Clavis Libri

A Montanha Mágica · Capítulo II

A pia batismal e as duas figuras do avô

Introdução

Resumo da seção

O capítulo II interrompe a chegada de Hans Castorp ao Berghof (ver O Berghof), contada em Capítulo I: A chegada ao Berghof, para voltar à infância dele em Hamburgo: é o único recuo no tempo do romance, e por isso mesmo o lugar onde o livro instala, antes de qualquer discussão explícita, a sua primeira tese sobre o tempo e sobre a morte.

Da pia batismal e das duas figuras do avô

Resumo da seção

Hans Castorp perde a mãe e depois o pai entre os cinco e os sete anos, e passa um ano e meio na casa do avô paterno, o senador Hans Lorenz Castorp, numa mansão da rua da Esplanada. O ritual que mais ficou desse período foi pedir ao avô, no gabinete, que lhe mostrasse a pia batismal de família, uma bacia de prata sobre uma bandeja mais antiga que guardava no verso os nomes de sete donos. O senador tem duas figuras, o avô do dia a dia e o do retrato com a golilha espanhola, e a segunda se confirma no velório, a terceira morte que o menino acompanha em pouco tempo.

Análise

Ao ouvir o avô recitar os nomes, o menino sentia algo que o narrador descreve como um efeito quase físico, o som dos prefixos genealógicos acumulados soando como vindo de um mundo submerso: esses "bis, tris, tetra", sons obscuros de tumba e de tempos soterrados, que todavia expressavam uma ligação piedosamente mantida entre o presente — a sua própria vida — e aquele mundo submerso.

O próprio avô repetia a cada vez, sobre a mesma bacia, o relato de três batismos, o de Hans, o do pai dele e o do próprio avô, cada um com a água caindo na mesma concavidade dourada, e é diante dessa repetição idêntica que o narrador nomeia pela primeira vez o sentimento central do capítulo, a impressão estranha, entre sonhadora e angustiante, de algo que desfilava sem se mover, que se mudava e contudo permanecia, algo que era tanto reiteração como vertiginosa monotonia.

Essa dupla sensação, o tempo como sucessão que ao mesmo tempo não muda nada, nasce de um objeto de família, não de um argumento filosófico, e é essa mesma experiência, deslocada para o sanatório, que vai reaparecer tratada de forma direta em Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro.

O senador aparecia a Hans Castorp de duas formas, e o menino considerava só uma delas verdadeira: o avô do dia a dia, e o avô do retrato de corpo inteiro pendurado na sala, vestido com a golilha espanhola e as vestes talares de vereador antigo.

Para a criança, e depois para a lembrança do adulto, era a segunda imagem que valia como autêntica, e a primeira que se reduzia a uma aproximação incompleta dela: para o menino de sete anos tanto como para a recordação do adulto, a imagem cotidiana e familiar do ancião não constituía a genuína e verdadeira.

Essa hierarquia entre as duas figuras do avô só se resolve na morte: quando o senador morre de pneumonia e é velado na mesma sala das refeições, vestido outra vez com a golilha espanhola e o crucifixo de marfim entre as mãos, o menino reconhece ali, e não no avô vivo, a forma definitiva da pessoa.

Assim o menino aprovou no seu íntimo que o avô surgisse em plena autenticidade e perfeição no dia em que chegou a hora de lhe dizer adeus para sempre, porque na morte o avô, solenemente desobrigado daquela adaptação passageira, assumira em definitivo o seu genuíno e merecido aspecto.

A tese que o capítulo instala aqui, a de que a morte não apaga a pessoa mas revela a sua forma mais própria, contra a aparência provisória do cotidiano, é o primeiro tratamento que o romance faz da morte como reveladora, e não só como perda, um ângulo que volta a se impor de outro modo no capítulo sobre Joachim Ziemssen, Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim.

O narrador nota que a repetição, em vez de despedaçar o menino, produziu nele um distanciamento peculiar: Afinal já era a terceira vez, num curto lapso de tempo, e numa idade tão tenra, que a morte agia sobre o espírito e os sentidos — principalmente os sentidos — do pequeno Hans Castorp, e o terceiro enterro acrescentou um matiz especial [...] que o imunizou contra os frequentes acessos de choro e o contágio do pranto dos demais, fazendo que tudo isso se lhe afigurasse como uma reação normal.

Dessa terceira morte o narrador extrai a formulação com que resume o duplo rosto da morte no romance inteiro: a morte tinha dois aspectos, um piedoso, significativo, de melancólica beleza [...] e ao mesmo tempo tinha outro, absolutamente diverso e até mesmo oposto, um aspecto muito físico, bem material, que era impossível qualificar propriamente de belo, significativo, piedoso, nem sequer de triste.

É esse acostumar-se cedo com o lado físico e indecoroso da morte, ao lado do lado solene, que explica por que Hans Castorp sobe ao Berghof sem o choque que se esperaria de um jovem saudável instalado entre tuberculosos, questão que Capítulo I: A chegada ao Berghof já registra do lado da chegada.

Para discutir Para o menino Hans Castorp, a imagem do avô no dia a dia "não constituía a genuína e verdadeira", e a figura que ele reconhece como autêntica se confirma no velório. O que significa a ideia de que a morte revela a forma verdadeira de alguém, e ela é consolo ou é estranheza?

Da casa dos Tienappel e do estado moral de Hans Castorp

Resumo da seção

Órfão também de avô, Hans Castorp passa a morar com o tio-avô materno, o cônsul Tienappel, seu tutor, que liquida a firma dos Castorp e lhe salva uns quatrocentos mil marcos de herança. O narrador descreve o rapaz criado entre estaleiros, cais e boa mesa, e interrompe o relato para diagnosticar o seu estado moral: uma época que não responde ao "para quê?" deixa o indivíduo sem vigor. Hans Castorp escolhe a engenharia naval por sugestão do velho Wilms, conclui os exames teóricos e, aconselhado pelo médico a ir às altas montanhas, é mandado pelo tio a visitar o primo doente em Davos por três semanas.

Análise

uns quatrocentos mil marcos: a herança de Hans Castorp é a soma que o cônsul consegue salvar da liquidação, aplicada a juros e cobrada com a comissão legal de praxe, apesar do parentesco.

A casa dos Tienappel, na avenida de Harvestehude, forma no jovem os hábitos precisos de um burguês de Hamburgo, com o gosto pela boa mesa e pelo tabaco fino, e com a aprovação com que respira o ar úmido e mercantil da cidade portuária em que cresceu.

É a partir dessa formação confortável e sem sobressaltos que o narrador interrompe o relato biográfico para formular o diagnóstico sobre o estado moral do rapaz.

O homem não vive somente sua vida pessoal como indivíduo; consciente ou inconscientemente, participa também da vida de sua época e de seus contemporâneos, e o bem-estar de cada um depende não só dos seus objetivos pessoais, mas de o tempo em que vive oferecer ou não uma resposta às perguntas mais gerais sobre o sentido do esforço humano.

Quando essa resposta falta, o efeito não fica confinado ao ânimo: Para alguém se dispor a empreender uma obra que ultrapasse a medida da necessidade pura e simples, sem que seu tempo saiba uma resposta satisfatória à pergunta "Para quê?", é indispensável um isolamento e prontidão moral, algo raro e de natureza heroica, ou então uma vitalidade muito robusta, e Hans Castorp, diz o narrador, não possuía nem uma coisa nem outra.

O narrador insiste em que essa carência de sentido supremo não fica só no plano moral: esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo.

É este o eixo que liga o capítulo II ao resto do romance: um jovem sem má-fé nem vocação especial, apenas exposto a uma época que já não sabe responder ao "para quê", chega ao sanatório permeável a qualquer sistema de sentido que alguém lhe ofereça, o que prepara terreno para os debates de Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis.

A profissão, quando vem, não é uma vocação: o rapaz chega a ela por uma sugestão feita à mesa de uíste do cônsul.

O velho Wilms, da casa Tunder & Wilms, decide por ele, e é dessa frase que sai a carreira de engenheiro naval. Hans Castorp deveria estudar engenharia naval, isso sim seria uma ideia, então ele poderia entrar na minha firma, e eu cuidaria do rapaz

Tinha atrás de si quatro semestres de estudos na Escola Politécnica de Dantzig e outros quatro nas escolas congêneres de Brunswick e de Karlsruhe.

O pretexto físico da viagem a Davos nasce ainda em Hamburgo: Hans Castorp sempre fora um pouco anêmico, e depois dos exames o mesmo médico da família recomenda a mudança de ares antes de ele assumir o cargo de engenheiro voluntário.

O diagnóstico é firme quanto ao lugar, não quanto à doença: nem Norderney nem a ilha de Föhr bastariam desta vez, a seu ver Hans Castorp, antes de entrar nos estaleiros, deveria passar algumas semanas nas altas montanhas.

O cônsul recusa as altas montanhas para si e propõe que o sobrinho vá sozinho visitar o primo, e o narrador explica por que a ideia era natural: a doença de Joachim, diferente da de Hans Castorp, é séria. Pois Joachim Ziemssen estava doente — não doente como Hans Castorp, mas de outro modo, realmente sério, que causara mesmo um grande susto a toda a família.

O capítulo fecha com a medida do tempo que Hans Castorp se dá, a mesma que o romance vai desfazer. Pretendeu viajar por três semanas.

A viagem que abre o romance, portanto, nasce como visita de três semanas ao primo Joachim Ziemssen, somada a uma recomendação médica sem gravidade aparente, e é só depois que a montanha revela o alcance que tinha, questão que pertence à progressão do capítulo I e à descoberta da própria doença de Hans Castorp nos capítulos seguintes.

Para discutir O narrador diz que, quando o seu tempo não sabe responder à pergunta "Para quê?", o indivíduo precisa de um raro "isolamento e prontidão moral" ou de uma vitalidade muito robusta, e que Hans Castorp não tem nem uma coisa nem outra. Até que ponto esse diagnóstico explica o jovem, e até que ponto é uma desculpa que o narrador lhe oferece?