Introdução
Resumo da seção
O capítulo VI é o mais longo do romance e o seu centro intelectual: nele entra Leo Naphta, o segundo pedagogo, e o livro deixa de ser um duelo entre Lodovico Settembrini e o mundo para se tornar um duelo entre Settembrini e Naphta, com Hans Castorp no meio como plateia e como prêmio.
Transformações
Resumo da seção
Passaram-se seis semanas desde a noite de Carnaval e desde a partida de Clawdia Chauchat para o Daguestão, no dia seguinte a ela, e Hans Castorp guarda sobre o coração o retrato espectral dela. Joachim, farto da escala de Gaffky, ameaça voltar à planície por conta própria, e Hans toma injeções por causa da temperatura que não cede. No domingo de Páscoa, Settembrini anuncia que deixa o Berghof (ver O Berghof) para morar na casa do alfaiate Lukacek, no vilarejo, e a primavera começa a vencer o inverno. O Dr. Krokowski passa algumas semanas a conversar com Hans a cada ronda.
Análise
Joachim, que descobre ter passado de Gaffky 2 para 9 em catorze dias, perde a calma que sempre o caracterizou. Que me deixem em paz com Gaffky! Vou dar a isso um ponto final; volto para casa, mesmo que me custe a vida!
Num encontro depois do Carnaval, Settembrini pergunta a Hans se gostou da romã e, diante do espanto dele, responde com uma sentença sobre os frutos do reino das sombras. Aconteceu algumas vezes que deuses e mortais tenham visitado o reino das sombras e encontrado o caminho de volta. Mas os habitantes do inferno sabem que quem comeu dos frutos desse reino lhes pertence para sempre.
No domingo de Páscoa, ao avisar que sai da casa, Settembrini cita a sentença que Behrens lhe pronunciou. Posso prolongar a minha vida, mas só aqui. A sentença, o veredicto final é “prisão perpétua”.
Durante algumas semanas, o Dr. Krokowski se demora na ronda da cura de repouso para conversar com Hans Castorp, conversas cujo assunto o narrador diz só poder conjeturar. Depois que elas cessam, Joachim, descendo ao subsolo para se pesar, vê por acaso o primo sair da sala de consultas e bater à porta do gabinete do assistente, e toma o fato por traição.
Joachim viu como o primo desaparecia na penumbra da caverna analítica do dr. Krokowski.
Para discutir Settembrini pergunta a Hans Castorp se gostou da romã, e Hans, sem entender, responde que não lhes serviram romãs. Settembrini replica que quem "comeu dos frutos desse reino lhes pertence para sempre". O que a imagem diz sobre o lugar onde Hans está, e por que ele se sente "trespassado" sem saber explicar?
Mais alguém
Resumo da seção
No solstício de verão, Hans Castorp colhe flores, estuda botânica e contempla os astros, e Joachim, que prefere a gramática russa, resmunga que o primo se ocupa de assuntos estrambólicos. Na rua principal, a caminho do vilarejo, os primos cruzam com Settembrini, que está com um desconhecido, e caminham os quatro lado a lado. Pelo caminho, os dois homens travam a primeira discussão diante dos primos, sobre natureza e espírito, o trabalho dos monges, a guerra e o Estado, e Hans intervém com o elogio do isolamento. Ao chegar à casa em que os dois moram, Naphta convida os primos a visitá-lo, e Joachim, na subida para o Berghof, diz o que pensa dele.
Settembrini apresenta aos primos o vizinho de pensão, o outro sublocatário do alfaiate Lukacek: um homem pequeno, magro, professor de línguas antigas, ex-aluno de um seminário.
Análise
A primeira imagem que o texto fixa dele é toda em arestas: Tudo nele parecia cortante: o nariz adunco que dominava o rosto, a boca de lábios finos e comprimidos, as grossas lentes dos óculos de aros leves, atrás dos quais apontavam os olhos de um cinzento claro, até mesmo o silêncio que o homem guardava, e que fazia supor que também a sua maneira de falar seria incisiva e lógica
.
Settembrini acusa Naphta de dividir o mundo em dois campos, e Naphta faz dessa divisão o próprio princípio do espírito. O dualismo, a antítese, eis aí o princípio motor, passional, dialético e espirituoso. Ver o mundo dividido em dois campos adversários: isso é espírito. Todo monismo é fastidioso.
Quando os dois passam à cama do monge, símbolo do isolamento contemplativo, Hans Castorp se mete na conversa e fala da própria experiência: a espreguiçadeira lhe deu mais ideias do que a planície em todos os anos passados. É o primeiro lance do aprendiz entre os dois mestres, e ele os toma pelo que lhe serve. a cama, ou melhor, a espreguiçadeira me fez progredir muito nos últimos dez meses e me proporcionou mais ideias do que o moinho, na planície, no curso de todos os anos passados.
Settembrini retruca que ao Ocidente cabem a razão e a ação, e Naphta devolve com a obra dos monges, que aproveita para despojar de qualquer sentido social. Era um exercício puramente ascético, [...] Era o mais imaculado egoísmo religioso.
No caminho de volta, Joachim resume a sua primeira impressão num juízo que o próprio livro não corrige nem endossa.
Além disso, ele tem um nariz de judeu; você não viu? Só os semitas têm esses corpos minguados
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O romance registra esse comentário sem réplica de ninguém, nem do narrador, e é exatamente essa ausência de correção que faz dele um dado sobre o ambiente e não sobre Naphta: o capítulo vai gastar páginas mostrando que a inteligência do homem excede em muito qualquer coisa que o nariz dele explique, e a biografia contada mais adiante, em Operationes spirituales, devolve a Naphta a origem que Joachim acabou de usar contra ele.
Hans Castorp, que já disse que vai visitar Naphta, recusa a Joachim a separação entre ficar mais inteligente e melhorar de saúde, e a recusa como paisano responsável, que quer formar opinião sobre a confusão que ouviu dos dois. Mas, meu caro, acho que deve ser possível combinar essas duas coisas. Caso contrário, você chegaria a dividir o mundo, e isso não pode dar certo.
Para discutir Naphta afirma: "Ver o mundo dividido em dois campos adversários: isso é espírito. Todo monismo é fastidioso." Hans Castorp, a caminho de casa, diz a Joachim que não se deve "dividir o mundo". Quem tem razão, e por que Hans resiste a escolher justamente quando acaba de conhecer alguém que escolhe com tanta nitidez?
Da Cidade de Deus e da redenção pelo mal
Resumo da seção
Hans Castorp, que já deixou de tomar injeções, classifica flores na sacada e decide visitar Naphta com Joachim, num domingo. Naphta e Settembrini, que chega para o chá, travam o grande debate sobre ciência e fé, Estado e Igreja, e Naphta chega a pregar o terror como necessidade. Quando Settembrini leva os primos embora, revela no caminho que o anfitrião é jesuíta e adverte os dois contra ele.
Na sala forrada de seda de Naphta, adornada por uma pietà gótica que ele chama de signum mortificationis, o debate entre os dois pedagogos ganha pela primeira vez a forma de doutrina fechada.
Análise
Diante do espanto de Hans Castorp com a escultura, feia e bela ao mesmo tempo, Naphta enuncia o princípio estético que sustenta toda a sua posição: Produtos de um mundo da alma e da expressão [...] são sempre feios de tanta beleza e belos de tanta fealdade
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Na mesma conversa, Hans Castorp intervém com Plotino, que envergonhado do próprio corpo o negava em nome do espírito, e com Voltaire, que em nome da razão se revoltara contra o terremoto de Lisboa, como duas formas do mesmo orgulho contra o mundo dado, um pelo excesso de espírito e outro pelo excesso de razão. É a mesma tensão que Naphta e Settembrini vão encenar até o fim do capítulo, sem que nenhum dos dois vença.
Da estética o debate passa à epistemologia, e Naphta nega que exista conhecimento neutro em relação à fé, apoiando-se em Santo Agostinho.
É indiscutível a legitimidade da concepção eclesiástica da ciência, que se pode resumir nas palavras de Santo Agostinho: “Creio para compreender”
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Naphta apresenta a alternativa entre Ptolomeu e o mundo infinito, e Settembrini responde defendendo o Estado democrático como o único capaz de conter o próprio absolutismo, sem separar Deus e natureza, sem transcendência.
A democracia não tem outro sentido senão o de ser um corretivo individualista de toda forma de absolutismo do Estado. [...] As conquistas do Renascimento e do Século das Luzes, meu senhor, chamam-se personalidade, direitos do homem, liberdade!
Provocado a dizer quem seria o sustentáculo do domínio que prega, Naphta liga o comunismo moderno ao ideal medieval de governo de Deus sobre a terra.
Desde os dias de Gregório Magno, fundador do Estado divino, da Cidade de Deus, a Igreja considerou-se incumbida de reconduzir os homens ao governo de Deus
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A conclusão da mesma fala nomeia o meio pelo qual a Cidade de Deus viria.
Já sabemos que o poder é mau. Mas, para que chegue o reino, é preciso suspender momentaneamente o dualismo entre bem e mal, aquém e além, espírito e arbítrio, e uni-lo em um princípio que reúna o ascetismo e o domínio. Eis aí o que chamo necessidade do terror
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Nessa mesma exposição, Naphta apoia a condenação medieval do lucro na opinião de São Tomás de Aquino, segundo a qual o comércio em si, o mero negócio comercial, a compra e venda no intuito de obter um lucro, mas sem transformação nem melhoramento da mercadoria, representavam uma profissão ignominiosa
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Quando Settembrini revela que Naphta é jesuíta e que só a doença o impediu de ser padre, Hans Castorp devolve a ele a figura que já fora usada contra o próprio Hans.
Ele é, à sua maneira, uma espécie de filho enfermiço da vida, um joli jésuite com uma petite tache humide
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Ao se despedirem, Settembrini adverte os primos contra Naphta com a fórmula que dá nome à seção.
porque a morte dissolve e redime, porque traz a redenção, mas não a redenção do mal, e sim a redenção pelo mal. A morte dissolve a ética e a moralidade, redime da disciplina e da moderação, liberta para a volúpia
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Para discutir Naphta diz que, para o reino chegar, é preciso "suspender momentaneamente o dualismo entre bem e mal" e chama isso de "necessidade do terror". O que torna esse argumento coerente por dentro, e o que a resposta de Settembrini, que invoca "personalidade, direitos do homem, liberdade", consegue ou não refutar nele?
Irascibilidade. E mais uma coisa muito constrangedora
Resumo da seção
Em agosto o tempo estraga, com neve em pleno verão, e o aniversário da chegada de Hans Castorp passa em silêncio. No exame mensal de setembro, Joachim comunica ao dr. Behrens que viaja em oito dias para apresentar-se ao regimento. Behrens o pressiona e depois cede, dando-lhe a alta com meia aprovação. Quando Hans pergunta se também pode partir, o médico o declara curado e explode de cólera diante da dúvida, saindo da sala com um estrondo. Hans mede 37,8 e decide ficar, e Joachim parte de trem.
Análise
Joachim fixa o motivo da partida com a firmeza de um oficial. Faz mais de um ano e meio que estou aqui, sr. Conselheiro. Não posso esperar mais tempo.
Behrens recusa o papel que o pedido de Hans parece lhe atribuir, e a explosão diz o que ele entende por sua função. Sou um funcionário desta empresa! Sou médico! Sou somente médico, o senhor compreende? Não sou alcoviteiro, não sou nenhum Signor Amoroso da via Toledo, na bela Nápoles, está me entendendo? Sirvo a humanidade sofredora!
Na estação, depois de uma noite sem dormir, Joachim chama o primo pelo prenome pela primeira vez em todo o romance, e esse é o gesto que o título anuncia como a coisa muito constrangedora.
Hans [...], venha logo, você também!
Para discutir Na estação, Joachim diz ao primo: "venha logo, você também!" O que esse apelo mostra sobre o que Joachim vê em Hans Castorp, e por que ele pesa tanto, vindo de quem parte, quando Hans já decidiu ficar?
Assalto rechaçado
Resumo da seção
Em outubro, sem Joachim, Hans Castorp janta entre desconhecidos, ao lado de Ferge e de Wehsal. O tio James Tienappel chega como emissário da planície, pronto para ficar uma semana e levar o sobrinho de volta para casa. Hans o recebe sem chapéu nem sobretudo e se nega a discutir, enquanto o cônsul se desorienta entre a superiora Mylendonk, uma conferência de Krokowski e um negativo fotográfico que Hans guarda como lembrança. No sexto dia o cônsul tem a entrevista com Behrens e, depois de ouvi-lo à mesa sobre a decomposição do cadáver, desaparece pela manhã no primeiro trem.
Análise
Ao ver na cômoda de Hans uma chapa de vidro com o esqueleto de um torso feminino, o tio pergunta o que é, e a resposta de Hans, curta e sem desculpa, é uma recusa de explicar-se à planície: o objeto que o tio não consegue nomear é a lembrança que prende Hans à montanha. Isso? É uma lembrança
O texto não diz que a conversa à mesa fez o cônsul fugir, mas a ordem das cenas sugere. O que Behrens explica a ele é como o morto, depois de inchar e rebentar, volta a ser apresentável em sociedade. O mais importante é deixar de feder.
O narrador fecha o episódio medindo o que o malogro vale para cada lado. Terminou assim a tentativa da planície de se reapossar do fugitivo Hans Castorp. [...] Para a planície, o malogro significaria renúncia definitiva, acompanhada de um dar de ombros; para ele, porém, liberdade plena, em face da qual seu coração, aos poucos, já deixava de estremecer.
Para discutir O tio James, enviado pela planície para levar Hans Castorp de volta, vê um retrato que mostra o esqueleto de um torso feminino e pergunta o que é, e Hans responde: "Isso? É uma lembrança". O que essa resposta mostra sobre o que prende Hans à montanha, e por que o cônsul não tem como contestá-la?
Operationes spirituales
Resumo da seção
Hans Castorp ouve a história de Naphta aos poucos, em visitas à cela forrada de seda e em passeios, e a seção a conta de uma vez: do pai açougueiro ritual, passando pelo colégio Stella Matutina e pelo noviciado, até a hemoptise que o tira da ordem. Em seguida, perto do Natal, uma disputa na neve entre Naphta e Settembrini, diante de Hans, Ferge e Wehsal, passa da saúde e da doença à tortura, à pena de morte e à nobreza, e termina em confusão.
A biografia de Leo Naphta, filho de um açougueiro ritual judeu na fronteira entre a Galícia e a Volínia, explica de onde vem a violência que sustenta as suas doutrinas.
Análise
O pai, Elia Naphta, morre num motim provocado pela morte não esclarecida de duas crianças cristãs: encontraram-no crucificado, fixado com cravos à porta da sua casa incendiada
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Órfão, Naphta é recolhido por um padre jesuíta, entra no colégio Stella Matutina e se converte, atraído pela disciplina, pela hierarquia e por uma forma de vida que a pobreza lhe negava. É a doença, com a hemoptise que se repete, que interrompe o caminho de Naphta rumo ao sacerdócio.
Não progrediu além do subdiaconato [...] e como a hemoptise se repetisse, e a febre não desse mostras de ceder, teve que submeter-se, à custa da ordem, a um tratamento prolongado
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Perto do Natal, numa controvérsia com Settembrini sobre saúde e doença, Naphta defende que a doença, não a saúde, é o que distingue o ser humano do resto da natureza.
quanto mais enfermo, tanto mais humano, e o gênio da enfermidade é mais humano que o da saúde
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Ao fim de uma tarde inteira de discussão que passa por Deus, o diabo, a nobreza e o burguês, o próprio narrador registra que nenhuma das duas posições se sustenta sozinha: Uma encruzilhada e emaranhamento completos, a grande confusão, e Hans Castorp acreditava perceber que os adversários se teriam mostrado menos encarniçados se durante sua querela essa confusão não lhes houvesse pesado sobre a alma
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É esse impasse, não resolvido em nenhuma sala forrada de seda, que o capítulo desloca para a neve: a resposta que os dois pedagogos não alcançam por meio de argumento vai aparecer a Hans Castorp sozinho, perdido numa tempestade, sem retórica de nenhum dos dois lados.
Para discutir Naphta afirma que "quanto mais enfermo, tanto mais humano", e o texto já contou que a doença o fez deixar o caminho do sacerdócio. Isso torna a tese dele mais honesta ou mais suspeita, e o que ela responde à recusa de Settembrini de ver nobreza na doença?
Neve
Resumo da seção
No segundo inverno de Hans Castorp o sol quase não aparece e a neve cai em quantidade nunca vista, o que restringe os passeios de todos, menos dos esquiadores. Para ficar a sós com seus pensamentos, ele compra esquis, com o aplauso de Settembrini. Numa tarde a tempestade o surpreende longe do vale, e ele só volta ao Berghof depois de adormecer na neve e sonhar.
Numa tarde de inverno anormalmente carregado de neve, Hans Castorp se afasta dos caminhos batidos, tomado por um desafio que ele mesmo reconhece como tal.
Análise
Examinando os flocos na manga com olhos de naturalista amador, que já os vira sob a lente, ele repara na perfeição hostil do seu desenho: eles eram regulares em excesso, num grau jamais alcançado pela substância organizada para a vida. A esta repugnava uma precisão tão exata, que se lhe afigurava mortal, como o mistério da própria morte
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Surpreendido pela tempestade, perdido, bebendo vinho do Porto contra todo bom senso, Hans Castorp se abriga junto a um galpão e adormece. No sonho vê primeiro um golfo mediterrâneo com jovens belos e sensatos numa praia, depois, ao voltar-se para o interior de um templo, duas bruxas que esquartejam e devoram uma criança. É desse duplo sonho, e não de nenhuma fala de Settembrini ou de Naphta, que sai a formulação que resolve por cima dos dois o problema que o capítulo inteiro vinha armando.
Não quero conceder à morte poder algum sobre meus pensamentos! Pois é nisso que consistem a bondade e a filantropia, e em nada mais. [...] O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte que ela
.
No mesmo devaneio, pouco antes dessa frase, Hans Castorp escolhe os jovens corteses do golfo sonhado e recusa os dois mestres de uma vez. Quero, com toda a minha alma, aderir a eles e não a Naphta, tampouco a Settembrini. Ambos são charlatães.
Acordado, Hans Castorp volta ao vilarejo, janta com fome e a experiência já começa a se apagar nele.
O que sonhara estava em vias de se apagar. E o que pensara, naquela mesma noite já não o entendia muito bem
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O romance concede a Hans Castorp, e só a ele, a formulação que Naphta e Settembrini gastam o capítulo inteiro sem alcançar, e no mesmo gesto tira dele a posse consciente dela: a verdade central do livro é dita e esquecida pela mesma pessoa, na mesma cena, o que talvez explique por que o duelo entre os dois pedagogos continua, sem vencedor, até a morte de Joachim.
Para discutir No sonho da neve, Hans Castorp diz que o amor enfrenta a morte e que "só ele, e não a razão, é mais forte que ela", e chama Naphta e Settembrini de "charlatães". O que essa sentença aceita e o que recusa de cada um deles, e por que ela nasce de um sonho e não de uma conversa?
Como um soldado, como um valente
Resumo da seção
Joachim manda cartões felizes do regimento, é promovido, mas adoece de novo e volta a Davos no verão, com a mãe, para um "pequeno tratamento suplementar". Hans discute a maçonaria separadamente com Naphta e com Settembrini. Behrens descobre a tuberculose da laringe de Joachim e pede a Hans que o trate com gentileza nas semanas que restam. Em novembro Joachim se acama, a mãe é chamada de volta e chega a tempo de vê-lo morrer, às sete da noite.
Numa conversa sobre a maçonaria, Hans Castorp pergunta a Settembrini se os maçons acreditam em Deus, e o humanista anuncia o credo da futura liga universal com o lema de Voltaire, que no Tratado sobre a Tolerância põe o limite da tolerância no fanático.
Análise
terá indubitavelmente uma confissão religiosa uniforme, nos seguintes termos: “Écrasez l’infâme!”
A objeção de Hans Castorp: De modo obrigatório? Isso não seria lá muito tolerante
E a resposta de Settembrini, que põe o limite da tolerância no mesmo lugar em que os iluministas o punham: a tolerância se torna crime quando se devota ao mal
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No instante da morte, Joachim, sem saber que morre, dá uma última ordem doméstica: o enfermo mencionou com certa pressa que devia imediatamente redigir e despachar um requerimento, solicitando a prorrogação de sua licença. No meio dessas palavras realizou-se o “trespasse imperceptível”
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O Dr. Behrens, que meia hora antes dera ao moribundo uma injeção de cânfora e só perdeu o instante do trespasse, resume a morte de Joachim na única linguagem que ele reconhece, a militar, sem a ironia que emprega para qualquer outro pensionista do romance.
Safou-se para o campo da honra, esse fujão. Mas no caso dele a honra significou a morte, e a morte… Bem, vocês também podem inverter a frase, à vontade. Seja como for, ele nos disse: “Tenho a honra de me despedir”
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Settembrini e Naphta comparecem juntos ao velório, e mesmo diante do corpo o duelo entre eles não cede um passo.
À observação sarcástica de Naphta sobre a comoção do humanista, o próprio Naphta acrescenta, ainda junto ao corpo de Joachim: O erro dos literatos consiste na crença de que somente o espírito torna as pessoas decentes. Em realidade, o que se dá é antes o contrário. Somente onde falta o espírito existe decência
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É a marca do capítulo inteiro: nem a morte de Joachim, tratada sem ironia em toda a sua extensão, comove Naphta o bastante para suspender a disputa, e é essa recusa a ceder terreno, dos dois lados, até no funeral de um rapaz que ambos afirmavam estimar, que deixa claro que o romance não está armando uma resposta certa contra uma errada, mas um impasse que só a cena da neve, à parte deles dois, consegue atravessar.
Para discutir Joachim morre pedindo "a prorrogação de sua licença", e Behrens o despede na linguagem militar do "campo da honra". Por que o romance deixa o soldado morrer com um requerimento nos lábios, e o que a disputa de Naphta e Settembrini diante do corpo diz sobre o valor das teses de cada um?