Quem é
Anquises é o pai de Enéias, um príncipe troiano já velho quando o poema começa. A deusa Vênus o amou, e dessa união nasceu Enéias, o que dá ao filho sangue divino. No Livro II ele próprio conta que Júpiter o atingiu com o raio, e por isso se considera havia muito um homem odiado pelos deuses e inútil. É o conselheiro da errância: lê os oráculos, decide o rumo, reza nos perigos e erra quando interpreta mal. O que ele quer é pouco, ficar e morrer onde está, mas acaba carregado para fora de Troia em chamas, levando os deuses da casa, e é dele a imagem que o poema mais associa à Pietas: o filho que sai da cidade com o pai nos ombros. Morre em Drépano, na Sicília, antes de a viagem acabar, e volta em sonho e depois no Elísio, onde mostra ao filho o futuro de Roma.
Trajetória
No Livro II ele recusa o exílio. Diz que os jovens, de sangue inteiro, devem fugir, que os deuses teriam guardado a casa se quisessem que ele vivesse e que já viu uma destruição de Troia e sobreviveu a ela. Nem os argumentos de Enéias nem o choro de Creúsa o demovem. Quando uma chama inofensiva aparece sobre a cabeça do neto Ascânio, ele reza a Júpiter por um sinal, trovoa à esquerda e uma estrela cai riscando o céu até o monte Ida, e então cede. A fala é de obediência, não de persuasão. Sai carregado, levando os Penates, porque Enéias, sujo de sangue, não pode tocá-los antes de lavar-se.
Vos o, quibus integer aevi / Sanguis, ait, solidaeque suo stant robore vires, / Vos, agitate fugam., vós, ó, em quem o sangue da idade está inteiro, diz ele, e as forças se mantêm sólidas no seu vigor, vós, empreendei a fuga.
Jam jam nulla mora est: sequor, et, qua ducitis, adsum. / Di patrii, servate domum, servate nepotem: / Vestrum hoc augurium, vestroque in numine Troja est. / Cedo equidem; nec, nate, tibi comes ire recuso., já, já não há demora: sigo, e onde me conduzis, estou presente. Deuses da pátria, guardai a casa, guardai o neto: este augúrio é vosso, e em vosso nume está Troia. Cedo, sem dúvida, e não recuso, filho, ir contigo.
No Livro III é quem dirige. Manda dar as velas aos fados em Antandro, e em Delos interpreta o oráculo de Apolo, que manda buscar "a antiga mãe", pela tradição dos antepassados: conclui que é Creta, de onde veio Teucro. A leitura custa uma cidade e uma peste, até os Penates corrigirem em sonho, e Anquises admite o erro, que atribui à dupla ascendência dos troianos, e lembra que só Cassandra falava da Hespéria sem ser acreditada. Depois reza de mãos erguidas diante das Hárpias, dá a mão ao grego Aquemênides e lê nos cavalos brancos da costa italiana tanto a guerra quanto a esperança de paz. O livro termina com a morte dele em Drépano.
Seque novo veterum deceptum errore locorum. / Tum memorat: Nate, Iliacis exercite fatis, / Sola mihi tales casus Cassandra canebat., e que se enganou com um novo erro sobre lugares antigos. Então diz: filho, atormentado pelos destinos de Ílion, só Cassandra me cantava tais sucessos.
Et pater Anchises: Bellum, o terra hospita, portas: / Bello armantur equi: bellum haec armenta minantur. / Sed tamen idem olim curru succedere sueti / Quadrupedes, et frena jugo concordia ferre: / Spes et pacis, ait, e o pai Anquises: é guerra, ó terra hospitaleira, o que trazes: para a guerra se armam os cavalos, guerra ameaçam estes rebanhos. Mas esses mesmos quadrúpedes costumam puxar o carro e levar, concordes, o freio sob o jugo: há esperança de paz, disse.
Heu! genitorem, omnis curae casusque levamen, / Amitto Anchisen. Hic me, pater optime, fessum / Deseris, heu! tantis nequidquam erepte periclis!, ai! Perco meu pai Anquises, alívio de toda preocupação e de todo infortúnio. Aqui, ótimo pai, tu me deixas, exausto, tu que escapaste em vão de tantos perigos!
No Livro IV ele já morreu, e mesmo assim pesa na decisão. Ao responder a Dido, Enéias diz que o pai o admoesta em sonhos toda vez que a noite cobre a terra, uma das razões pelas quais não fica em Cartago.
No Livro V os troianos celebram o primeiro aniversário da morte dele com jogos junto ao túmulo, e uma serpente sai da sepultura e prova as oferendas, sem que Enéias saiba se é o gênio do lugar ou servidor do pai. Depois do incêndio das naus ele aparece em sonho, por ordem de Júpiter, aprova o conselho de Nautes, anuncia a guerra contra um povo duro no Lácio e manda o filho descer antes ao Averno, corrigindo de passagem a imagem que o filho tem dele: não está no Tártaro, mora entre os piedosos.
Imperio Jovis huc venio, qui classibus ignem / Depulit, et coelo tandem miseratus ab alto est. / Consiliis pare quae nunc pulcherrima Nautes / Dat senior: lectos juvenes, fortissima corda, / Defer in Italiam. Gens dura atque aspera cultu / Debellanda tibi Latio est. Ditis tamen ante / Infernas accede domos, et Averna per alta / Congressus pete, nate, meos. Non me impia namque / Tartara habent tristesque umbrae; sed amoena piorum / Concilia Elysiumque colo. Huc casta Sibylla / Nigrantum multo pecudum te sanguine ducet., venho por ordem de Júpiter, que afastou o fogo das naus e enfim se compadeceu do alto do céu. Obedece aos melhores conselhos que o velho Nautes agora te dá: leva para a Itália os jovens escolhidos, os corações mais fortes. Um povo duro e áspero nos costumes tens de vencer no Lácio. Mas antes entra nas moradas infernas de Dite e, pelos fundos do Averno, vem, filho, ao meu encontro. Não me detêm o ímpio Tártaro nem as sombras tristes; habito as amenas assembleias dos piedosos e o Elísio. Para lá, com o sangue de muitas reses negras, te levará a casta Sibila.
No Livro VI é ele quem espera o filho no Elísio, contando os dias, e que o recebe em lágrimas. O abraço falha três vezes, porque sombra não se agarra, e o gesto repete quase em palavras o que aconteceu com Creúsa no Livro II. Diante do rio Lete, explica que uma mente única anima o universo, que as almas pagam depois da morte as manchas do corpo e que, passados mil anos, um deus as chama a esquecer e a querer voltar a um corpo. Mostra então a fila dos romanos futuros até Augusto, que fundará de novo os séculos de ouro, e dita a missão de Roma: governar, impor o costume da paz, poupar os submetidos e abater os soberbos. Fecha o desfile com o jovem Marcelo, que os fados mostrarão à terra e levarão cedo, e pede flores para ele. Por fim despede o filho pela porta de marfim.
Ter conatus ibi collo dare brachia circum; / Ter frustra comprensa manus effugit imago, / Par levibus ventis, volucrique simillima somno, três vezes tentou ali lançar os braços ao pescoço dele; três vezes a imagem, em vão apertada, escapou das mãos, igual aos ventos leves, muito parecida com o sono que voa
Has omnes, ubi mille rotam volvere per annos, / Lethaeum ad fluvium deus evocat agmine magno, / Scilicet immemores supera ut convexa revisant, / Rursus et incipiant in corpora velle reverti, a todas estas, quando fizeram girar a roda por mil anos, um deus convoca ao rio Lete em grande multidão, para que, sem memória, revejam a abóbada do alto e comecem de novo a querer voltar a corpos
Tu regere imperio populos, Romane, memento; / Hae tibi erunt artes, pacisque imponere morem, / Parcere subjectis, et debellare superbos, tu, romano, lembra-te de reger os povos com o teu poder; estas serão as tuas artes: impor o costume da paz, poupar os submetidos e abater os soberbos
No Livro VII a palavra dele se cumpre na boca de um menino: Ascânio brinca que agora comem até as mesas, e Enéias reconhece a profecia que o pai lhe deixou, a de que essa fome marcaria o fim da errância. No Livro VIII Evandro reconhece em Enéias o rosto e a voz de Anquises, que conheceu quando jovem, e é por esse laço que aceita a aliança. No Livro IX Apolo toma a forma de Butes, antigo escudeiro de Anquises, para mandar Ascânio parar de lutar. No Livro X Enéias cita as sombras do pai para recusar o resgate de Mago.
Argenti atque auri memoras quae multa talenta, / Gnatis parce tuis: belli commercia Turnus / Sustulit ista prior, jam tum Pallante perempto. / Hoc patris Anchisae Manes, hoc sentit Iulus, a prata e o ouro de que falas em tantos talentos, guarda-os para teus filhos: Turno foi o primeiro a abolir esses negócios de guerra, quando matou Palante. Isto sentem as sombras de meu pai Anquises e Iulo.
No Livro XII o nome de Anquises é a última carta de Turno, caído: ele pede a Enéias que se lembre de que também teve um pai assim e que tenha pena da velhice de Dauno.
Equidem merui, nec deprecor, inquit; / Utere sorte tua. Miseri te si qua parentis / Tangere cura potest, oro (fuit et tibi talis / Anchises genitor), Dauni miserere senectae; / Et me, seu corpus spoliatum lumine mavis, / Redde meis. Vicisti, et victum tendere palmas / Ausonii videre: tua est Lavinia conjux; / Ulterius ne tende odiis, mereci, e não peço que me poupem; usa a tua sorte. Se algum cuidado de um pai infeliz pode te tocar, peço (também tu tiveste um pai assim, Anquises), tem pena da velhice de Dauno; e a mim, se preferes o corpo despojado de luz, devolve aos meus. Venceste, e os ausônios viram o vencido estender as palmas: Lavínia é tua esposa; não leves mais longe o ódio.
Temas que encarna
Anquises concentra o Dever filial e religioso: obedece aos deuses quando eles falam por um sinal, e é a obediência dele que põe a frota em movimento, de Troia a Creta e de Creta à Itália. Nele o Destino e livre-arbítrio aparece como problema de leitura, porque o poema separa a fonte divina, que não erra, da interpretação humana, que erra, e o erro dele em Delos prova que o destino anda por tentativa e correção. O Lar, exílio e retorno está na cena do homem velho carregado com os deuses da casa, e o Império e colonialismo no desfile do Livro VI, que mostra a glória de Roma com dois avisos dentro, a guerra civil de César e Pompeu e a morte de Marcelo.
Anquises é o único personagem do poema que passa do outro lado e continua a conduzir. Vivo, recusa a viagem e depois a dirige; morto, convoca o filho ao Averno e lhe dá o sentido do percurso. A autoridade dele nunca vem da força, vem de saber ler o que os deuses mandam, e é isso que o poema parece pedir de um chefe de Roma: o filho age, o pai interpreta, e o futuro só se mostra quando os dois estão juntos.
Relações
- Enéias: o filho que o carrega nos ombros, que o enterra em Drépano e que o procura no Averno.
- Ascânio: o neto, sobre cuja cabeça aparece o sinal que o convence, e que no Livro VII cumpre a profecia sem saber.
- Creúsa: a nora, que com Ascânio pede a Enéias que leve a família, e cuja sombra o abraço do Livro VI repete.
- Vênus: a deusa que o amou e que protege o filho dele em todo o poema.
- Evandro: o rei árcade que o conheceu jovem e reconhece o rosto dele em Enéias.
- Turno: o rival que, vencido, apela ao pai de Enéias para pedir a vida.
Na arte
A fuga de Troia com o pai nos ombros está na pintura A Fuga de Enéias de Troia e na escultura Enéias, Anquises e Ascânio.