Clavis Libri

O Cortiço

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

O Rio dos cortiços

Na segunda metade do século XIX o Rio de Janeiro, capital do Império, cresceu depressa com a chegada de imigrantes, sobretudo portugueses, e de libertos e trabalhadores pobres vindos de outras províncias. A habitação coletiva, as casinhas enfileiradas em volta de um pátio com tinas e bicas, alugadas por cômodo, foi a moradia dessa gente perto do trabalho. Os cortiços viraram assunto de médicos e autoridades, que os tinham por foco de doenças como a febre amarela, que aparece no livro levando dois italianos (capítulo XIII). Em 1893, três anos depois do romance, a prefeitura derrubou o mais famoso deles, o Cabeça de Porco, no centro da cidade. Botafogo, onde a ação se passa, era então um bairro em expansão, em que sobrados de negociantes ricos conviviam com vendas, pedreiras e estalagens.

Portugueses no comércio

João Romão, Miranda, Jerônimo e boa parte dos moradores são portugueses, e o livro registra uma presença real: no Rio do século XIX os imigrantes portugueses dominavam o comércio a varejo, as vendas e os armazéns, e muitos, como Miranda, enriqueciam no comércio de importação. O governo português costumava agraciar com títulos os emigrados ricos, e é assim que Miranda vira Barão do Freixal (capítulo X). A rivalidade entre brasileiros e portugueses, que estoura na briga de Piedade com Rita (capítulo XVI), também era coisa da rua.

A escravidão e a abolição

O romance se passa quando a escravidão ainda era legal, e por isso o engano de João Romão funciona: Bertoleza se crê livre por uma carta falsa (capítulo I) e, anos depois, pode ser reclamada pelo filho do antigo senhor em nome da lei (capítulo XXIII). O livro foi publicado em 1890, dois anos depois da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão no Brasil, e a sua última cena junta a escrava devolvida e uma comissão de abolicionistas que chega de casaca trazendo um diploma ao vendeiro.

O naturalismo

O Cortiço é o romance mais conhecido do naturalismo brasileiro, a escola que, na esteira de Émile Zola, tomava as personagens como produto do meio, da hereditariedade e do instinto, e descrevia a vida dos pobres e o corpo sem as conveniências do romance romântico. O narrador de Aluísio Azevedo explica os atos pelo calor, pela terra, pela fermentação do lugar, e fala da gente do cortiço com imagens de bichos, plantas e máquinas (capítulo III, capítulo XX). É o modo de narrar do livro, e boa parte da força dele está no contraste entre esse olhar de fora e a precisão com que mostra o dinheiro passando de mão em mão.

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