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Júlio César

Contexto

A época em que a obra foi escrita, de onde veio a história e o que isso muda na leitura.

Quando e para quem a peça foi escrita

William Shakespeare escreveu Júlio César em 1599, para a companhia de atores de que era sócio, os Homens do Lorde Camareiro, que tinham acabado de inaugurar o teatro do Globo, na margem sul do Tâmisa, em Londres. Um viajante suíço, Thomas Platter, anotou no diário que viu uma tragédia de Júlio César num teatro de Londres em 21 de setembro daquele ano, o registro mais antigo da peça em cena. A plateia era mista, com aprendizes e comerciantes de pé diante do palco e gente mais rica nas galerias. A peça fala a todos: na cena 1 do Ato I, os tribunos repreendem artesãos que hoje jogam flores no caminho de César e antes aclamavam Pompeu, o general que ele derrotou, uma multidão que troca de herói de um dia para o outro. Shakespeare também mistura sem cerimônia a Roma antiga com a Londres dele: na cena 1 do Ato II, um relógio bate três horas, e relógios mecânicos não existiam em Roma.

A Inglaterra e o medo da tirania

A rainha Elizabeth I reinava desde 1558, estava velha, não tinha filhos e não apontava herdeiro; morreu em 1603. Em 1570, o papa tinha declarado a rainha excomungada e deposta, e alguns católicos conspiraram contra a vida dela. A Igreja da Inglaterra, por sua vez, mandava ler nas paróquias uma homilia contra a rebelião, que ensinava os súditos a obedecer mesmo a um mau governante. Por isso a pergunta central da peça, se é legítimo matar quem ainda não é tirano mas pode vir a ser, era perigosa e atual. É a pergunta do monólogo de Bruto na cena 1 do Ato II, em que ele chama César de ovo de serpente que é preciso matar na casca. A peça não responde com um sermão: mostra o assassinato, a guerra civil que ele provoca e a morte dos conspiradores, e deixa o público julgar.

De onde veio a história

Shakespeare tirou os fatos das Vidas de Plutarco, que leu em inglês, na versão de Thomas North publicada em 1579 a partir de uma versão francesa. Os acontecimentos reais se espalham por dois anos: César foi morto em 15 de março de 44 a.C., o Segundo Triunvirato de Antônio, Otávio e Lépido se formou no fim de 43 a.C., e Cícero morreu nas proscrições desse ano. A peça junta tudo em poucas cenas: na cena 1 do Ato IV, os três já traçam a lista de condenados numa só conversa. A batalha de Filipos, em 42 a.C., foi na verdade dois combates com cerca de três semanas de distância, e a peça os funde num único dia, no Ato V.

Há também um ajuste de lugar. O Senado daquele dia se reunia num salão ligado ao teatro de Pompeu, e não no monte do Capitólio. A peça mantém a estátua de Pompeu, aos pés da qual César cai, mas passa a cena para o Capitólio, o centro simbólico de Roma, na cena 1 do Ato III. O enredo ganha a imagem de um crime no coração da cidade.

Como a peça foi publicada e recebida

Júlio César só foi impresso em 1623, no Primeiro Fólio, o volume com as peças reunidas que dois colegas de Shakespeare publicaram sete anos depois da morte dele. Não existe edição anterior em pequeno formato, e por isso o texto que se lê hoje vem dessa única fonte antiga, sem as variantes que dividem os editores de Hamlet. A peça é uma das tragédias mais curtas do autor.

O veredito sobre Bruto já vinha de longe e tinha sido oposto. Por volta de 1310, Dante colocou Bruto e Cássio no fundo do Inferno, nas bocas de Lúcifer, ao lado de Judas, como traidores do benfeitor. Shakespeare, quase trezentos anos depois, faz Antônio dizer sobre o corpo de Bruto, na cena 5 do Ato V, que ele foi o mais nobre dos romanos. A peça mostra os dois lados e não resolve a tensão: o homem que age por um ideal destrói aquilo que queria salvar.

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