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Purgatório

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

A viagem continua em 1300

A ação segue datada na Semana Santa de 1300, ano do Jubileu de Bonifácio VIII, e tudo o que acontece depois de 1300 aparece no poema como profecia na boca dos mortos. No Purgatório isso alcança o exílio do próprio Dante: Oderisi diz, em fala obscura, que os vizinhos de Dante vão fazê-lo passar por uma humilhação como a de Provenzano, e a leitura corrente a toma pelo exílio (canto XI); Currado Malaspina diz que o elogio que Dante fez à casa dele será confirmado por fatos, e a tradição lê aí a hospitalidade dos Malaspina ao poeta exilado, em 1306 (canto VIII); Forese vê quem mais tem culpa pela ruína da cidade arrastado à cauda de uma besta, e a tradição identifica nele o irmão, Corso Donati, chefe dos negros (canto XXIV); Bonagiunta murmura o nome de uma mulher que fará Dante gostar de Lucca (canto XXIV); e Hugo Capeto fala, como futuro, do ultraje do rei da França ao papa em Anagni (canto XX).

Florença, a Itália e os dois poderes

Dante era guelfo branco numa Florença dividida entre guelfos e gibelinos e, dentro dos guelfos, entre brancos e negros; em 1301 os negros tomaram a cidade com Carlos de Valois e baniram os brancos, e ele morreu no exílio, em Ravena. Acreditava que o bem-estar do mundo dependia de Igreja e Estado em harmonia, cada um cuidando da sua esfera, sob um imperador universal. A cântica faz dessa convicção argumento em três lugares: a invectiva contra a Itália, serva e sem cavaleiro, que o abraço de Sordello dispara no canto VI; a Roma de Marco Lombardo, que tinha dois sóis, um para o caminho do mundo e outro para o de Deus, até a espada se juntar ao báculo (canto XVI); e os príncipes do vale, julgados um a um pelo que deixaram de fazer (canto VII).

A política não é digressão. É o modo de a cântica perguntar de quem é a culpa do mundo perdido, e Marco Lombardo responde pondo a culpa no mau governo e, no mesmo fôlego, afirmando que o homem é livre. Quem lê hoje se cansa dessa paixão, e é ela também que impede o poema de ser só panfleto de época: Dante dá voz aos próprios sentimentos, e não só à tese.

Como a montanha está montada

A montanha se ergue numa ilha do hemisfério oposto ao de Jerusalém, e o Inferno sugere que a terra dela é a que subiu para fugir de Lúcifer quando ele caiu. Jerusalém e a montanha têm um só horizonte e hemisférios diversos, e por isso o sol percorre o céu de um lado aqui e do outro lá (canto IV). A ordem do que se purga é a que Virgílio explica no canto XVII, e a arquitetura é esta:

O Inferno põe os pecados do desejo perto da entrada; aqui a luxúria é a última cornija, a mais próxima do cume, e a soberba é a primeira. O poema não diz por que abre pela soberba e fecha pela luxúria: a doutrina do canto XVII explica o agrupamento em três, e não a ordem.

Quem guia, e até onde

Virgílio guia do canto I do Inferno ao XXX do Purgatório, e é a razão natural: leva até onde a inteligência humana chega sozinha. O poema marca os limites pela pergunta que ele não responde e entrega a outro. Ele mesmo diz, no canto XVIII, que responde quanto a razão vê e que dali em diante é obra de fé e de Beatriz; a geração da alma, no canto XXV, quem explica é Estácio; e as águas e as plantas do Éden, Matelda (canto XXVIII). Beatriz é a revelação, uma mulher concreta que Dante amou, e quem a substitui no fim do Paraíso é São Bernardo.

Quem responde a cada pergunta importa na Comédia: o poema usa a troca de voz para dizer onde a filosofia termina e onde começa a teologia.

Um reino quase sem imagens

O Purgatório tem muito menos tradição visual do que o Inferno: há séculos de pintura, escultura e ilustração de manuscrito para o Inferno medieval, e quase nada equivalente para a montanha. A referência visual cai ainda mais no Paraíso. Dante também explica em poucas linhas o funcionamento inteiro do lugar, o critério do arrependimento e a proporção de tempo no Antepurgatório, uma economia que em prosa pediria um romance inteiro.

O Inferno tem imagens; o Paraíso tem doutrina; o Purgatório tem processo, e processo não rende ilustração. É a cântica menos lembrada e a única que descreve a experiência de quem está tentando mudar e ainda não conseguiu, com recaída, pressa, espera e progresso lento. Para o leitor comum é a que fala da vida dele.

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