Quando e para quem a peça foi escrita
Otelo foi escrito nos primeiros anos do século XVII, num momento em que a companhia de Shakespeare mudava de patrono. A rainha Elizabeth I morreu em 1603, o novo rei, Jaime I, tomou a companhia sob a proteção da coroa, e os atores passaram a se chamar Homens do Rei. Tudo indica que o primeiro Otelo foi Richard Burbage, o ator mais famoso do grupo, a quem coube sustentar a cena 3 do Ato III, a mais longa da peça, em que o general passa da confiança à convicção. A plateia era mista, e o texto serve a todos os gostos: o verso dos senadores, a prosa dos soldados e as canções de bebida da cena 3 do Ato II.
Um africano de alta posição, em Londres e em Veneza
Em 1600 e 1601, um embaixador do sultão do Marrocos passou alguns meses em Londres, e o público da cidade viu de perto um africano de posição elevada, como o general que o Senado de Veneza ouve com respeito na cena 3 do Ato I. Ao mesmo tempo, a hostilidade era corrente: em 1601, a própria rainha ordenou que negros e mouros fossem expulsos do reino. É esse o ambiente que as palavras de Iago e de Rodrigo supõem quando, na cena 1 do Ato I, gritam sob a janela de Brabâncio que há ladrões na casa, e Iago acrescenta que um carneiro preto está cobrindo a ovelha branca dele.
Veneza e a guerra de Chipre
Para os ingleses, Veneza era a república bem ordenada por excelência: um tratado sobre o seu governo, escrito pelo cardeal Gasparo Contarini, circulava em inglês desde 1599. A cidade de leis e de Senado, onde Otelo é ouvido e absolvido na mesma cena 3 do Ato I, é essa Veneza ideal. Ela também costumava contratar comandantes estrangeiros para as suas guerras, e é por isso que o Senado precisa de um forasteiro como Otelo e o manda a Chipre naquela mesma noite, depois de ouvir a acusação de Brabâncio.
Chipre, por sua vez, já pertencia aos turcos havia mais de trinta anos quando a peça foi escrita: a ilha foi tomada entre 1570 e 1571, e a vitória naval de Lepanto, em 1571, não a devolveu a Veneza. A tempestade que afunda a frota turca na cena 1 do Ato II é, portanto, uma escolha da peça, e não o desfecho da história.
O medo da feitiçaria
Brabâncio acusa Otelo de ter conquistado a filha com filtros e encantos na cena 3 do Ato I, e a plateia inglesa ouvia isso num tempo em que a bruxaria era assunto de Estado. Jaime I escrevera em 1597 um tratado sobre bruxas e demônios, a Daemonologie, e a lei de 1604 passou a punir com a morte quem tivesse trato com espíritos malignos. Por isso a acusação do velho senador tinha um peso que hoje se perde, e a resposta do Duque, de que afirmar não é provar, soa como a exigência de prova que um crime tão grave pedia.
Do palco ao livro
Nos palcos públicos ingleses da época, as mulheres não atuavam: Desdêmona, Emília e Bianca eram feitas por rapazes, e só a partir de 1660 atrizes passaram a ocupar esses papéis. A cena do quarto, na cena 2 do Ato V, foi escrita para um jovem ator deitado na cama, e não para uma atriz. A peça só foi impressa em 1622, seis anos depois da morte de Shakespeare, num pequeno volume avulso, e de novo em 1623, no Primeiro Fólio, que a traz mais longa e com trechos que faltam à primeira edição. A canção do salgueiro que Desdêmona canta na cena 3 do Ato IV, por exemplo, só consta do Fólio.