. E o que pensara, naquela mesma noite já não o entendia muito bem
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terá indubitavelmente uma confissão religiosa uniforme, nos seguintes termos: “Écrasez l’infâme!”
A objeção de Hans Castorp: De modo obrigatório? Isso não seria lá muito tolerante
E a resposta de Settembrini, que põe o limite da tolerância no mesmo lugar em que os iluministas o punham: a tolerância se torna crime quando se devota ao mal
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No instante da morte, Joachim, sem saber que morre, dá uma última ordem doméstica: o enfermo mencionou com certa pressa que devia imediatamente redigir e despachar um requerimento, solicitando a prorrogação de sua licença. No meio dessas palavras realizou-se o “trespasse imperceptível”
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Safou-se para o campo da honra, esse fujão. Mas no caso dele a honra significou a morte, e a morte… Bem, vocês também podem inverter a frase, à vontade. Seja como for, ele nos disse: “Tenho a honra de me despedir”
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À observação sarcástica de Naphta sobre a comoção do humanista, o próprio Naphta acrescenta, ainda junto ao corpo de Joachim: O erro dos literatos consiste na crença de que somente o espírito torna as pessoas decentes. Em realidade, o que se dá é antes o contrário. Somente onde falta o espírito existe decência
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Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão
O capítulo abre negando a possibilidade e ao mesmo tempo praticando-a: Pode-se narrar o tempo, ele próprio, o tempo como tal, em si mesmo? Não, de fato não, algo assim seria um arrojo insano!
O narrador distingue dois tempos que toda narrativa carrega ao mesmo tempo, primeiro, seu tempo próprio, real-musical, que lhe determina o curso, a existência; e segundo, o de seu conteúdo, apresentado sob certa perspectiva
, e é a distância variável entre os dois que separa uma narrativa breve mas densa de outra longa e vazia.
Você segue e segue mais adiante… e de uma caminhada como essa jamais voltará a tempo, pois você escapa ao tempo e o tempo escapa de você.
A conclusão da digressão é a fórmula que vai justificar, páginas adiante, o próprio tédio do Berghof: Ali é igual a aqui, e antes é igual a agora e depois; o tempo afoga-se na monotonia imensa do espaço, e onde reina a uniformidade o movimento de um ponto a outro já não é mais movimento. E onde movimento já não é mais movimento, não existe o tempo.
Já no primeiro discurso à mesa, que acaba num pedido à criada anã, o narrador mostra o efeito antes de qualquer doutrina: o discurso não tem conteúdo, e ninguém reclama. todos, inclusive Hans Castorp, empenhado em escutar, criam ter ouvido algo de grande peso, ou, se é que se davam conta de que o discurso carecia por completo de conteúdo e de coerência, não se ressentiam dessa falta.
Ao pedir a genebra à criada, Peeperkorn faz um rodeio solene que só chega ao ponto na última frase. Quero, sim, é pão destilado, meu anjo. Pão de Deus, pão claro, segundo um apelidinho bem familiar, para eu me regalar com ele.
Hans Castorp responde sem rodeios à pergunta sobre o primo. Está morto. Foi servir na planície e morreu.
Quando Clawdia os apresenta, o narrador nomeia o efeito que o holandês causa: quem o via sabia de repente o que era uma personalidade, e mais ainda: convencia-se de que uma personalidade não podia ser diferente dele
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Embriagado, Peeperkorn passa do tratamento de "senhor" ao de irmão, e a fraternidade se anuncia nos termos de um brinde. Irmão, irmão a quem digo “você”!
Na mesma fala, a vida é uma mulher que exige a virilidade inteira, e a derrota do sentimento diante dela é o único pecado sem perdão. A vida, meu caro jovem, é uma mulher [...] que nos desafia magnífica e zombeteiramente e reivindica todas as energias da nossa virilidade [...] A derrota do sentimento em face da vida, eis o que é a tacanheza para a qual não há perdão, nem compaixão, nem dignidade
A recusa de Hans, sem rancor, é a resposta de um homem que não quer fingir o que não é, e é nela, diz ele depois a Clawdia, que Peeperkorn adivinha tudo. Porque não posso trocar beijos na fronte com a sua companheira de viagem
Para explicar esse fato, dispomos de uma única palavra: personalidade [...] a personalidade não deixa de ser, afinal de contas, um valor positivo [...] Mais positivo que a estupidez e a argúcia. Positivo no mais alto grau, absolutamente positivo, tal qual a vida.
Não havia mais corrente na chave de luz, morta de vez [...] Numa palavra: todas elas permaneciam ausentes, e isto era, para empregar o termo de Hans, nada mais nada menos que um mistério.
A doença confere a você essa liberdade. Ela transforma você [...] a doença torna você genial!
, diz Hans Castorp a Clawdia, e ela responde rindo, chamando-o de filósofo abstruso.
Sua teologia pessoal, dita a Hans Castorp na cabeceira da cama, resume o que está em jogo em toda a sua grandiosidade: Nosso sentimento [...] é a força viril que desperta a vida [...] o sentimento, meu jovem, é divino. O homem é divino, desde que sente [...] Se o homem fracassa quanto ao sentimento, irrompe a ignomínia de Deus, dá-se a derrota da virilidade de Deus, uma catástrofe cósmica, um horror inimaginável
, e nesse ponto ele volta a beber.
O senhor foi amante de Clawdia durante a outra temporada.
O narrador resume o discurso sem som com as duas palavras de sempre. Compreendiam-se através dos gestos e liam-se-lhes dos lábios algumas palavras isoladas que habitualmente saíam da sua boca: “Absolutamente!”, “Basta!” e nada mais.
O objeto que Dr. Behrens tira das mãos do morto é descrito com precisão técnica: feito de aço, marfim, ouro e borracha [...] dois dentes de garfo, recurvos, de aço polido [...] a encarnação de uma seringa hipodérmica [...] a cópia mecânica das presas de uma naja
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A envergadura dele era tamanha [...] que o fracasso do sentimento em face da vida lhe causava a sensação de uma catástrofe cósmica e da ignomínia de Deus. Pois a senhora deve saber que ele se considerava o órgão nupcial de Deus.
, diz Hans Castorp, fechando com as mesmas palavras que Peeperkorn usara para se explicar em vida: ele morre coerente com a única doutrina que tinha, a de que sentir é um dever que não admite fracasso.
É a recusa do beijo na fronte, na noite do vingt et un, que Hans reconhece diante de Clawdia como a pista que Peeperkorn leu. Ele adivinhara tudo, quando me recusei a beijar-lhe a fronte na presença dele.
O narrador dá nome próprio a essa condição, retomando o vocabulário quase religioso já usado para Peeperkorn: tudo se lhe afigurava angustiante; era como se um demônio se tivesse apossado do poder [...] o demônio que se chamava "tédio".
Com Peeperkorn morto e Clawdia partida outra vez, o Berghof entra num estado que o narrador nomeia com todas as letras. Hans Castorp olhava em torno de si [...] Via coisas inquietantes, perniciosas, e sabia o que via diante de si: era a vida sem tempo, a vida sem cuidados nem esperanças, a vida como abjeção que se move à medida que estagna, a vida morta.
O narrador declara, sem rodeios, qual é o mundo que a canção esconde atrás de si: Qual era o mundo que se abria atrás dela e que, segundo os pressentimentos íntimos de Hans Castorp, devia ser o mundo do amor proibido? Era a morte.
A síntese do capítulo sobre o perigo dessa canção, e por extensão sobre todo amor voltado à morte, está nesta frase: Era um fruto da vida, gerado pela morte e prenhe de morte [...] um objeto do triunfo sobre si mesmo, segundo o veredito último da consciência.
O parágrafo seguinte arrisca uma imagem política que o leitor de 1924 ainda não podia calibrar: seria até possível fundar impérios sobre essa base, impérios terrestres, terrestres por demais, impérios rudes, entusiastas do progresso [...] em cujo seio o lied degenerava a uma música de vitrola elétrica
; o romance não nomeia nada além disso, e ler ali uma profecia seria ir além do que o texto formula.
Hans Castorp resiste a julgar Elly de impostora, ao contrário de Settembrini, e formula o critério com que aceita participar: não existia clareza inequívoca sobre o que era realidade, e, por conseguinte, não se sabia o que era impostura [...] O mistério da vida era literalmente insondável
; é o mesmo Placet experiri que o levou a estudar Peeperkorn, agora aplicado a um terreno que ele próprio reconhece como indigno.
o dr. Krokowski tomou assento, depois de ter acendido, com uma só manobra, as duas lâmpadas vermelhas, e de ter apagado, com outra, a luz do teto.
A aparição é descrita com o mesmo cuidado material que o narrador dedica às cenas mais concretas do romance: estava Joachim. Era Joachim, com as sombras das faces encovadas e com a barba de guerreiro dos seus últimos dias [...] Não obstante o abrigo da cabeça, que lhe obscurecia as feições, distinguia-se novamente no seu rosto o cunho do sofrimento
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Hans Castorp não interroga o fantasma nem aceita continuar a sessão: Perdoe-me! — murmurou de si para si [...] Em seguida, seus olhos transbordaram de lágrimas
, e sua resposta ao pedido de Krokowski para que dirija a palavra ao primo é levantar-se, acender a luz do teto e exigir dele a chave sem dizer mais nada.
Naphta responde ao insulto justificando o próprio método pedagógico com uma frase que resume sua filosofia inteira: É apenas do ceticismo radical, do caos moral, que nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo.
No caminho para o duelo, Settembrini promete a Hans Castorp: Meu amigo, eu não matarei. Não farei isso. Vou me expor à bala dele. É tudo o que a honra pode exigir de mim.
O desfecho do duelo é narrado sem metáfora: Settembrini atira para o ar, Naphta o chama de covarde e levantou a pistola de um modo que nada mais tinha a ver com um combate, e descarregou-a na própria cabeça
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O narrador descreve o efeito sobre o Berghof com a mesma imagem do dorminhoco que abriu a digressão inicial do capítulo: estrondeou o trovão de que todos temos ciência, essa detonação ensurdecedora da mistura sinistra de tédio e irritação há muito acumulados [...] e o trovão que, para nós, porém, faz explodir a montanha mágica e lança ante seus portões, insuavemente, o nosso dorminhoco.
E così in giù [...] in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! [...] Vá lutar com bravura, lá aonde o enviam os laços do sangue!
A despedida final do narrador não promete nada, apenas pergunta: Será que também desta festa mundial da morte, e também da perniciosa febre que inflama o céu da noite chuvosa, ainda surgirá o amor?