Cantos I a IV: A praia e o Antepurgatório
e cantarei aquele segundo reino onde o espírito humano se purga e se torna digno de subir ao céu.
Explicação e análise
A cântica abre trocando de mar. Dante deixou para trás o Inferno, que chama de mar tão cruel, e passa a navegar águas melhores, e logo diz o que vai cantar. A frase vem antes de qualquer personagem, antes da praia, do velho guardião e da montanha: é a definição do lugar, dada de uma vez, em poucos versos, a quem acabou de chegar de um reino em que o castigo era o assunto.
O verso não define o Purgatório por um lugar nem por uma pena em si. Define-o por duas ações do espírito: purgar-se e tornar-se digno de subir. A segunda ação pesa tanto quanto a primeira, porque diz que a purgação tem um fim e que o fim é uma subida. No Inferno as almas são o que fizeram; aqui estão deixando de sê-lo, e é por isso que, nesta cântica, se canta. A mudança vem antes da subida e é a condição dela.
O verso deixa também uma pergunta que a montanha vai responder: quanto tempo leva essa mudança? O poeta não diz aqui. Os cantos seguintes a medem na espera das almas, em tempos que se contam em múltiplos da vida vivida, e mostram que purgar é um trabalho da vontade, que o resto da cântica verá se endireitar. Em poucas palavras, o verso enuncia a tese que o poema leva trinta e três cantos para demonstrar.
mas se uma dama do céu te move e te rege, como dizes, não são precisas lisonjas: basta que em nome dela me peças.
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 42 citações de Purgatório está na assinatura.
ai, sombras vãs, exceto no aspecto! três vezes prendi as mãos atrás dela, e outras tantas as trouxe de volta ao peito.
Explicação e análise
horríveis foram os meus pecados; mas a bondade infinita tem braços tão grandes que toma tudo o que se volta para ela.
Explicação e análise
esta montanha é tal que sempre, ao começar por baixo, é penosa; e quanto mais se sobe, menos mal faz. Por isso, quando ela te parecer tão suave que subir te seja leve como, a favor da corrente, descer de barco.
Explicação e análise
primeiro convém que o céu me gire fora dela tanto quanto fez em vida, porque adiei até o fim os bons suspiros, se oração antes não me ajudar, que suba de um coração que viva em graça; a outra, que vale, se no céu não é ouvida?
Explicação e análise
Cantos V a VIII: Os que se arrependeram tarde
nós fomos todos mortos à força, e pecadores até a última hora; ali uma luz do céu nos fez cair em si, de modo que, arrependidos e perdoando, saímos da vida pacificados com Deus, que nos aflige com o desejo de vê-lo.
Explicação e análise
meu corpo gelado, na foz, encontrou o Archiano impetuoso; e este o empurrou para o Arno, e soltou no meu peito a cruz que fiz de mim quando a dor me venceu.
Explicação e análise
Mântua..., e a sombra, toda recolhida em si, ergueu-se em direção a ele do lugar onde antes estava, dizendo: ó mantuano, eu sou Sordello da tua terra! e um ao outro abraçava.
Explicação e análise
de que vale que Justiniano te consertasse o freio, se a sela está vazia? sem ele a vergonha seria menor.
Explicação e análise
não por fazer, mas por não fazer perdi o poder ver o alto Sol que tu desejas e que por mim foi conhecido tarde.
Explicação e análise
aguça aqui, leitor, bem os olhos para o verdadeiro, pois o véu agora é de fato tão fino que atravessá-lo é certamente fácil.
Explicação e análise
Cantos IX a XII: A porta e a soberba
tenho-as de Pedro; e ele me disse que eu erre antes em abrir do que em manter fechada, contanto que a gente se prostre a meus pés. Depois empurrou a folha da porta sagrada, dizendo: entrai; mas aviso-vos de que volta para fora quem olha para trás.
Explicação e análise
e ela: o bem dos outros, para ti, que será, se esqueceres o teu?; ao que ele: agora te conforta, que convém que eu cumpra o meu dever antes de partir: a justiça o quer e a piedade me retém.
Explicação e análise
ó cristãos soberbos, míseros cansados, que, enfermos da vista da mente, confiais nos passos para trás, não vos dais conta de que somos vermes nascidos para formar a borboleta angélica, que voa à justiça sem anteparos?
Explicação e análise
ó vã glória das capacidades humanas! como dura pouco o verde no topo, se não é seguida por idades grosseiras! Cimabue julgou ter o campo na pintura, e agora Giotto tem o grito, de modo que a fama daquele está escura.
Explicação e análise
agora ensoberbecei-vos, e ide de rosto altivo, filhos de Eva, e não abaixeis o rosto para que não vejais o vosso mau caminho!
Explicação e análise
e com os dedos da destra abertos achei apenas seis das letras que gravou aquele das chaves sobre as minhas têmporas; ao ver isso, o meu guia sorriu.
Explicação e análise
Cantos XIII a XVI: Inveja e ira
porque a todos um fio de ferro fura as pálpebras e as costura, como se faz ao gavião selvagem porque não fica quieto. Parecia-me, ao andar, fazer ultraje, vendo os outros sem ser visto: por isso me voltei para o meu sábio conselheiro.
Explicação e análise
o meu sangue foi tão ardido de inveja que, se eu tivesse visto um homem alegrar-se, tu me terias visto cheio de lividez. Da minha semente colho tal palha; ó gente humana, por que pões o coração onde é preciso vedar a companhia?
Explicação e análise
aquele bem infinito e inefável que está lá em cima corre ao amor assim como o raio vem a um corpo luzente. Dá-se tanto quanto encontra de ardor; de modo que, por mais que a caridade se estenda, cresce sobre ela o valor eterno.
Explicação e análise
e eu o via inclinar-se para a terra pela morte que já o pesava, mas dos olhos fazia sempre portas para o céu, rogando ao alto Senhor, em tanta guerra, que perdoasse a seus perseguidores, com aquele aspecto que abre a piedade.
Explicação e análise
o céu inicia os vossos movimentos; não digo todos, mas, supondo que o dissesse, é-vos dada luz para o bem e para o mal, e livre querer; o qual, se sofre fadiga nas primeiras batalhas com o céu, depois vence tudo, se bem se nutre.
Explicação e análise
Roma, que fez o bom mundo, costumava ter dois sóis, que faziam ver um e outro caminho, o do mundo e o de Deus. Um apagou o outro; e a espada se juntou ao báculo, e um com o outro, juntos, por força viva forçosamente vão mal.
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Cantos XVII a XXI: O amor, a acídia e a avareza
o natural é sempre sem erro, mas o outro pode errar, por mau objeto ou por demasiado ou por pouco vigor.
Explicação e análise
porque, se o amor nos é oferecido de fora, e a alma não anda com outro pé, andando ela direita ou torta não é mérito seu.
Explicação e análise
quanto a razão aqui vê, posso dizer-te; dali em diante espera só por Beatriz, pois é obra de fé.
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um mês e pouco mais provei como pesa o grande manto a quem o guarda da lama, de modo que parecem plumas todas as outras cargas.
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maldita sejas tu, antiga loba, que mais que todas as outras feras tens presa, por tua fome sem fim e sem fundo!
Explicação e análise
e eu, que jazi nesta dor quinhentos anos e mais, só agora senti livre vontade de melhor soleira: por isso sentiste o terremoto e os espíritos pios pelo monte render louvor àquele Senhor, que logo os envie para cima.
Explicação e análise
da Eneida digo, que foi mãe para mim e foi ama, poetando: sem ela eu não teria fixado peso de dracma. E por ter vivido lá quando viveu Virgílio, consentiria mais um sol do que devo à minha saída do exílio.
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Cantos XXII a XXV: Gula e a geração da alma
fizeste como quem vai de noite, que leva o lume atrás e a si não aproveita, mas depois de si faz doutas as pessoas, quando disseste: o século se renova; torna a justiça e o primeiro tempo humano, e uma nova progênie desce do céu.
Explicação e análise
pareciam as órbitas anéis sem gemas; quem no rosto dos homens lê omo bem teria ali reconhecido o eme.
Explicação e análise
e não só uma vez, girando este espaço, se refresca nossa pena: digo pena e devia dizer consolo, porque aquela vontade às árvores nos leva que levou Cristo alegre a dizer Eli, quando nos libertou com o seu sangue.
Explicação e análise
tão cedo me conduziu a beber o doce absinto dos martírios a minha Nella com seu pranto desfeito. Com suas preces devotas e seus suspiros me tirou da encosta onde se espera, e me libertou dos outros giros.
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Cantos XXVI a XXIX: O fogo e o Éden
foi melhor artífice da língua materna. Em versos de amor e prosas de romance superou todos; e deixa dizer os tolos que acreditam que o de Limoges o supera.
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vê agora, filho: entre Beatriz e ti está este muro.
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não esperes mais minha palavra nem meu aceno; livre, reto e são é o teu arbítrio, e seria erro não agir segundo o seu querer: por isso eu te coroo e mitro sobre ti mesmo.
Explicação e análise
deste lado desce com a virtude de tirar de alguém a memória do pecado; do outro, devolve a de todo bem feito. Daqui, Lete; assim, do outro lado, chama-se Eunoé, e não opera se antes não for provado de um lado e do outro.
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Cantos XXX a XXXIII: Beatriz
mas Virgílio nos tinha deixado privados de si, Virgílio doce pai, Virgílio a quem me dei para minha salvação.
Explicação e análise
o gelo que me estava apertado em volta do coração tornou-se espírito e água, e com angústia saiu do peito pela boca e pelos olhos.
Explicação e análise
as coisas presentes, com o seu falso prazer, voltaram meus passos, assim que o vosso rosto se escondeu.
Explicação e análise
aqui serás pouco tempo silvano, e serás comigo sem fim cidadão daquela Roma de que Cristo é romano. Por isso, em proveito do mundo que vive mal, mantém agora os olhos no carro, e o que vires, de volta lá, faz que escrevas.
Explicação e análise
e se não podes te lembrar, respondeu sorrindo, lembra agora como hoje bebeste do Lete; e se da fumaça se infere o fogo, esse esquecimento conclui claramente culpa na tua vontade atenta a outra parte.