A viagem continua em 1300
A ação segue datada na Semana Santa de 1300, ano do Jubileu de Bonifácio VIII, e tudo o que acontece depois de 1300 aparece no poema como profecia na boca dos mortos. No Paraíso isso alcança o exílio do próprio Dante, que o trisavô lhe anuncia em Marte (canto XVII). Cunizza prediz castigo à Marca Trevisana, e os comentadores veem aí fatos posteriores à data da viagem (canto IX). Beatriz reserva na rosa um trono vazio para o alto Arrigo, que a tradição lê como Henrique VII, o imperador que desceu à Itália, e fala de um prefeito do foro divino que a leitura corrente identifica com Clemente V (canto XXX). Pedro, ao denunciar os lobos em veste de pastor, fala de cauorsinos e gascões, que a leitura corrente liga a João XXII e a Clemente V (canto XXVII).
Florença, a Itália e os dois poderes
Dante era guelfo branco numa Florença dividida entre brancos e negros; em 1301 os negros tomaram a cidade com Carlos de Valois e baniram os brancos, e ele morreu no exílio, em Ravena. Acreditava que o bem-estar do mundo dependia de Igreja e Estado em harmonia, cada um na sua esfera, sob um imperador universal. A cântica faz dessa convicção argumento em vários lugares: Justiniano conta a história da águia romana para julgar quem se apropria do sinal e quem se opõe a ele (canto VI); Folquet culpa o florim e as Decretais por terem desviado o rebanho (canto IX); Cacciaguida chora a Florença antiga e a divisão das casas (canto XV, canto XVI); Pedro acusa o papado em pessoa (canto XXVII); e a rosa guarda um assento para o imperador que não chegou a endireitar a Itália (canto XXX).
A política não é intervalo entre as lições. Quem a fala, quase sempre, são os mortos e os santos, de Justiniano a Pedro, e é isso que lhe dá peso: Dante não ataca em nome próprio, cede o ataque a quem já não tem nada a perder. O texto sustenta duas leituras do efeito. Pedro muda a cor do céu e o poema mostra que o Paraíso não é silêncio contemplativo, ou a explosão destoa de um lugar que devia estar acima do rancor, e há leitores que a acham o ponto em que o poeta perde a mão.
Como o Paraíso está montado
Os céus são os da cosmologia ptolomaica, concêntricos em torno da Terra, e Dante os atravessa sem perceber o movimento, sempre guiado pelo olhar de Beatriz. Em cada um aparece um grupo de almas, e o que as agrupa é o que fizeram ou deixaram de fazer na terra:
- Lua (cantos I a V): os que faltaram a um voto, com Piccarda e Constança.
- Mercúrio (cantos V a VII): os que agiram por honra e fama, com Justiniano.
- Vênus (cantos VIII e IX): os que amaram, com o espírito que a tradição lê como Carlos Martel, Cunizza, Folquet e Raab, no último céu que a sombra da Terra alcança.
- Sol (cantos X a XIV): os sábios, em duas coroas, com Tomás, Boaventura e a luz que a tradição lê como Salomão.
- Marte (cantos XIV a XVIII): os que lutaram pela fé, numa cruz de luzes, com Cacciaguida.
- Júpiter (cantos XVIII a XX): os justos, que desenham uma frase e uma águia.
- Saturno (cantos XXI e XXII): os contemplativos, numa escada de ouro, com Damião e Bento.
- Estrelas Fixas (cantos XXII a XXVII): o triunfo de Cristo e de Maria e o exame das três virtudes, por Pedro, Tiago e João.
- Primeiro Móvel (cantos XXVII a XXIX): o ponto de luz e os nove coros de anjos.
- Empíreo (cantos XXX a XXXIII): luz pura, a rosa, Bernardo e a visão final.
A ordem dos céus não é uma ordem de felicidade. Dante conclui, depois de ouvir Piccarda, que em toda parte do céu é paraíso, embora a graça não chova do mesmo modo (canto III), Justiniano chama de harmonia a diferença de assento (canto VI) e Bernardo nega que haja acaso em qualquer lugar da rosa (canto XXXII). Os graus existem, e o poema se recusa a tratá-los como inveja.
Quem guia, e até onde
Virgílio ficou no Purgatório, e quem guia é Beatriz, a mulher concreta que Dante amou, do primeiro canto ao XXXI. Ela ensina por argumento e por exemplo, e muitas vezes responde antes que a pergunta se forme (canto XIV). No fim, o guia que a substitui é Bernardo, que diz ter sido movido por ela para terminar o desejo de Dante (canto XXXI), e a última lição dele é que o passo final se pede a Maria, e não se ganha batendo as próprias asas (canto XXXII, canto XXXIII). Virgílio volta ao poema só por referência: Anquises e Enéias medem o encontro com Cacciaguida (canto XV), Rifeu vem da Eneida (canto XX) e a Sibila das folhas ao vento fecha a vista final (canto XXXIII).
Quem fala em cada trecho importa: a troca de voz marca onde um método acaba, e o Paraíso tem dois. Beatriz argumenta, Bernardo reza. Por que Bernardo, e não outro santo, o poema responde só com a vontade dela; para muitos leitores essa resposta não fecha, e o texto não oferece outra.
Uma cântica que se declara incompleta
Em vários pontos o poema confessa o limite: a memória não acompanha o intelecto quando ele se aproxima do que deseja (canto I), o poema precisa saltar diante do triunfo de Cristo (canto XXIII), a pena salta e não escreve o canto de Pedro (canto XXIV) e o ver da visão final é maior do que o falar (canto XXXIII). Dante sai de cada uma dessas confissões com uma imagem que não é a coisa: o exemplo de Glauco, o relógio da roda dos sábios, o ponto de luz, o volume em que se reúne o que o universo desencaderna.
O Inferno tem corpo, e o leitor se enxerga nele; o Paraíso é abstrato, e a dificuldade cresce ao contrário do esperado. É a cântica mais difícil e a menos lembrada, e é também onde o poema põe a incapacidade de dizer como a matéria. Quem entra esperando enredo encontra aulas, e quem as lê procurando a descrição do céu encontra o relato do que acontece com quem tenta ver.
Os santos que acusam a própria casa
Quase todo elogio do Paraíso termina em acusação feita por dentro. Tomás de Aquino, dominicano, louva Francisco e termina denunciando o rebanho de Domingos (canto XI); Boaventura, franciscano, louva Domingos e condena os extremos da própria ordem (canto XII); Pedro Damião nota que os prelados de agora cobrem de manto até o cavalo (canto XXI); Bento vê as abadias virarem covas (canto XXII); e Pedro, o primeiro papa, acusa quem ocupa o lugar dele (canto XXVII).
O método é o mesmo nos cinco casos: quem acusa sabe o que a instituição foi no começo, e por isso o juízo tem autoridade. O poeta que diz isso é o mesmo que, no canto XIII, ouve de Tomás que não se julga antes de ver, e o poema deixa a tensão de pé.