Clavis Libri

O Cortiço · Capítulos XVIII a XX

Libório, as obras e a queda de Piedade

Capítulo XVIII: João Romão toma as garrafas de Libório

Resumo da seção

Durante o incêndio, João Romão vê o velho Libório fugir para o esconderijo e o segue. Libório tira do colchão oito garrafas e as embrulha na coberta, mas cai vomitando sangue, abraçado ao embrulho, e tenta morder a mão do vendeiro que quer ajudá-lo a carregar. João Romão lhe arranca a trouxa quando o fogo atravessa o teto e corre a escondê-la, e vê de relance que as garrafas guardam dinheiro em papel. Só às cinco da manhã, quando Bertoleza, exausta de combater as chamas, dorme, ele confere que são oito garrafas cheias de notas e, com medo de ser visto, adia a contagem e as guarda em lugar mais seguro.

No dia seguinte, a estalagem faz o balanço: trinta e tantas casinhas arderam, Rita Baiana sumiu na confusão, Piedade caiu de cama com febre, a filha de Augusta morreu esmagada pelo povo, e os cadáveres da Bruxa e de Libório são expostos entre duas velas, com um prato para a esmola da mortalha. Léonie paga o enterro da menina. O Miranda vem de manhã, compungido e superior, e felicita João Romão porque tudo estava no seguro, o que o vendeiro fizera depois da primeira tentativa de incêndio. Ouve o plano de reedificar com quatrocentos ou quinhentos cômodos e sai com admiração sem reservas pelo vizinho, lamentando só a ligação dele com a crioula. À noite, João Romão conta o dinheiro: quinze contos e tantos, dos quais oito contos e seiscentos em cédulas já prescritas. Indignado com o prejuízo, lamenta não ter tomado o tesouro antes, diz que teria sido um ato de justiça e conclui que as cédulas ruins ainda se passariam em pequenos trocos, e resolve usar o resto nas obras.

Análise

Libório, por única resposta, arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e tentando morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas.

Libório vê no auxílio oferecido uma ameaça ao que guarda, e prefere rolar moribundo a largar a trouxa. O texto sustenta duas leituras sobre João Romão: ajudar o velho a fugir do fogo, como ele diz, ou usar o socorro como pretexto para pôr a mão nas garrafas, que ele "fariscara" havia tempo. A cena seguinte, em que lhe arranca a trouxa, favorece a segunda.

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Capítulo XIX: Obras, corte a Zulmira e Piedade humilhada

Resumo da seção

Começam as obras do cortiço pelo lado do Miranda, e João Romão resolve também erguer um sobrado mais alto que o do vizinho. Passa a vestir-se bem, a frequentar a Bolsa, e a jantar aos domingos em casa do Miranda, onde faz de Zulmira e da família alvo de presentes e gastos exagerados. O Barão e o Botelho estranham o que será da crioula, e Bertoleza, que sente o cheiro de outras mulheres no amigo, deixa de ser amante e fica só escrava de trabalho. Em dia de conversa longa com Botelho, que lhe aconselha pedir a mão de Zulmira porque já falou ao Barão em seu nome, Bertoleza chora sem poder trabalhar. Entre os moradores, Leocádia, que não quis ouvir a carta de Pombinha, visita o marido Bruno no hospital e volta para ele.

Jerônimo emprega-se de novo na pedreira de São Diogo e vive com Rita Baiana numa estalagem da Cidade Nova, onde gasta o dinheiro todo na casa e nas delícias da lua de mel. Piedade, depois da febre, torna-se resmungona e magra e passa a beber parati para enganar os pesares. A filha Senhorinha começa a ir aos domingos à estalagem da mãe. Quando a diretora do colégio ameaça expulsá-la por seis meses de pensão atrasada, Piedade procura Jerônimo, que a recebe com ternura e promete pagar, mas não paga: está alcançado no ordenado, deve ao padeiro e teme contrariar Rita. Na segunda visita, encontra-o bêbado e o jantar acaba em briga: ele a manda embora e diz que a filha ficará com ele, e mãe e filha saem enxotadas.

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Capítulo XX: A Avenida São Romão e a queda de Piedade

Resumo da seção

Piedade chega em casa às nove da noite, depois do jantar humilhante, bebe aguardente e sai ao pátio, onde o cortiço mudou: o espaço se estreitou com as edificações novas, os cômodos passaram de cento e tantos a mais de quatrocentos, e há varandas, latrinas, lampiões e a casa caprichada de Albino. Entre os moradores novos, que já usam gravata e meias, surgem estudantes, caixeiros e empregados, enquanto os italianos ocupam o lado esquerdo, mais sujo. O sobrado de João Romão, mais alto que o do Miranda, impõe respeito, a entrada recuou e a tabuleta passa a dizer "Avenida São Romão". O Cabeça-de-Gato decai, e desde a partida de Rita Baiana não se fazem mais os sambas ao relento.

Nesse domingo banzeiro, Piedade vai beber no grupo da das Dores e, à segunda volta da garrafa, torna-se a mais animada, a ponto de dançar para arremedar Rita. João Romão, que volta da casa do Miranda de fraque, a repreende e manda recolher a roda. O Pataca fica com ela, e os dois bebem e comem em sua casa, onde Piedade conta a humilhação sofrida na casa da outra. O Pataca censura o procedimento dela e não o de Jerônimo, oferece-se como consolo, e na cozinha abusa dela, que mal pode se defender. A filha, que acordou, vê de relance e foge. Piedade vomita e é arrastada à cama, e o Pataca vai embora furioso por não ter tomado café.

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