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A Montanha Mágica · Capítulo VII

Peeperkorn, o grande tédio e o trovão

Introdução

Resumo da seção

O capítulo VII fecha A Montanha Mágica em duas metades desiguais: a primeira convive com Pieter Peeperkorn, a resposta do romance ao duelo de doutrinas que atravessou Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis e Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim; a segunda descreve o apodrecimento do Berghof (ver O Berghof) até o tiro que mata Leo Naphta e o trovão que devolve Hans Castorp à planície.

Passeio pela praia

Resumo da seção

A seção não tem cena nem personagem, só a voz do narrador, que abre o capítulo com a segunda grande digressão sobre o tempo, par do Excurso de Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro: ali o problema era o hábito, que na monotonia encolhe os grandes lapsos de tempo, aqui é a pergunta se o próprio tempo pode virar assunto de uma narrativa, e a confusão entre "ainda" e "de novo".

Análise

O capítulo abre negando a possibilidade e ao mesmo tempo praticando-a: Pode-se narrar o tempo, ele próprio, o tempo como tal, em si mesmo? Não, de fato não, algo assim seria um arrojo insano!

O narrador distingue dois tempos que toda narrativa carrega ao mesmo tempo, primeiro, seu tempo próprio, real-musical, que lhe determina o curso, a existência; e segundo, o de seu conteúdo, apresentado sob certa perspectiva, e é a distância variável entre os dois que separa uma narrativa breve mas densa de outra longa e vazia.

A digressão termina num passeio pela praia em segunda pessoa, onde o leitor é convocado a perder a noção de distância e de duração.

Você segue e segue mais adiante… e de uma caminhada como essa jamais voltará a tempo, pois você escapa ao tempo e o tempo escapa de você.

A conclusão da digressão é a fórmula que vai justificar, páginas adiante, o próprio tédio do Berghof: Ali é igual a aqui, e antes é igual a agora e depois; o tempo afoga-se na monotonia imensa do espaço, e onde reina a uniformidade o movimento de um ponto a outro já não é mais movimento. E onde movimento já não é mais movimento, não existe o tempo.

Essa equivalência entre uniformidade e ausência de tempo é o andaime teórico que sustenta O grande tédio, mais adiante no mesmo capítulo: antes de qualquer episódio, o narrador já avisou que o Berghof é o lugar onde o movimento deixou de ser movimento.

Para discutir O narrador pergunta se se pode "narrar o tempo, ele próprio", responde que não e passa páginas fazendo algo muito próximo disso. Como um romance trata do tempo sem narrá-lo, e o que significa dizer que "o tempo afoga-se na monotonia imensa do espaço"?

Mynheer Peeperkorn

Resumo da seção

Pieter Peeperkorn, "um holandês colonial, nascido em Java, um plantador de café", chega no mesmo trem que Clawdia Chauchat, hospeda-se com ela e domina qualquer roda pela pura presença, sem nunca terminar uma frase. Ele recebe um lugar ao lado dela, à mesa dos russos distintos, e o Dr. Behrens consola Hans Castorp dizendo que os dois são amicíssimos e que o homem, riquíssimo e doente de uma febre tropical, não veio ao Berghof para se divertir. Hans, apanhado de surpresa, decide guardar o ressentimento sob extrema reserva.

Análise

Já no primeiro discurso à mesa, que acaba num pedido à criada anã, o narrador mostra o efeito antes de qualquer doutrina: o discurso não tem conteúdo, e ninguém reclama. todos, inclusive Hans Castorp, empenhado em escutar, criam ter ouvido algo de grande peso, ou, se é que se davam conta de que o discurso carecia por completo de conteúdo e de coerência, não se ressentiam dessa falta.

Ao pedir a genebra à criada, Peeperkorn faz um rodeio solene que só chega ao ponto na última frase. Quero, sim, é pão destilado, meu anjo. Pão de Deus, pão claro, segundo um apelidinho bem familiar, para eu me regalar com ele.

Para discutir O narrador diz que, no primeiro discurso de Peeperkorn, ninguém se ressentia de que ele "carecia por completo de conteúdo". Por que um homem cujo discurso não tem conteúdo domina qualquer roda, e o que isso revela sobre o que as pessoas procuram ao ouvir alguém?

Vingt et un

Resumo da seção

Três ou quatro semanas depois, numa noite mais animada que as outras, Clawdia aparece atrás da cadeira de Hans Castorp no salão de leitura e pergunta pelo primo dele, e Hans responde que Joachim morreu. Peeperkorn os encontra, é apresentado a Hans com um discurso interrompido e propõe um jogo de vingt et un, com vinho, para o qual Hans é mandado reunir companhia. A noite se arrasta entre apostas, omeletes e as divagações do holandês, e de repente Peeperkorn, embriagado, chama Hans de "irmão a quem digo você". No fim, manda Hans beijar Clawdia na testa, e Hans se recusa.

Análise

Hans Castorp responde sem rodeios à pergunta sobre o primo. Está morto. Foi servir na planície e morreu.

Quando Clawdia os apresenta, o narrador nomeia o efeito que o holandês causa: quem o via sabia de repente o que era uma personalidade, e mais ainda: convencia-se de que uma personalidade não podia ser diferente dele.

Embriagado, Peeperkorn passa do tratamento de "senhor" ao de irmão, e a fraternidade se anuncia nos termos de um brinde. Irmão, irmão a quem digo “você”!

Na mesma fala, a vida é uma mulher que exige a virilidade inteira, e a derrota do sentimento diante dela é o único pecado sem perdão. A vida, meu caro jovem, é uma mulher [...] que nos desafia magnífica e zombeteiramente e reivindica todas as energias da nossa virilidade [...] A derrota do sentimento em face da vida, eis o que é a tacanheza para a qual não há perdão, nem compaixão, nem dignidade

A recusa de Hans, sem rancor, é a resposta de um homem que não quer fingir o que não é, e é nela, diz ele depois a Clawdia, que Peeperkorn adivinha tudo. Porque não posso trocar beijos na fronte com a sua companheira de viagem

Para discutir Peeperkorn, embriagado, declara que "A derrota do sentimento em face da vida" é a tacanheza que não merece perdão. Por que essa frase, dita nessas condições, soa como doutrina, e por que Hans Castorp recusa o beijo na testa de Clawdia que o holandês lhe manda dar?

Mynheer Peeperkorn (continuação)

Resumo da seção

Peeperkorn passa o resto do inverno e parte da primavera no Berghof, no comando de um grupo de passeios, e Hans Castorp o visita nos dias de febre. O holandês cala Naphta e Settembrini com a pura presença, e Settembrini estranha o fascínio do discípulo, que se defende com a ideia de personalidade. Numa noite no vestíbulo, Clawdia pede a Hans um selo e um cigarro, os dois conversam a sós e se beijam. Numa tarde, na cama de Peeperkorn, Hans ouve a sua teologia do sentimento, é interrogado sobre o passado com Clawdia e acaba por selar com ele uma aliança de vinho.

Hans Castorp tenta explicar a Settembrini por que se deixa fascinar por um homem cujo discurso não tem conteúdo algum.

Análise

Para explicar esse fato, dispomos de uma única palavra: personalidade [...] a personalidade não deixa de ser, afinal de contas, um valor positivo [...] Mais positivo que a estupidez e a argúcia. Positivo no mais alto grau, absolutamente positivo, tal qual a vida.

O efeito mais estranho de Peeperkorn não é dominar Naphta e Settembrini em discussão, é esvaziar a própria discussão deles quando caminha ao lado dos dois.

Não havia mais corrente na chave de luz, morta de vez [...] Numa palavra: todas elas permaneciam ausentes, e isto era, para empregar o termo de Hans, nada mais nada menos que um mistério.

O romance não resolve o duelo Naphta contra Settembrini com um terceiro argumento, resolve com um corpo: a presença de Peeperkorn não refuta nenhuma tese, apenas mostra que uma vida inteira pode se organizar em torno de algo que não é ideia nenhuma, o que é, à sua maneira, uma resposta ao "para quê" que faltava a Hans Castorp desde Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô.

Numa noite, no vestíbulo, Hans Castorp conversa a sós com Clawdia, que lhe pede um selo e um cigarro, e é ali que ele põe a doença como princípio de liberdade e de gênio.

A doença confere a você essa liberdade. Ela transforma você [...] a doença torna você genial!, diz Hans Castorp a Clawdia, e ela responde rindo, chamando-o de filósofo abstruso.

Peeperkorn eleva o vinho, a comida e o sono a "dádivas clássicas da vida" e converte o fracasso em senti-las numa culpa quase religiosa.

Sua teologia pessoal, dita a Hans Castorp na cabeceira da cama, resume o que está em jogo em toda a sua grandiosidade: Nosso sentimento [...] é a força viril que desperta a vida [...] o sentimento, meu jovem, é divino. O homem é divino, desde que sente [...] Se o homem fracassa quanto ao sentimento, irrompe a ignomínia de Deus, dá-se a derrota da virilidade de Deus, uma catástrofe cósmica, um horror inimaginável, e nesse ponto ele volta a beber.

Na mesma conversa, Peeperkorn pergunta a Hans o que todos calam.

O senhor foi amante de Clawdia durante a outra temporada.

Sabendo do passado de Hans Castorp e Clawdia, Peeperkorn diz que não lhe pode dar satisfação com a arma na mão, por causa da idade e da doença, e em lugar dela propõe uma aliança fraternal, na qual chama Hans Castorp de irmão.

Para discutir Hans Castorp explica a Settembrini que Peeperkorn vale por uma "personalidade", um valor "Positivo no mais alto grau", embora seu discurso não tenha conteúdo. O que significa um valor que não se deixa resumir numa ideia, e por que essa presença cala Naphta e Settembrini sem refutar nenhum dos dois?

Mynheer Peeperkorn (fim)

Resumo da seção

Em maio, num dia sem febre, Peeperkorn organiza uma excursão de coche à cascata do vale de Flüela, com Clawdia, Hans, Ferge, Wehsal, Naphta e Settembrini. Junto à queda-d'água, cujo estrondo impede qualquer conversa, ele faz um discurso mudo, e os outros o aplaudem com gestos. Na madrugada seguinte, Hans é acordado: Peeperkorn se matou. Ele conversa com Clawdia à beira da cama e a beija na testa, na presença simbólica do morto.

Análise

O narrador resume o discurso sem som com as duas palavras de sempre. Compreendiam-se através dos gestos e liam-se-lhes dos lábios algumas palavras isoladas que habitualmente saíam da sua boca: “Absolutamente!”, “Basta!” e nada mais.

Uma febre maligna, contraída nos trópicos, mina Peeperkorn ao longo de meses, mas é a impotência diante do próprio sentimento, não a doença, que o leva a injetar-se veneno com um instrumento que imita as presas de uma naja, feito, segundo Behrens supõe, por indicação dele mesmo.

O objeto que Dr. Behrens tira das mãos do morto é descrito com precisão técnica: feito de aço, marfim, ouro e borracha [...] dois dentes de garfo, recurvos, de aço polido [...] a encarnação de uma seringa hipodérmica [...] a cópia mecânica das presas de uma naja.

Hans Castorp, chamado de madrugada, resume à sra. Chauchat a razão do gesto, sem disfarçar a admiração.

A envergadura dele era tamanha [...] que o fracasso do sentimento em face da vida lhe causava a sensação de uma catástrofe cósmica e da ignomínia de Deus. Pois a senhora deve saber que ele se considerava o órgão nupcial de Deus., diz Hans Castorp, fechando com as mesmas palavras que Peeperkorn usara para se explicar em vida: ele morre coerente com a única doutrina que tinha, a de que sentir é um dever que não admite fracasso.

É a recusa do beijo na fronte, na noite do vingt et un, que Hans reconhece diante de Clawdia como a pista que Peeperkorn leu. Ele adivinhara tudo, quando me recusei a beijar-lhe a fronte na presença dele.

Para discutir Diante da cascata, Peeperkorn faz um discurso que ninguém ouve, e na madrugada seguinte se mata. Hans Castorp explica o gesto dizendo que o fracasso do sentimento lhe dava "a sensação de uma catástrofe cósmica". Essa explicação honra Peeperkorn ou o reduz, e o que o gesto mostra sobre a doutrina do sentimento que ele pregava?

O grande tédio

Resumo da seção

Behrens chama Hans Castorp de blasé e, para explicar a temperatura que não cede, propõe pesquisar estreptococos no sangue dele, o que leva a uma sangria, a culturas e a um tratamento com vacina. Depois da partida de Clawdia e da morte de Peeperkorn, Hans sente o mundo fora dos eixos, e o narrador dá nome ao que o domina.

Análise

O narrador dá nome próprio a essa condição, retomando o vocabulário quase religioso já usado para Peeperkorn: tudo se lhe afigurava angustiante; era como se um demônio se tivesse apossado do poder [...] o demônio que se chamava "tédio".

Com Peeperkorn morto e Clawdia partida outra vez, o Berghof entra num estado que o narrador nomeia com todas as letras. Hans Castorp olhava em torno de si [...] Via coisas inquietantes, perniciosas, e sabia o que via diante de si: era a vida sem tempo, a vida sem cuidados nem esperanças, a vida como abjeção que se move à medida que estagna, a vida morta.

O tédio se organiza em manias coletivas, a fotografia, a filatelia, o desenho de porquinhos de olhos fechados, a quadratura do círculo do promotor Paravant, e por fim o próprio Hans Castorp mergulha na paciência de cartas, vício que Settembrini interrompe sem conseguir dissuadi-lo.

Para discutir Depois da partida de Clawdia e da morte de Peeperkorn, o narrador dá o nome de "tédio" ao demônio que domina Hans Castorp e fala de "a vida morta". Como esse tédio difere do que Joachim e o próprio narrador haviam descrito sobre o tempo no Berghof, e por que ele chega justamente depois de uma partida e de uma morte?

Abundância de harmonia

Resumo da seção

Um gramofone novo, com doze álbuns de discos, tira Hans Castorp da paciência de cartas, e o narrador acompanha as noites em que ele ouve música sozinho.

A compra de uma vitrola dá ao tédio um objeto novo, e Hans Castorp confisca a chave do armário de discos para se tornar o único responsável pelo aparelho.

Entre os discos favoritos está a ária final de uma ópera meridional não nomeada, o interlúdio de um fauno, a cena da taverna espanhola, a oração de Valentin e, por fim, "A tília" de Schubert, a que o narrador dedica mais espaço que a qualquer outra peça do capítulo.

Análise

O narrador declara, sem rodeios, qual é o mundo que a canção esconde atrás de si: Qual era o mundo que se abria atrás dela e que, segundo os pressentimentos íntimos de Hans Castorp, devia ser o mundo do amor proibido? Era a morte.

A síntese do capítulo sobre o perigo dessa canção, e por extensão sobre todo amor voltado à morte, está nesta frase: Era um fruto da vida, gerado pela morte e prenhe de morte [...] um objeto do triunfo sobre si mesmo, segundo o veredito último da consciência.

O parágrafo seguinte arrisca uma imagem política que o leitor de 1924 ainda não podia calibrar: seria até possível fundar impérios sobre essa base, impérios terrestres, terrestres por demais, impérios rudes, entusiastas do progresso [...] em cujo seio o lied degenerava a uma música de vitrola elétrica; o romance não nomeia nada além disso, e ler ali uma profecia seria ir além do que o texto formula.

Para discutir Hans Castorp ouve "A tília" de Schubert, e o narrador pergunta que mundo se abre atrás da canção, o do "amor proibido", e responde: "Era a morte." Por que o romance encontra perigo numa canção de que Hans Castorp gosta tanto, e o que significa amar algo que é "um fruto da vida, gerado pela morte"?

Coisas muito questionáveis

Resumo da seção

A seção conta como Elly Brand leva o ocultismo ao Berghof e como Hans Castorp, depois de participar de uma sessão da taça no quarto de Hermine Kleefeld, em que o fantasma Holger poetiza, entra nas sessões formais de Krokowski para tentar chamar Joachim. Com o disco da Oração de Valentin ao fundo, a figura de Joachim aparece, e Hans pede perdão, acende a luz e toma de Krokowski a chave da sala.

As conferências do Dr. Krokowski migram da psicanálise para o ocultismo assim que a jovem dinamarquesa Elly Brand revela poderes medianímicos, primeiro em jogos de salão, depois em sessões com a taça e por fim em sessões formais de materialização.

Análise

Hans Castorp resiste a julgar Elly de impostora, ao contrário de Settembrini, e formula o critério com que aceita participar: não existia clareza inequívoca sobre o que era realidade, e, por conseguinte, não se sabia o que era impostura [...] O mistério da vida era literalmente insondável; é o mesmo Placet experiri que o levou a estudar Peeperkorn, agora aplicado a um terreno que ele próprio reconhece como indigno.

Depois de meses de manifestações menores, Hans Castorp pede que o disco da Oração de Valentin, de "Margarete", toque durante a sessão em que reclamou o falecido primo Joachim Ziemssen.

É Krokowski quem prepara a penumbra vermelha da sessão, antes de dar a ordem de formar a cadeia.

o dr. Krokowski tomou assento, depois de ter acendido, com uma só manobra, as duas lâmpadas vermelhas, e de ter apagado, com outra, a luz do teto.

A aparição é descrita com o mesmo cuidado material que o narrador dedica às cenas mais concretas do romance: estava Joachim. Era Joachim, com as sombras das faces encovadas e com a barba de guerreiro dos seus últimos dias [...] Não obstante o abrigo da cabeça, que lhe obscurecia as feições, distinguia-se novamente no seu rosto o cunho do sofrimento.

Hans Castorp não interroga o fantasma nem aceita continuar a sessão: Perdoe-me! — murmurou de si para si [...] Em seguida, seus olhos transbordaram de lágrimas, e sua resposta ao pedido de Krokowski para que dirija a palavra ao primo é levantar-se, acender a luz do teto e exigir dele a chave sem dizer mais nada.

É a única vez, em todo o episódio de Elly Brand, em que Hans Castorp interrompe uma experiência por conta própria, e o gesto de acender a luz repete, de modo invertido, o mesmo gesto de Krokowski no início de cada sessão: quem apaga a luz é a ciência disfarçada de mistério, quem a reacende é o luto verdadeiro, que não precisa de taça nem de médium.

Para discutir Na sessão de ocultismo para chamar Joachim, Hans Castorp vê a figura do primo, murmura "Perdoe-me!", acende a luz e toma de Krokowski a chave da sala. Por que ele interrompe justamente quando consegue o que veio buscar, e que diferença o romance faz entre curiosidade e luto?

A grande irritação

Resumo da seção

A seção vai do mal-estar geral ao duelo: o ódio entre Naphta e Settembrini explode numa excursão a Monstein, em fevereiro, e Hans Castorp só consegue atenuar em parte as condições. Na manhã do duelo, na neve, Settembrini atira para o ar, e Naphta, depois de chamá-lo de covarde, atira na própria cabeça.

Um espírito de discórdia toma conta do Berghof, com brigas por motivos fúteis, do ataque de fúria de um colegial por causa de chá frio à briga corporal entre Wiedemann e Sonnenschein, além de uma longa querela de honra entre poloneses que Hans Castorp acompanha por documentos oficiais.

Naphta, cuja saúde piora, torna-se cada vez mais cáustico contra Settembrini, até que uma frase sobre a ambiguidade de todo feito histórico o leva a ser chamado de indecente.

Análise

Naphta responde ao insulto justificando o próprio método pedagógico com uma frase que resume sua filosofia inteira: É apenas do ceticismo radical, do caos moral, que nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo.

Settembrini aceita o duelo mesmo desaprovando-o em teoria, e Hans Castorp, na função de árbitro, consegue apenas, nas negociações, reduzir as condições brutais impostas por Naphta, cinco passos e três trocas de tiro, a uma única troca, a quinze passos com direito de avançar cinco.

No caminho para o duelo, Settembrini promete a Hans Castorp: Meu amigo, eu não matarei. Não farei isso. Vou me expor à bala dele. É tudo o que a honra pode exigir de mim.

O desfecho do duelo é narrado sem metáfora: Settembrini atira para o ar, Naphta o chama de covarde e levantou a pistola de um modo que nada mais tinha a ver com um combate, e descarregou-a na própria cabeça.

Naphta morre pela mesma lógica de Peeperkorn, a de que sentir e agir plenamente é um dever que não tolera meio-termo: onde Peeperkorn se mata por não poder mais honrar o sentimento, Naphta se mata para forçar Settembrini a honrar, com sangue, uma discussão puramente espiritual, e as duas mortes fecham o capítulo com a mesma pergunta sobre o preço de uma convicção levada até o fim.

Para discutir Settembrini promete a Hans Castorp que "eu não matarei", atira para o alto no duelo, e Naphta o chama de "Covarde!" antes de se matar. Atirar para o ar é gesto de coragem ou de renúncia, e por que Naphta não aceita que o duelo termine assim?

O trovão

Resumo da seção

A narração acelera até o fim. Morre na planície o velho cônsul Tienappel, tio-avô de Hans, a guerra estoura, e o narrador acompanha Hans ao campo de batalha, onde o perde de vista.

Sete anos depois de chegar, Hans Castorp já não recebe visitas médicas de rotina, já não tem relógio (ver O relógio) funcionando nem calendário, e ocupa a mesa dos "russos ordinários" quando o trovão da guerra estoura sobre a Europa.

Análise

O acontecimento histórico que o narrador chama de trovão é a Primeira Guerra Mundial, cuja primeira mobilização geral e declaração de guerra datam do verão de 1914.

O narrador descreve o efeito sobre o Berghof com a mesma imagem do dorminhoco que abriu a digressão inicial do capítulo: estrondeou o trovão de que todos temos ciência, essa detonação ensurdecedora da mistura sinistra de tédio e irritação há muito acumulados [...] e o trovão que, para nós, porém, faz explodir a montanha mágica e lança ante seus portões, insuavemente, o nosso dorminhoco.

Settembrini, já fraco desde a morte de Naphta, despede-se de Hans Castorp chamando-o pelo primeiro nome, num tratamento íntimo que nunca usara antes.

E così in giù [...] in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! [...] Vá lutar com bravura, lá aonde o enviam os laços do sangue!

O capítulo termina no campo de batalha, com Hans Castorp cantando baixinho um trecho de "A tília" enquanto avança na lama, sem que o narrador diga se ele sobrevive.

A despedida final do narrador não promete nada, apenas pergunta: Será que também desta festa mundial da morte, e também da perniciosa febre que inflama o céu da noite chuvosa, ainda surgirá o amor?

A pergunta fecha o arco aberto em Abundância de harmonia: se "A tília" era o fruto gerado pela morte e prenhe de morte, a última linha do romance pergunta se dessa mesma mistura de morte e paixão, agora em escala de guerra mundial, ainda pode nascer algo que mereça o nome de amor, sem responder.

Para discutir O romance termina com uma pergunta, "ainda surgirá o amor?", sem dizer se Hans Castorp sobrevive, depois de Settembrini o despedir com "in giù finalmente". Por que o narrador encerra perguntando, e o que a despedida de Settembrini, que o manda lutar "no meio dos seus", já responde ou deixa de responder?