Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda
a tal carta de liberdade era obra do próprio João Romão, e nem mesmo o selo, que ele entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar à burla maior formalidade, representava despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida
Explicação e análise
Bertoleza, quitandeira e escrava de um velho cego, perde o companheiro e fica com as economias que juntava para a alforria. João Romão se oferece como confidente, guarda o dinheiro e, algum tempo depois, lê para ela uma carta de liberdade. O narrador revela, com ar de quem conta uma esperteza, que a carta era obra do próprio Romão. Ela acredita, chora de gratidão e segue trabalhando para ele como quem já não deve nada a ninguém.
A frase vai além da fraude e desce ao detalhe da economia: nem o selo, posto para dar "maior formalidade" à burla, custou dinheiro, porque ele reaproveitou uma estampilha já usada. O leitor vê numa só linha a falsificação e a sovinice de quem não gasta nem para enganar. O texto mostra ainda que Romão só se acalma três meses depois, quando morre o antigo senhor, o que sugere que ele temia ser descoberto.
Pode-se ler a passagem como a chave da relação entre os dois e da ascensão dele: a única prova que Bertoleza tem da liberdade é o que ele lê em voz alta, e é com o trabalho e as economias dela que o cortiço começa a se erguer. A escravidão entra no romance como engrenagem do enriquecimento de Romão, e a ambição aparece sem pudor.
Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 34 citações de O Cortiço está na assinatura.
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco
Explicação e análise
Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida
Explicação e análise
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo
Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra
Explicação e análise
não era decente, nem tinha jeito, dar homem a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vê-la solteira toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquele inferno da estalagem
Explicação e análise
Os meus setenta mil-réis voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em casa
Explicação e análise
pareciam um punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os contemplava com desprezo
Explicação e análise
Capítulos VI a VII: O domingo de Rita Baiana e o pagode
a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panelas e enchendo os pratos
Explicação e análise
Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu!
Explicação e análise
O Miranda apareceu furioso à janela, com o seu tipo de comendador, a barriga empinada para a frente, de paletó branco, um guardanapo ao pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada
Explicação e análise
Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano
Explicação e análise
Capítulos VIII a IX: Jerônimo, Leocádia e o escândalo de Florinda
Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda a fêmea pelas outras, quando sente o seu ninho exposto
Explicação e análise
mal, porém, a sua carne lhe tocou na carne, um desejo ardente apossou-se dele
Explicação e análise
pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se
Explicação e análise
O seu saldo não chega para pagar o dote da rapariga
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Capítulos X a XI: Título de barão, navalhada e visita de Pombinha
um desejo forte de querer saltar e um medo invencível de cair e quebrar as pernas
Explicação e análise
tudo se convertia em comendas e crachás; até os modestos dois vinténs de manteiga, que media sobre um pedaço de papel de embrulho para dar ao freguês, transformava-se, de simples mancha amarela, em opulenta insígnia de ouro cravejada de brilhantes
Explicação e análise
Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez.
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Jerônimo era alto, espadaúdo, construção de touro, pescoço de Hércules, punho de quebrar um coco com um murro: era a força tranquila, o pulso de chumbo
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Capítulos XII a XIV: Casamento, cortiço rival e plano de vingança
beijou-lhe repetidas vezes a barriga e parecia querer beijar também aquele sangue abençoado, que lhes abria os horizontes da vida, que lhes garantia o futuro
Explicação e análise
João Romão subia e ela ficava cá embaixo, abandonada como uma cavalgadura de que já não precisamos para continuar a viagem.
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Botelho queria vinte contos de réis, e com papel passado a prazo de casamento; o outro oferecia dez.
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lançava para baixo olhares de desprezo sobre aquela gentalha sensual, que o enriquecera, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol, sem outro ideal senão comer, dormir e procriar
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Capítulos XV a XVII: Morte de Firmo, briga de Piedade e incêndio
cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata
Explicação e análise
Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.
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onde ela, tantas vezes, com a cabeça encostada ao ombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na guitarra dele os queridos fados de além-mar
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os mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a salvar os miseráveis bens que possuíam sobre a terra
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Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade
Seria um ato de justiça!
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Nada têm que perder
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pouco a pouco deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma sua escrava
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A feroz engrenagem daquela máquina terrível, que nunca parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro.
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Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão
Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos!
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entregá-la ao seu senhor, restituí-la legalmente à escravidão.
Explicação e análise
O cortiço aristocratizava-se.
Explicação e análise
Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.