Clavis Libri

A Montanha Mágica · Capítulo III

O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini

Introdução

Resumo da seção

O capítulo instala o elenco e o método do romance: a maquinaria do sanatório, o humanista italiano Lodovico Settembrini, a régua do tempo que não coincide com a régua do espaço, e a primeira das muitas portas que batem.

Settembrini entra pedagogo desde a primeira fala, e sua ironia sobre os médicos como juízes do além e sobre os doentes como "gente decaída" já nega, antes de qualquer tese formal, o culto romântico da doença.

A porta de vidro que a sra. Clawdia Chauchat deixa bater é o primeiro sinal do que o livro só vai nomear no capítulo seguinte: a irritação de Hans Castorp é desproporcional ao ruído, e o narrador já indica que ela esconde outra coisa.

Análise

O sr. Albin encena o próprio suicídio para o alpendre, e a reação de Hans Castorp (inveja da liberdade que a vergonha oferece) antecipa o fascínio pela irresponsabilidade que vai crescer no romance.

O capítulo fecha em cima do corpo: palpitações sem motivo, o calor no rosto que não cede, o riso que ninguém controla. É sintoma sem nome ainda.

Ensombramento púdico

Resumo da seção

Hans Castorp se levanta cedo para o seu primeiro dia inteiro, faz a barba e sai à sacada, de onde vê no jardim uma senhora vestida de preto que anda sem parar, ao ritmo de uma marcha que chega de longe. Pela parede do quarto vizinho ouve o casal russo em plena disputa amorosa, e reage com um pudor que o próprio narrador não trata como virtude simples: ensombra a fisionomia, cora e sente voltar o ardor seco da véspera. É assim que Joachim Ziemssen o encontra, de mau humor.

Análise

O narrador enumera os nomes possíveis para essa reação, todos igualmente insuficientes: pureza da alma, ou talvez o belo e austero nome de pudicícia, ou ainda os nomes depreciativos de indisposição à verdade ou de tartufice, ou até mesmo o de piedade ou resguardo místico [...] atitude que se manifestava em um ensombramento pudico de sua fisionomia, como se ele mesmo nada devesse saber daquilo que ouvia, nem o quisesse: essa expressão de inocência não era propriamente original, mas ele tinha o hábito de adotá-la em certas ocasiões

O rubor que o surpreende no quarto não é vergonha comum: é um calor que já vinha de um "ardor seco" da noite anterior e que vai perseguir Hans Castorp o capítulo inteiro, muito depois de o casal ter saído de cena.

E de repente corou por baixo da camada de pó de arroz: o que ele já previra claramente acabava de suceder: a brincadeira, sem dúvida alguma, tomara um rumo animalesco.

Para discutir Ouvindo o casal do quarto vizinho, Hans Castorp fecha o rosto, e o narrador oferece vários nomes para essa reação, de "pureza da alma" a "tartufice", sem escolher nenhum. Por que o narrador recusa decidir, e o que o gesto de Hans Castorp esconde ou confessa?

Desjejum

Resumo da seção

Joachim e Hans Castorp descem para o café da manhã, e no caminho Joachim explica quem é a senhora de preto do jardim, a mexicana apelidada "Tous-les-deux", que espera a morte do filho mais velho. Na sala das sete mesas, Hans Castorp conhece os companheiros de mesa, entre eles a "costureira", que se revelará a professora Engelhart, e a sra. Stöhr, e se sobressalta com o estrondo de uma porta envidraçada cujo autor não vê. Os médicos já fizeram a primeira ronda, e na saída Dr. Behrens e Dr. Krokowski cruzam com os primos: Behrens o chama de paisano, declara-o anêmico e o manda viver como um tuberculoso e tomar a temperatura.

Análise

Joachim explica o apelido da mulher de preto com o mesmo desprendimento com que fala dos mortos. Todos a chamam assim porque essas palavras são as únicas que se ouvem dela.

A sala de refeições tem uma geometria que o texto detalha como se fosse arquitetura de culto, e a "sala das sete mesas" volta a ser nomeada ao longo das refeições do dia.

Havia sete mesas na sala, a maioria em sentido longitudinal e apenas duas colocadas de través. Eram mesas grandes, cada qual com capacidade para dez pessoas, se bem que nem todas estivessem completamente ocupadas.

O café da manhã é levado a sério como refeição, e o narrador fecha a cena com uma frase que junta o convívio social e a doença comum a todos ali, sem que ninguém pareça notar a fusão das duas coisas.

colegas de Joachim, companheiros seus de destino, todos enfermos por dentro, a conversar e a tomar seu café da manhã

A "costureira" da mesa já fala em excitação sem motivo, o primeiro sinal de que o mal de todos ali é o mesmo que começa a chegar a Hans Castorp. declarou sentir-se, pelo contrário, muito agitada, desassossegada, tomada de uma tensão interior

A porta da esquerda bate durante a refeição, e Hans Castorp sente uma fúria que o próprio narrador não explica por inteiro. Hans Castorp sentiu um ódio mortal por esse ruído, que desde sempre o enfurecera [...] tinha vontade de esbofetear a quem cometesse esse crime na sua presença

Na saída, Behrens dá a Hans Castorp o conselho de que Settembrini vai rir mais tarde. Nada melhor, no seu caso, do que viver por algum tempo como se tivesse uma ligeira tuberculosis pulmonum e acumular proteínas.

Para discutir A batida de uma porta provoca em Hans Castorp "um ódio mortal por esse ruído", e o narrador sugere que isso talvez se devesse à educação ou a uma idiossincrasia inata. Por que um barulho tão pequeno gera uma fúria tão desproporcional, e o que o leitor deve concluir de o texto oferecer só hipóteses?

Brincadeira de mau gosto. Viático. Hilaridade interrompida

Resumo da seção

No passeio da manhã, Hans Castorp fuma um charuto (ver Os charutos Maria Mancini) e o acha sem sabor, cruza com os pacientes da "Sociedade Meio-Pulmão" e com o assobio de Hermine Kleefeld, e Joachim explica o pneumotórax. Num banco, os dois falam da morte no sanatório, e Joachim conta o dia em que viu levarem o viático à pequena Hujus, que gritava escondida sob os cobertores, e a ordem de Behrens a outro moribundo: "Não faça tanta fita". Hans Castorp reage dizendo que um moribundo é mais nobre do que quem passeia e ri, e ri de novo sem poder parar, até aparecer Settembrini.

Análise

A mocinha de suéter verde assobia sem abrir a boca, e Hans Castorp só entende o que ouviu quando Joachim explica. Essa é a Kleefeld, Hermine Kleefeld. Ela assobia com o pneumotórax.

Joachim explica por que os pacientes jovens são tão alegres, e a resposta dele vira a chave do primeiro dia. Às vezes me vem a ideia de que essa coisa da doença e da morte no fundo não é séria; é antes uma espécie de relaxamento.

o padre levava à altura do peito o viático recoberto, mantendo a cabeça humildemente inclinada; era o Santo Sacramento, você sabe

Dos gritos da moribunda escondida sob os cobertores, Joachim passa ao "Não faça tanta fita" de Behrens a um agonizante, e é a isso que Hans Castorp reage com uma sentença que fecha a cena e antecipa o sr. Albin, mais adiante no mesmo capítulo.

Ninguém me tirará da cabeça que um moribundo é mais nobre do que um indivíduo qualquer que passeia e ri e ganha dinheiro e enche a pança!

Logo depois da sentença, o riso da véspera volta a dominá-lo, ainda mais forte. de súbito suas palavras se afogaram numa gargalhada que se apoderou dele e o dominou; era o mesmo riso da véspera, uma risada que brotava das entranhas, lhe sacudia todo o corpo e não tinha fim, que lhe cerrou os olhos e arrancou lágrimas por entre as pálpebras comprimidas

A frase sobre o moribundo é dita já à beira dessa risada: o capítulo trata riso e reverência pela morte como reações do mesmo corpo desregulado, não como opostos.

Para discutir Joachim diz que a doença e a morte, ali, são "uma espécie de relaxamento", e pouco depois Hans Castorp afirma que um moribundo é mais nobre do que quem "passeia e ri". Essas duas falas se contradizem ou descrevem a mesma coisa vista de lados opostos?

Satana

Resumo da seção

Lodovico Settembrini, um italiano de roupas gastas e fala elegante, é apresentado a Hans Castorp, a quem pergunta pelos meses que lhe pespegaram os "nossos Minos e Radamanto" e a quem diz que ali a menor unidade de tempo é o mês. Ao ouvir Hans Castorp invocar o diabo, recita o hino de Carducci a Satanás, fala mal do dr. Behrens, da enfermeira-chefe e de outros médicos de Davos, e discursa sobre o humanismo e a pedagogia. Despede-se no elevador, e Joachim conta que ele é literato, filho e neto de literatos, doente persistente e sem muito dinheiro.

Antes de saber o nome do forasteiro, Hans Castorp o classifica pela aparência gasta e pelos modos musicais.

Análise

“Um tocador de realejo”, pensou Hans Castorp, e assim não se admirou nem um pouquinho do nome que ouviu

Apresentado como Settembrini, ele batiza os médicos com os nomes dos juízes do reino de Hades e chama a si e aos outros pacientes de gente que caiu.

Quantos meses lhe pespegaram os nossos Minos e Radamanto? E, momentos depois: Então o senhor veio por vontade própria a estas alturas, visitar esta gente decaída que somos

Hans Castorp responde que fica três semanas, com um orgulho fátuo, e a réplica de Settembrini já traz a régua do tempo que o capítulo vai discutir mais adiante.

Fique sabendo, meu senhor, que ignoramos a semana como medida de tempo. Para nós, a menor unidade é o mês.

Nenhuma dessas falas nega que os pacientes estejam doentes, mas nenhuma trata a doença como elevação: juiz do inferno e gente decaída são figuras de rebaixamento, não de nobreza. É a mesma régua com que, logo em seguida, Settembrini recusa o próprio diabo que Hans Castorp invocara sem pensar. Ao ouvir "difícil como o diabo", ele pergunta se o rapaz sabe que seu grande mestre dedicou ao demônio um hino, e recita o verso O salute, o Satana, o Ribellione, o forza vindice della Ragione

O verso é de Giosuè Carducci, poeta de quem Settembrini se diz discípulo e cujo necrológio escrevera para jornais alemães, e o hino celebra Satanás como símbolo da razão rebelde contra o obscurantismo, não como figura do mal. O romance nomeia o poeta e recita o verso, mas não data o poema: a data do Inno a Satana fica para conferir contra edição do próprio Carducci antes de qualquer uso público.

O gesto de Settembrini inverte a expectativa: ele não recusa o diabo por piedade, recusa-o por reivindicá-lo do lado certo, o da razão contra o trabalho evitado. É a mesma operação que aplica à doença ao longo de todo o capítulo: nada nela é digno em si, e o único elogio que Settembrini reserva a Hans Castorp é o da profissão que exerce e do "trabalho que merece esse nome", nunca o do quarto que ocupa no Berghof (ver O Berghof).

A única dignidade que Settembrini nomeia neste capítulo é humana, não patológica: somente ele guarda a tradição da dignidade e beleza do humano

Isso é dito do humanista, sucessor do sacerdote na condução da juventude, e nunca do doente. O contraponto sistemático entre Settembrini e o padre Leo Naphta, que a lente do humanismo abre aqui, pertence a capítulos posteriores, ver Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim.

Para discutir Settembrini chama os doentes de "gente decaída" e os médicos de "Minos e Radamanto", e logo depois recita um hino a Satanás. Que tipo de humanismo é esse, que despreza a doença e reivindica o diabo, e o que um rapaz como Hans Castorp pode tirar dele?

Sutileza do pensamento

Resumo da seção

Na sacada, Joachim toma a temperatura, sete minutos com o termômetro sob a língua, e Hans Castorp, de olhos estriados de vermelho, improvisa uma filosofia do tempo que o próprio narrador registra como algo incomum nele: o tempo não teria natureza própria e seria medido por convenção. Depois deita-se na espreguiçadeira e, no segundo café da manhã, bebe cerveja de Kulmbach, que o atordoa, enquanto Settembrini chega e ele começa a reconhecer os hóspedes. Mais uma vez a porta envidraçada bate, e dessa vez Hans Castorp já não se sobressalta.

Análise

O tempo não tem natureza própria, em absoluto. Quando nos parece longo, é longo, e quando nos parece curto, é curto, mas ninguém sabe em realidade a sua verdadeira extensão.

Joachim responde com o senso comum do relógio (ver O relógio) e do calendário, e Hans Castorp rebate atacando a própria unidade de medida.

Medimos o tempo por meio do espaço, portanto. Mas isso é a mesma coisa que medir o espaço com o auxílio do tempo [...] o que fazem somente pessoas sem espírito científico.

A conclusão de Hans Castorp é a que vai sustentar o próximo capítulo inteiro, quando o tempo do Berghof começar a se dissolver de fato.

Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de um modo uniforme; e onde está escrito que é mesmo assim? Para a nossa consciência, não é. Somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e nossas medidas, permita-me esta observação, não passam de convenções…

O argumento nasce encostado no ritual mais repetitivo do capítulo, a tomada de temperatura: Joachim mede sete minutos com o termômetro (ver O termômetro) na boca quatro vezes por dia justamente porque, disse ele mesmo, é assim que se percebe "o que propriamente representa um minuto". O debate abstrato sobre o tempo tem sua prova de bancada na própria rotina do sanatório: a discussão sobre o sentido do tempo continua no capítulo seguinte, ver Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro.

Para discutir Na sacada, Hans Castorp diz que medimos o tempo pelo espaço e que as nossas medidas "não passam de convenções". Ele está filosofando ou racionalizando o que o lugar e o corpo já fazem com ele, e o que no texto indica uma coisa ou outra?

Uma palavra de mais

Resumo da seção

Os primos descem a pé a Davos-Platz antes do almoço, e Hans Castorp, atordoado, esquece a teoria do tempo e fala só do corpo, das palpitações que parecem independentes da alma, que Joachim, depois de reprovar a expressão, aceita como parecidas com a febre. Joachim nomeia os companheiros de mesa e empalidece quando se fala de Marúsia. Diante das quadras de tênis, diz que ali só se fica deitado, a "vida horizontal" de que Settembrini zomba, e leva o primo de volta ao quarto, cansado.

Análise

sentir que o coração bate gratuitamente, sem motivo nem sentido, por assim dizer por conta própria [...] é como se o corpo seguisse o seu próprio caminho e se tivesse desligado da alma

A imagem que ele usa para descrever esse desligamento é a de um cadáver que continua vivo em parte, comparação que Joachim rejeita pelo vocabulário antes de aceitar a ideia.

reina nele, sob aspectos físicos e químicos, a mais franca animação

É a mesma imagem do ensombramento pudico e do corar sem motivo, agora nomeada: o corpo de Hans Castorp reage antes e à revelia da vontade, e o capítulo trata isso como o verdadeiro tema do dia, mais do que qualquer conversa.

Quando Hans Castorp diz que Marúsia tem aparência sadia, o rosto de Joachim muda de cor, e é a primeira vez que o texto mostra o que o primo guarda. o rosto de Joachim, apesar de tostado pelo sol, mostrava uma cor terrosa, como a adquire a pele queimada, quando o sangue se retira, e que sua boca se crispara de um modo particularmente doloroso

É nesse passeio que a "costureira" ganha nome e ofício. A costureira não era costureira, mas uma professora do Liceu Estadual Feminino de Königsberg, e por isso se expressava com tanta correção. Seu nome era sra. Engelhart.

A ironia tem endereço fixo: diante das quadras, Joachim resume a doutrina de Settembrini sobre a vida no sanatório numa frase que o próprio Hans Castorp vai repetir mais tarde ao italiano.

Settembrini costuma dizer que vivemos uma vida horizontal, que somos uns horizontais.

Para discutir Hans Castorp diz sentir o coração bater "por conta própria", como se o corpo se tivesse "desligado da alma", e Joachim reprova o modo como ele fala. O que está em jogo na separação entre corpo e alma que Hans descreve, e por que Joachim a recebe com censura?

Uma fêmea, naturalmente!

Resumo da seção

Hans Castorp desce ao almoço pela terceira vez no dia, e a sra. Stöhr desfia mexericos sobre o capitão Miklosich e a mulher do cônsul-geral Wurmbrand. A refeição tem seis pratos, a porta envidraçada bate enquanto comem o peixe, e Hans Castorp vê pela primeira vez quem a bate: uma moça de suéter branco, que a professora Engelhart identifica como madame Chauchat. O dr. Blumenkohl sai da mesa, e a sra. Stöhr comenta que ele precisa conversar de novo com o "Joãozinho Azul". No repouso depois do almoço, Hans Castorp nota manchas de sangue no lenço e fuma o Maria Mancini até o fim.

O capítulo conta as refeições como quem marca horas de um ofício, e o almoço sozinho já soma seis pratos.

Análise

Incluindo a sopa, constava de nada menos que seis pratos.

A porta de vidro do vestíbulo bate de novo, e Hans Castorp reage outra vez com uma fúria fora de proporção ao barulho. Desta vez ele vê quem a bateu: uma mulher que, depois do estrondo, caminha sem ruído nenhum, o que o narrador marca como contraste com a entrada barulhenta que a antecedeu.

Ela caminhou sem ruído, o que criou um estranho contraste com sua entrada barulhenta; caminhou de um modo furtivo e peculiar, com a cabeça levemente avançada, até a última mesa à esquerda

Ao ver o rosto dela, Hans Castorp sente algo que ainda não sabe nomear. Uma recordação vaga, ele não sabia de que nem de quem, assaltou-o leve e passageiramente ao ver esse rosto

A reação de Hans Castorp, ao identificá-la como a dona da porta, é a frase que dá título à seção.

“Uma fêmea, naturalmente!”, pensou Hans Castorp

Ele repreende a sra. Chauchat pela mesma falta de educação que reprova nos vizinhos russos, mas o capítulo já indica que a irritação esconde outra coisa.

O corpo de Hans Castorp avisa antes dele, e o aviso passa sem que ele reflita. Quando fez uso do lenço, notou nele manchas de sangue, mas não teve forças para refletir a esse respeito

Para discutir Ao ver quem bate a porta de vidro, Hans Castorp pensa "Uma fêmea, naturalmente!", como quem confirma uma suspeita. O que ele esperava encontrar, e por que a irritação com o barulho já traz, junto, uma curiosidade pela mulher que o faz?

O sr. Albin

Resumo da seção

No alpendre de repouso, o sr. Albin, jovem recém-saído de uma pneumonia, exibe às senhoras uma faca e um revólver carregado e diz guardar o revólver para o dia em que a doença o aborrecer. Justifica-se com a imagem do aluno que repetiu de ano e por isso deixa de ser examinado, e Hans Castorp, que repetira o sexto ano do ginásio, sente inveja, não repulsa.

Análise

Conservo-o preparado para o dia em que esta coisa aqui começar a me aborrecer muito, e então terei a honra de uma despedida digna.

A justificativa dele usa a imagem escolar de quem já repetiu de ano e por isso está isento das obrigações dos outros.

Incurável, minhas senhoras! Olhem o homem que aqui está à sua frente; é um caso incurável [...] Nada mais preciso fazer; não entro mais no balanço; posso me rir de tudo…

Hans Castorp reconhece a situação e imagina o que seria estar livre da honra, explorando em pensamento as vantagens da vergonha.

imaginou para si o que significaria ver-se definitivamente livre da pressão da honra e gozar para sempre as imensas vantagens da vergonha, uma sensação de gozo dissoluto o assustou

Para discutir O sr. Albin mostra um revólver às senhoras e diz que é um caso "incurável" e, por isso, "não entro mais no balanço; posso me rir de tudo". Hans Castorp imagina as "vantagens da vergonha" e se assusta com a sensação de "gozo dissoluto" que isso lhe dá. O que o fascina na ideia de viver sem a pressão da honra, e por que isso o assusta?

Satana faz propostas desonrosas

Resumo da seção

Hans Castorp é despertado às três e meia pela ronda de Krokowski, toma chá pela quarta vez no dia e janta pela quinta, e à noite, no vestíbulo, Settembrini lhe pergunta como foi o primeiro dia e sugere que parta no trem de amanhã. Hans Castorp recusa, por vergonha de parecer covarde, e Settembrini conta o caso da srta. Kneifer e da "irmã muda". Hans Castorp fuma um Maria Mancini ao lado de Joachim, tiritando de frio, e depois, já na cama, a noite traz sonhos com Behrens, com o lápis de madame Chauchat, com Settembrini e com Krokowski.

O capítulo conta as refeições como quem marca horas de um ofício: o chá é a quarta vez que Hans Castorp se senta à mesa naquele dia, e o jantar, a quinta.

Análise

Mais uma vez — a quarta — achava-se sentado em seu lugar, na sala das sete mesas, com a abóbada de cores singelas. E, horas depois, às sete horas, encontrava-se ali pela quinta vez, por ocasião do jantar.

No vestíbulo, depois do jantar, Hans Castorp já não distingue o que viveu do que sonhou, e diz isso a Settembrini sem constrangimento. O senhor conhece essa sensação de sonhar e de saber que se sonha, de querer despertar e não conseguir? É justamente o que se passa comigo.

À noite, Settembrini pergunta a Hans Castorp como foi seu primeiro dia inteiro e, ao ouvir que ele não se sente bem nem física nem psiquicamente, sugere algo que nenhum outro personagem sugeriu até aqui: ir embora.

que tal se ainda esta noite preparasse suas malas e aproveitasse o trem de amanhã para pôr-se a caminho e safar-se daqui?

Ao proferir essas palavras, Hans Castorp lança um olhar à sala vizinha e vê madame Chauchat de frente: a pergunta sem resposta que se faz é o gancho explícito do capítulo seguinte, onde o nome que falta aparece, ver Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro.

“O que ela me lembra? E quem, neste mundo inteiro?”, ele pensou.

Hans Castorp recusa, e o argumento que usa é o mesmo vocabulário de honra e covardia que atravessou a cena do sr. Albin, só que aplicado ao contrário.

se eu logo abandonasse o posto, só por sentir durante alguns dias um pouco de calor e de tonturas, teria vergonha de mim e me julgaria covarde

Settembrini aprova a resposta nos termos que já vinham definindo sua régua: não a saúde, não a doença, mas a razão e a coragem.

Inclino-me diante da razão [...] Inclino-me também diante da coragem.

É a mesma voz que, horas antes, chamara os médicos de juízes do Hades e os pacientes de gente decaída: Settembrini não valoriza ficar ou partir em si, valoriza a decisão tomada com clareza, o que faz da sua proposta de fuga um teste, não um conselho sério. A pergunta que ele mesmo levanta fica sem resolução, porque o corpo de Hans Castorp, com o calor no rosto que não cede e o coração acelerado, já está decidindo por conta própria, como o capítulo vinha descrevendo.

A noite do primeiro dia fecha numa série de sonhos, e um deles é a peça de construção mais silenciosa do romance: Hans Castorp sonha que está no pátio do ginásio e vai pedir um lápis (ver O lápis) emprestado a madame Chauchat.

Depois, Hans Castorp sonhou que se encontrava no pátio do ginásio, onde durante tantos anos passara os intervalos entre as aulas, e que estava a ponto de pedir emprestado um lápis à madame Chauchat, que igualmente estava presente.

Dentro do próprio sonho ele reconhece de quem ela o faz lembrar, e luta para acordar a fim de guardar a percepção antes que o sono a leve.

ele fez um esforço violento para se desprender do sonho; pois agora já sabia e queria gravar na memória que acontecimento e que pessoa ela lhe recordava com tamanha intensidade

O capítulo mostra a cena inteira e sonega o nome: o leitor recebe o pátio, o lápis, os olhos rasgados e a rouquidão da voz, e não recebe quem é a pessoa lembrada. A resposta só chega no capítulo seguinte, com o episódio de Pribislav Hippe, em Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro, e é por isso que essa passagem tem casa aqui e não lá: o efeito depende de ela vir antes e sem explicação.

No sonho seguinte, a tese do tempo que Hans Castorp improvisara de manhã vira, para ele, uma descoberta que quer comunicar a Joachim. evidenciou-se que o tempo nada mais era senão uma “irmã muda”, uma coluna de mercúrio desprovida de escala, para aqueles que quisessem trapacear

O sonho que se repete duas vezes na noite, uma delas de madrugada, entrega a Hans Castorp a mão de madame Chauchat. estendeu-lhe a mão para beijar — não as costas, mas sim a palma

A sensação que o sr. Albin lhe dera à tarde volta no sonho, muito mais forte. Novamente o invadiu então, dos pés à cabeça, aquela sensação de gozo dissoluto por que passara

Para discutir Settembrini aconselha Hans Castorp a fazer as malas ainda naquela noite e a pegar o trem do dia seguinte, e ele recusa porque teria vergonha de si e se julgaria "covarde". O conselho é prudência, teste ou provocação de pedagogo, e a recusa é uma escolha de Hans ou já é outra coisa?

Perguntas para discussão

Resumo da seção

Settembrini recusa a nobreza da doença por ironia (juízes do Hades, gente decaída, vida horizontal), nunca por um argumento direto sobre o corpo doente: em que ponto do romance essa ironia vira doutrina explícita, e ela chega a se sustentar sozinha, sem a réplica de Naphta?

O capítulo liga três vezes a mesma sensação, o riso incontido, o rubor que não cede, o coração que bate sem motivo, sem nomeá-la: o leitor já suspeita de febre antes de Hans Castorp, e o texto sabe disso?

Consequências

Resumo da seção

A pergunta sem resposta sobre a semelhança da sra. Chauchat organiza a leitura do capítulo seguinte, onde o nome que falta aqui aparece.

A régua de Settembrini contra a nobreza da doença, aqui só irônica, é o que o debate com Naphta vai tornar sistemático, ver Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim.

A fascinação de Hans Castorp pela liberdade que a vergonha oferece, provocada pelo sr. Albin, prepara o terreno para o abandono de convenções que o romance vai aprofundar nos capítulos de Humaniora e da Noite de Walpurgis, ver Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis.