Resumo dos cantos
A subida termina em três mudanças de tom. A primeira é o fogo: na cornija da luxúria, as almas andam entre as chamas, cruzam-se em dois bandos que se beijam depressa e gritam, cada um, o exemplo do próprio erro, e é ali que Dante encontra os poetas do amor, Guinizelli, que ele chama de pai, e Arnaut, que lhe responde em provençal. A segunda é a despedida: Virgílio, que o conduziu desde a selva, só consegue fazê-lo entrar no muro de fogo pelo nome de Beatriz, acompanha-o até o último degrau e declara que dali em diante a vontade de Dante é guia suficiente. A terceira é a passagem para o jardim: no Paraíso Terrestre, uma mulher que canta colhendo flores explica os ventos, as plantas e as duas águas do lugar, e um desfile de figuras simbólicas, anunciado por um clarão e por uma melodia, chega à margem do rio e se detém. A pergunta que atravessa os quatro cantos é o que significa estar livre para se guiar: Virgílio o proclama no fim do canto XXVII, e o resto da parte mostra o lugar para onde essa liberdade leva.
Canto XXVI: Luxuriosos, Guinizelli e Arnaut
Resumo do canto
Virgílio e Dante andam em fila pela borda da cornija, entre o precipício e o fogo, e o mestre vai avisando: guarda-te, que eu te previno. O sol, já baixo, fere o ombro direito de Dante e faz o poente passar do azul ao branco, e a sombra do corpo vivo deixa mais rubra a chama, sinal que basta para muitas almas repararem. Elas comentam que aquele não parece corpo fictício, e algumas chegam perto o quanto podem, sempre atentas a não sair do trecho onde ardem. Uma delas, que o interpela como a quem vem depois dos outros, não por lentidão, mas talvez por respeito, pede resposta, pois arde em sede e em fogo; todas as outras têm mais sede de ouvi-lo do que um indiano ou um etíope de água fria. Quer saber como ele faz de si parede ao sol, como se ainda não tivesse entrado na rede da morte.
Dante ia responder, mas é desviado por outra novidade: pelo meio do caminho aceso vem uma gente de rosto voltado para a primeira, e as sombras de um bando e de outro correm a se beijar, uma a uma, sem parar, contentes com uma festa breve, como as formigas que se focinham em fila escura, talvez para saber caminho e sorte. Ao se separarem, antes de dar o primeiro passo, cada bando se esforça por gritar mais que o outro: os que chegam gritam Sodoma e Gomorra, e os outros, que Pasífae entra na vaca para que o touro corra à sua luxúria. Depois, como grous que voassem parte para os montes Rifeus, parte para as areias, estes fugindo do gelo, aqueles do sol, uma gente vai e a outra vem, e todos voltam, chorando, aos primeiros cantos e ao grito que mais lhes cabe. Os que tinham perguntado se achegam de novo, atentos a ouvir.
Análise
Dante responde: o corpo dele não ficou lá nem verde nem maduro, está aqui com sangue e juntas; sobe para deixar de ser cego, porque no alto uma dama lhe obtém graça, e por isso leva o mortal através do mundo deles. Pede que o maior desejo deles se sacie logo, e que o céu cheio de amor os abrigue, e que lhe digam quem são e quem é a turba que vai de costas, para que ele ainda o escreva em papel. As sombras se perturbam como o montanhês rústico que entra na cidade e emudece, mas o espanto, nos corações altos, passa depressa. A que o interpelou primeiro diz que ele é feliz por embarcar experiência de suas terras para morrer melhor, e explica: os que se afastam gritando Sodoma ofenderam em tal coisa que César, ao triunfar, ouviu chamarem de Rainha contra si, e ajudam a queimadura com a vergonha. Quanto a eles:
Nostro peccato fu ermafrodito; / ma perché non servammo umana legge, / seguendo come bestie l’appetito
, nosso pecado foi hermafrodita; mas porque não observamos a lei humana, seguindo o apetite como bestas.
Assinatura
A análise completa de cada bloco de cantos de Purgatório está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.
Canto XXVII: O muro de fogo e a despedida de Virgílio
Resumo do canto
O poeta marca a hora por quatro lugares: o sol está como quando lança os primeiros raios em Jerusalém, onde seu criador derramou o sangue, enquanto o Ebro cai sob a Libra e as ondas do Ganges ardem ao meio-dia. Na montanha, o dia vai embora quando o anjo de Deus lhes aparece, alegre, fora da chama, na margem, cantando Beati mundo corde com voz muito mais viva que a humana. Diz então que já não se segue adiante se o fogo antes não morde, e manda as almas santas entrarem nele e não ficarem surdas ao canto do outro lado. Dante, ao ouvi-lo, fica como quem é posto na cova: inclina-se sobre as mãos cruzadas, olha o fogo e imagina com força corpos humanos já vistos queimar.
Análise
Canto XXVIII: Matelda e as águas do Éden
Resumo do canto
Ansioso por explorar dentro e em volta a floresta divina, espessa e viva, que temperava aos olhos o dia novo, Dante deixa a margem sem esperar e toma a campina devagar, por um solo que cheira em todos os lados. Uma aura doce, sempre igual, o fere na testa não mais que um vento suave, e as folhas, tremendo, se dobram todas para onde o monte lança a primeira sombra; mas não tanto que os passarinhos nas copas deixem de exercer a sua arte, antes recebem as primeiras horas cantando entre as folhas, que lhes fazem o baixo, como no pinhal de Chiassi, na praia, quando Éolo solta o siroco. Os passos lentos já o levaram tão longe na floresta antiga que ele não vê mais por onde entrou.
Análise
Canto XXIX: A procissão
Resumo do canto
A mulher da outra margem canta como enamorada e continua com o fim de suas palavras: Beati quorum tecta sunt peccata. Como ninfas que andavam sozinhas pelas sombras selvagens, uma desejando ver o sol, outra fugir dele, ela se move contra a corrente, subindo pela margem, e Dante a segue, pequeno passo com pequeno passo. Não havia cem passos entre os dois quando as margens fazem uma curva igual, e ele se vê voltado para o oriente. Mal andaram mais, e a dama se volta toda para ele e diz: meu irmão, olha e escuta. Um clarão súbito corre por toda a grande floresta, a ponto de lhe fazer duvidar de um relâmpago; mas relâmpago cessa ao vir, e este, durando, brilha mais e mais, e Dante pensa: que coisa é esta? Uma melodia doce corre pelo ar luminoso, e o bom zelo lhe faz repreender a ousadia de Eva:
Análise
Leitura do bloco de cantos
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