Quando e para quem a peça foi escrita
Shakespeare escreveu Romeu e Julieta em meados da década de 1590, para a companhia de atores de que era sócio, os Homens do Lorde Camareiro, em Londres. A data exata não se conhece: as estimativas vão de 1591 a 1595. O público dos teatros era misto, de aprendizes e artesãos a gente rica, e as mulheres não subiam ao palco, de modo que o papel de Julieta era feito por um rapaz.
Os teatros londrinos fechavam quando a peste se espalhava, como aconteceu em 1592 e 1593, e o medo do contágio entra na peça: é uma casa trancada por suspeita de peste que impede Frei João de entregar a carta a Romeu (cena 2 do Ato V). Era também o tempo dos sonetos, e a peça o mostra: o Prólogo tem catorze versos, como um soneto, e o primeiro diálogo dos amantes, no baile, também se fecha como um (cena 5 do Ato I).
De onde veio a história
A história de dois jovens de famílias rivais que morrem por amor já era antiga na Itália. Masuccio Salernitano contou em 1476 a de Mariotto e Ganozza, passada em Siena. Luigi da Porto a situou em Verona, com as famílias Montecchi e Capuleti, numa novela escrita em 1524 e publicada em 1531, e Matteo Bandello a retomou em 1554. O francês Pierre Boaistuau traduziu Bandello em 1559, e dessa linha saíram o poema narrativo do inglês Arthur Brooke, de 1562, que Shakespeare seguiu de perto, e a versão em prosa de William Painter, de 1567. As duas casas já eram citadas antes de qualquer novela: Dante nomeia os Montecchi e os Cappelletti no Purgatório, entre as famílias que as lutas de facção arruinavam.
Shakespeare manteve o enredo e mudou o ritmo. O poema de Brooke cobre cerca de nove meses, e a peça cobre poucos dias, o que faz da pressa um dos assuntos dela: Frei Lourenço adverte Romeu de que tropeçam os que correm depressa (cena 3 do Ato II). Ele também deu corpo a personagens secundários, em especial Mercúcio, Páris e a Ama, que na rua tem de aguentar as zombarias de Mercúcio (cena 4 do Ato II).
A Verona do palco e o mundo do público
A cidade é italiana, mas a plateia era inglesa, e várias cenas conversam com o que ela conhecia. O nome do Príncipe Escalo lembra os Della Scala, a família que governou Verona do século XIII ao XIV. A violência de rua, com espadas sacadas por uma palavra, combina com a moda do duelo à italiana, a esgrima de rapieira, então em voga em Londres: Mercúcio zomba de Teobaldo por lutar como quem segue um manual, com golpes de nome italiano (cena 4 do Ato II). O banimento que o Príncipe impõe a Romeu era pena comum nas cidades italianas da Idade Média: Dante foi condenado ao exílio por Florença em 1302 (cena 1 do Ato III).
Também a religião da peça era distante do público. Frei Lourenço é um franciscano que ouve confissões e casa os amantes em segredo (cena 3 do Ato II), mas a Inglaterra rompera com Roma, e Henrique VIII fechara os conventos nas décadas de 1530 e 1540. E o casamento de Julieta, quase com catorze anos, contrasta com o costume inglês, em que as moças casavam em média por volta dos vinte e cinco (cena 3 do Ato I).
Publicação e recepção
A peça foi impressa pela primeira vez em 1597, num texto curto e de qualidade instável, e de novo em 1599, numa edição maior, anunciada como corrigida e ampliada. No século XVIII, adaptações dos teatros ingleses, a mais célebre a de David Garrick, de 1748, fizeram Julieta acordar antes de Romeu morrer, para que os dois ainda se falassem. No texto original, ela só acorda depois que ele bebe o veneno (cena 3 do Ato V), e a única consolação é a paz entre as casas.