Dante, o peregrino e Virgílio saem do Inferno ao amanhecer da Semana Santa de 1300 e chegam à praia de uma ilha, ao pé de uma montanha que sobem por sete cornijas, onde as almas purgam o amor mal dirigido, até o Paraíso Terrestre. Dante conta a subida em primeira pessoa, e o tempo importa: de noite não se sobe, as almas têm pressa e a montanha pesa no começo e alivia a cada passo. Virgílio guia até onde a razão alcança; no cume, quem recebe Dante é Beatriz.
Cantos I a IV: a praia e o Antepurgatório
Na praia, um velho guardião, que a tradição toma por Catão, pergunta quem fugiu da prisão eterna. Virgílio diz que uma dama do céu o mandou e que Dante busca liberdade; o velho recusa o pedido em nome de Márcia, sua esposa, cede ao nome da dama e manda cingir Dante com um junco e lavar-lhe o rosto (canto I). Chega um barco guiado por um anjo, com almas que cantam o salmo da saída do Egito. Dante tenta abraçar o amigo Casella, fecha as mãos no ar três vezes e lhe pede a canção que lhe acalmava as dores; todos esquecem o caminho, até Catão gritar que corram ao monte despir o que lhes impede de ver a Deus (canto II). Ao pé da rocha, Manfredi, neto da imperatriz Constança, conta que se rendeu chorando, ferido, àquele que perdoa de bom grado, e que a espera de quem morre excomungado é trinta vezes o tempo da presunção (canto III). Os poetas sobem pela fenda da rocha, e Dante reconhece Belacqua, sentado, abraçado aos joelhos, que diz que o céu precisa girar tanto quanto durou a sua demora em vida (canto IV).
Cantos V a VIII: os que se arrependeram tarde
As almas dos mortos à força, que se arrependeram e perdoaram no último instante, pedem a Dante que as lembre aos vivos. Um pede preces em Fano; Bonconte conta como um anjo e um demônio disputaram a sua alma e como o demônio, sem poder sobre ela, moveu a chuva que levou o corpo ao Arno; a Pia pede só que se lembrem dela (canto V). Dante pergunta a Virgílio se a oração dobra o decreto do céu e ouve que o fogo do amor cumpre num instante o que a satisfação pedia; uma alma lombarda se levanta ao nome de Mântua e se apresenta como Sordello, e o abraço dos dois patrícios dispara a invectiva contra a Itália, a Igreja, o imperador Alberto e Florença (canto VI). Sordello saúda Virgílio como glória dos latinos, traça no chão a linha que a noite impede de cruzar e leva os poetas ao vale florido onde esperam os príncipes negligentes (canto VII). Ao anoitecer, dois anjos de espadas sem ponta descem a guardar o vale, Dante encontra o juiz Nino, que pede a oração da filha, e a serpente foge ao ouvir as asas; Currado Malaspina profetiza que o elogio de Dante à casa dele será pregado na cabeça por fatos (canto VIII).
Cantos IX a XII: a porta e a soberba
Dante dorme no vale e Luzia o leva nos braços até a porta, como Virgílio conta ao acordá-lo. Um anjo de espada nua grava sete P na testa de Dante, abre com as chaves de Pedro e avisa que volta para fora quem olhar para trás (canto IX). Na primeira cornija, a parede de mármore traz esculpidos a Anunciação, Davi diante da arca e Trajano atendendo uma viúva, e os soberbos aparecem curvados sob pedras (canto X). Eles rezam um Pai-Nosso, e dois falam: Omberto, que a nobreza do sangue fez desprezar todos os homens, e o miniaturista Oderisi, que dá a glória ao rival Franco e conta que Provenzano Salvani escapou da espera humilhando-se na praça de Siena para resgatar um amigo (canto XI). No chão estão figuradas quedas de soberba, de Lúcifer a Troia em cinzas; um anjo apaga um P, e Dante descobre com os dedos que lhe restam seis (canto XII).
Cantos XIII a XVI: inveja e ira
Na segunda cornija, os invejosos têm as pálpebras costuradas com fio de ferro e se apoiam na rocha, e vozes que passam ensinam o amor aos inimigos. Sapia, de Siena, conta que se alegrou mais com a derrota dos seus em Colle do que com a própria ventura e gritou a Deus que já não o temia (canto XIII). Guido del Duca, a quem bastava ver um homem alegre para ficar lívido, faz do vale do Arno e da Romanha um inventário de vícios (canto XIV). Virgílio explica que o bem divino cresce ao ser repartido, como o raio vem a um corpo luzente, e Dante tem três visões de mansidão: a mãe que repreende o filho, o senhor que recusa vingar a filha e o jovem que ora pelos que o apedrejam (canto XV). Na fumaça da terceira cornija, Marco Lombardo diz que o céu inicia os movimentos mas não todos, que ao homem são dados luz e livre querer e que o mundo vai mal por mau governo: Roma tinha dois sóis, e a espada se juntou ao báculo (canto XVI).
Cantos XVII a XXI: o amor, a acídia e a avareza
Parados na escada, Virgílio responde à pergunta sobre a ofensa daquele giro com a doutrina do amor: nem criador nem criatura jamais foi sem amor, o natural não erra e o de ânimo pode errar por mau objeto, pouco ou demasiado vigor (canto XVII). Dante objeta que, se o amor vem de fora, não há mérito; Virgílio responde com o poder de reter o amor e entrega o resto a Beatriz, e na noite passa uma turba de acídicos correndo e gritando exemplos de zelo (canto XVIII). Dante sonha com uma mulher feia que o olhar dele transforma em sereia, até Virgílio desfazê-la; no quinto giro, os avarentos jazem de bruços, entre eles um papa (a tradição lê Adriano V) que só quis outra vida ao sentir o peso do manto (canto XIX). Hugo Capeto se diz raiz da planta má que ensombra a cristandade e acusa os próprios descendentes; ao fim, a montanha treme (canto XX). Estácio explica que o monte treme quando uma alma se sente limpa e quer subir, conta que depois de quinhentos anos sentiu a vontade livre e diz que a Eneida foi mãe e ama da sua poesia; Dante revela quem é o seu guia (canto XXI).
Cantos XXII a XXV: a gula e a geração da alma
Estácio conta a Virgílio que foi pródigo e não avaro, que um verso dele o corrigiu e que a quarta écloga o fez cristão, batizado mas calado por medo durante muito tempo (canto XXII). Almas magras de fome passam cantando, e Dante só reconhece Forese Donati pela voz; este conta que a pena é consolo e que o pranto da viúva Nella o tirou da encosta da espera (canto XXIII). Bonagiunta, de Lucca, pergunta se Dante é o autor de «Donne ch'avete intelletto d'amore» e reconhece, na resposta, o nó que o prendia, o doce estilo novo; Forese profetiza a ruína de quem mais tem culpa na cidade (canto XXIV). Dante pergunta como se emagrece onde não se come, e Estácio explica a geração da alma, o sopro do primeiro motor e o corpo de ar da sombra; no sétimo giro as almas andam no fogo cantando um hino e gritando exemplos de castidade (canto XXV).
Cantos XXVI a XXIX: o fogo e o Éden
Na cornija da luxúria, dois bandos de sombras se cruzam no fogo, beijam-se depressa e gritam, cada um, o exemplo do próprio erro. Uma sombra se apresenta como Guido Guinizelli; Dante, que o chama de pai, fica muito tempo a olhá-lo sem se aproximar por causa do fogo; Guinizelli aponta Arnaut Daniel como melhor artífice da língua materna, e Arnaut responde em provençal que chora e vai cantando (canto XXVI). Dante fica imóvel diante do muro de fogo até Virgílio dizer que entre ele e Beatriz está aquele muro; de manhã, no último degrau, Virgílio diz que o arbítrio de Dante é livre, reto e são e o coroa e mitra sobre si mesmo (canto XXVII). No Paraíso Terrestre, uma mulher que canta colhendo flores explica que o lugar foi dado ao homem como penhor da paz eterna e que o rio tem duas águas, o Lete, que tira a memória do pecado, e o Eunoé, que devolve a do bem (canto XXVIII). Uma luz percorre a floresta e traz sete candelabros, vinte e quatro anciãos, quatro animais e um carro puxado por um grifo, até um trovão deter o cortejo diante de Dante (canto XXIX).
Cantos XXX a XXXIII: Beatriz
Uma mulher aparece em nuvem de flores; Dante sente o amor antigo sem a reconhecer, vira-se para dizê-lo a Virgílio e não o encontra. Beatriz o chama pelo nome, a única vez no poema, diz que ele deve chorar por outra espada e o acusa: depois que ela morreu, ele seguiu imagens falsas de bem, tão fundo que só restava mostrar-lhe as gentes perdidas (canto XXX). Dante confessa que as coisas presentes o desviaram quando o rosto dela se escondeu; Matelda o mergulha no Lete, e as damas o levam aos olhos de Beatriz, onde o grifo aparece ora de um modo, ora de outro (canto XXXI). Sentada à raiz da árvore, Beatriz lhe manda escrever o que vir do carro, que é atacado por uma águia, uma raposa e um dragão e acaba transformado em monstro, com uma prostituta e um gigante (canto XXXII). Beatriz profetiza, em número escuro, que um enviado de Deus matará a ladra e o gigante, usa o esquecimento do Lete como prova da culpa e entrega Dante a Matelda, que o leva ao Eunoé; ele volta renovado, puro e disposto a subir às estrelas (canto XXXIII).