Clavis Libri

Júlio César · Ato II

A conspiração e a manhã dos Idos

Cena I: O pomar de Bruto

Resumo da seção

Na madrugada, Bruto, insone, conclui que César deve morrer pelo que poderá vir a ser. Lúcio lhe entrega uma carta anônima que o chama a agir. Cássio chega com os conspiradores encapuzados, e Bruto recusa o juramento, exclui Cícero e impede que Antônio seja morto. Combinam que Décio levará César ao Capitólio. Pórcia exige saber o segredo do marido e invoca uma ferida que se fez na coxa como prova de firmeza. Bruto promete contar e recruta Ligário.

Análise

And therefore think him as a serpent’s egg / Which hatch’d, would, as his kind grow mischievous; / And kill him in the shell, e portanto pense nele como num ovo de serpente que, chocado, se tornaria nocivo, como é da sua espécie; e mate-o na casca (II.1)

Para discutir Bruto diz não ter motivo pessoal contra César e justifica a morte pelo que ele poderia se tornar. O que torna essa razão forte, e o que a torna frágil?

Cena II: Calpúrnia e a decisão de César

Resumo da seção

Calpúrnia, que gritou em sonho que matavam César, e os augúrios, que não acharam coração no animal sacrificado, tentam impedi-lo de sair. Júlio César resiste, chamando de covardia o medo, e cede só ao pedido de Calpúrnia. Décio chega, reinterpreta o sonho como bom augúrio e diz que o Senado vai lhe dar uma coroa naquele dia. César manda buscar o manto e acolhe os conspiradores, que vieram buscá-lo, enquanto Trebônio e Bruto comentam à parte o que esconde essa amizade.

Análise

Cowards die many times before their deaths; / The valiant never taste of death but once, os covardes morrem muitas vezes antes de morrer; o valente só prova a morte uma vez (II.2)

Para discutir Calpúrnia e Décio pedem a César coisas opostas. O que dá ao apelo de um mais força que ao do outro?

Cena III: A carta de Artemidoro

Resumo da seção

Em uma rua perto do Capitólio, Artemidoro lê uma carta que escreveu, em que nomeia os conspiradores e avisa César de que todos têm um único propósito contra ele. Decide esperar César passar e entregar a carta como se fosse um pedido comum, na esperança de que ele a leia e se salve.

Análise

security gives way to conspiracy, a segurança abre caminho à conspiração (II.3)

Cena IV: Pórcia espera notícias

Resumo da seção

Aflita, Pórcia manda Lúcio ao Senado ver como está Bruto, mas quase deixa escapar o motivo da sua angústia. Chega o Adivinho, que quer avisar César e teme ser esmagado pela multidão; Pórcia o interroga e ele se afasta para um lugar mais vazio. Sozinha, ela reza pelo êxito de Bruto, sente-se desfalecer e manda Lúcio de volta, com a ordem de trazer notícias.

Análise

I have a man’s mind, but a woman’s might, tenho a mente de um homem, mas a força de uma mulher (II.4)

Tema central

Análise

Bruto decide sozinho, antes que os conspiradores cheguem. Ele diz não conhecer causa pessoal contra César e admite que nunca viu as afeições de César pesarem mais que a razão. Por isso o argumento se constrói pelo futuro: como o caso não tem fundamento no que César é, deve-se moldá-lo, nas palavras dele, no que César poderia ser, e o poderoso que sobe a escada vira o alvo a ser contido antes de chegar ao topo.

O crime é decidido por uma imagem que Bruto mesmo escolhe.

Com os conspiradores, Bruto quer que o ato pareça limpo. Recusa o juramento, porque a honra de homens honrados dispensa promessa, quer que sejam sacrificadores e não açougueiros, poupa Antônio e pede que o rosto não revele o plano, como os atores romanos. O ato é pensado como sacrifício ritual, e quem o executa quer ser visto como purgador e não como assassino. Cássio avisa duas vezes sobre Antônio, e Bruto vence a discussão.

Pórcia e Calpúrnia aparecem em espelho. As duas ajoelham-se diante do marido e as duas pedem o mesmo, em nome de uma ligação conjugal: a segurança de um e o direito de saber do outro. Pórcia apoia o pedido na linhagem (é filha de Catão) e numa ferida na coxa que se infligiu, e Bruto promete contar. Calpúrnia apoia o seu num sonho, César cede e a lisonja de Décio desfaz tudo. Na cena IV, Pórcia confessa que a firmeza que mostrou diante de Bruto não aguenta o suspense.

Décio anuncia na cena I o método que usará na cena II: ele sabe que César, quando lhe dizem que odeia aduladores, concorda e fica ainda mais lisonjeado. Horas depois, ele muda o sentido do sonho, acrescenta a oferta da coroa e a ameaça do riso dos senadores, e o argumento que os avisos do céu não conseguiram sustentar cai por uma frase sobre medo. A fala de César, de que a morte vem quando vem, não resiste ao receio de parecer covarde.