Clavis Libri

Personagem

Enéias

Quem é

Enéias é o herói troiano que o poema acompanha desde a noite em que Troia cai até o duelo final com Turno, na Itália. É filho da deusa Vênus e do mortal Anquises, e sai da cidade em chamas com o pai nos ombros, o filho Ascânio pela mão e os Penates, os deuses da casa, com a missão de fundar no Lácio uma cidade nova, da qual nascerá Roma. O que ele quer muda ao longo do poema: no começo quer morrer com a cidade, depois quer apenas um lugar onde descansar, e só no fim aceita agir como o destino pede. Virgílio o define pela Pietas, o dever aos deuses, à pátria e à família, e não pela glória pessoal, e por isso o mostra mais vezes chorando, obedecendo e carregando do que vencendo. Ele já aparece na Ilíada, mas é só aqui que ganha o desenvolvimento que faz dele protagonista.

Trajetória

No Livro I ele surge náufrago: a tempestade que Juno mandou desfazer a frota o pega no mar, e a primeira fala dele no poema é um lamento, em que inveja os mortos de Troia por terem morrido diante dos pais. Em terra, finge esperança para os companheiros que não sente. Encontra a mãe disfarçada de caçadora e não a reconhece, e entra em Cartago encoberto por uma névoa, porque é assim que os deuses o conduzem. No templo vê a guerra de Troia pintada nas paredes, chora e conclui que ali há gente capaz de compaixão.

O terque quaterque beati / Queis ante ora patrum, Trojae sub moenibus altis, / Contigit oppetere!, ó três e quatro vezes felizes aqueles a quem coube morrer diante dos olhos dos pais, sob as altas muralhas de Troia!
Livro I: A tempestade e Cartago
O, quam te memorem? virgo; namque haud tibi vultus / Mortalis, nec vox hominem sonat. O dea, certe, ó, como te chamarei, donzela? Pois teu rosto não é de mortal, nem tua voz soa humana: és deusa, certamente.
Livro I: A tempestade e Cartago

No Livro II ele narra a Dido a última noite de Troia e não se poupa: ao contar a entrada do cavalo, diz "insistimos", e se põe entre os cegos. Heitor lhe aparece em sonho, manda que fuja e lhe entrega os Penates, mas Enéias acorda e pega em armas sem razão, só porque lhe ocorre que é belo morrer lutando. Reúne jovens com o argumento de que a única salvação para os vencidos é não esperar salvação, e quer matar Helena para vingar a pátria, até Vênus o segurar pela mão e lembrá-lo de que pai, mulher e filho continuam cercados de gregos. Volta para casa, é detido pelo prodígio que convence Anquises e sai carregando o pai, com Ascânio pela mão e Creúsa atrás, a quem perde no caminho.

Sacra suosque tibi commendat Troja Penates. / Hos cape fatorum comites: his moenia quaere, / Magna pererrato statues quae denique ponto., Troia te confia os seus objetos sagrados e os seus Penates. Toma-os como companheiros dos fados: busca para eles as muralhas que, depois de percorrido o mar, enfim fundarás.
Livro II: A queda de Troia
Excessere omnes, adytis arisque relictis, / Di, quibus imperium hoc steterat: succurritis urbi / Incensae: moriamur, et in media arma ruamus. / Una salus victis, nullam sperare salutem., os deuses em quem este império se apoiava partiram, abandonando santuários e altares: socorreis uma cidade incendiada; morramos, e lancemo-nos no meio das armas. A única salvação para os vencidos é não esperar salvação.
Livro II: A queda de Troia

No Livro III aprende a ler sinais, e aprende mal no começo. Parte de Troia levado pelos fados, chorando, e abandona a Trácia depois da voz de Polidoro, que morreu justamente por ter sido hospedado. Segue a leitura que Anquises faz do oráculo de Apolo até a peste de Creta, e só então os Penates, que lhe aparecem em sonho, corrigem o rumo: a terra prometida é a Itália. Aceita os avisos de Heleno, evita Cila e Caríbdis e responde pela vida de todos, e na despedida diz a Heleno e Andrômaca que eles podem viver felizes, porque a sorte deles já se cumpriu e a dele não. O livro termina em Drépano, onde perde o pai.

Vivite felices, quibus est fortuna peracta / Jam sua: nos alia ex aliis in fata vocamur., vivei felizes, vós cuja sorte já se cumpriu: nós somos chamados de destino em destino.
Livro III: A errância

No Livro IV Enéias é o hóspede que Dido chama de marido, nome que ele nunca usa para si. Mercúrio o encontra erguendo as muralhas de Cartago com a espada e o manto que ela lhe deu, e o repreende; ele fica mudo, quer fugir e decide mandar aprontar a frota em silêncio, porque acredita que Dido não imagina um fim para tanto amor. Quando ela o enfrenta, responde de olhos fixos e com a dor escondida: não prometeu casamento, os oráculos o mandam à Itália, o pai o visita em sonhos, Ascânio perde o reino se ele ficar, e o próprio Mercúrio foi visto e ouvido. Obedece porque as razões vêm de fora dele, e por isso o poema não o absolve: o preço é pago por Dido.

Sed nunc Italiam magnam Grynaeus Apollo, / Italiam Lyciae jussere capessere sortes: / Hic amor, haec patria est, mas agora o Apolo de Grineu e os oráculos da Lícia mandaram-me tomar a Itália, a grande Itália: aí está o meu amor, essa é a minha pátria.
Livro IV: Dido
Ac velut annoso validam cum robore quercum / Alpini Boreae, nunc hinc, nunc flatibus illinc / Eruere inter se certant [...] Ipsa haeret scopulis, et quantum vertice ad auras / Aethereas, tantum radice in Tartara tendit: / Haud secus assiduis atque hinc vocibus heros / Tunditur, et magno persentit pectore curas; / Mens immota manet, lacrymae volvuntur inanes, e como, quando os ventos alpinos do Bóreas, de um lado e de outro, disputam arrancar um carvalho robusto de velhas raízes [...] ele se agarra aos rochedos, e quanto sobe com o cimo aos ares do céu, tanto desce com a raiz ao Tártaro: assim o herói é golpeado por vozes sem fim, e sente no peito grande as angústias; a mente permanece imóvel, rolam lágrimas inúteis.
Livro IV: Dido

No Livro V navega olhando para trás as muralhas de Cartago iluminadas pelo fogo, e os troianos leem a pira como mau presságio, porque sabem o que uma mulher ferida de amor pode fazer. Desvia para a Sicília, onde estão Acestes e os ossos de Anquises, e preside os jogos fúnebres do pai, dando prêmio a quase todos para que a disputa não vire inimizade. Quando as troianas, instigadas por Íris, queimam as naus, reza a Júpiter, e a chuva apaga o fogo ao custo de quatro naus. Anquises aparece em sonho e manda que ele desça ao Averno. A travessia custa Palinuro, que ele lamenta sem entender como o piloto caiu.

Jupiter omnipotens, si nondum exosus ad unum / Trojanos, si quid pietas antiqua labores / Respicit humanos; da flammam evadere classi / Nunc, Pater, et tenues Teucrum res eripe leto; / Vel tu, quod superest, infesto fulmine morti, / Si mereor, demitte, tuaque hic obrue dextra., Júpiter onipotente, se ainda não odeias os troianos até o último, se a antiga piedade olha para os trabalhos humanos, deixa a frota escapar das chamas agora, Pai, e arranca à morte o que resta dos teucros; ou, se o mereço, envia-me à morte com o raio hostil e sepulta-me aqui com a tua mão.
Livro V: Os jogos
O nimium coelo et pelago confise sereno, / Nudus in ignota, Palinure, jacebis arena!, ó tu que confiaste demais no céu e no mar serenos, nu em praia ignota, Palinuro, jazerás!
Livro V: Os jogos

No Livro VI não pede à Sibila o futuro, que diz já ter previsto: pede ver o pai, e apoia o pedido no que fez por ele nas chamas de Troia. Duas pombas de Vênus o levam ao ramo de ouro, e ele o quebra ávido, embora o ramo hesite. No mundo dos mortos jura a Dido que deixou a costa dela contra a vontade, e ela, de olhos no chão, foge para junto de Siqueu sem responder. Com Anquises tenta três vezes o abraço e a sombra escapa, como a de Creúsa. Dele recebe o desfile dos romanos futuros e a missão de Roma, e sai pela porta de marfim.

Ire ad conspectum cari genitoris et ora / Contingat; doceas iter, et sacra ostia pandas. / Illum ego per flammas et mille sequentia tela / Eripui his humeris, medioque ex hoste recepi, que me seja dado ir ver o rosto do meu querido pai; ensina o caminho e abre as portas sagradas. Eu o tirei de lá, nestes ombros, por entre chamas e mil dardos que vinham atrás, e o recolhi do meio do inimigo
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos
Funeris heu tibi causa fui! Per sidera juro, / Per Superos, et si qua fides tellure sub ima est, / Invitus, regina, tuo de littore cessi, ai, fui a causa da tua morte! Juro pelos astros, pelos deuses de cima e por qualquer fé que haja sob a terra profunda: contra a vontade, rainha, deixei a tua costa
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos
Ter conatus ibi collo dare brachia circum; / Ter frustra comprensa manus effugit imago, / Par levibus ventis, volucrique simillima somno, três vezes tentou ali lançar os braços ao pescoço dele; três vezes a imagem, em vão apertada, escapou das mãos, igual aos ventos leves, muito parecida com o sono que voa
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos

No Livro VII chega ao Tibre e é o único a entender a brincadeira de Iulo sobre comer as próprias mesas, porque só ele guardou a predição que o pai deixou: a fome que o fizesse roer as mesas marcaria o fim da errância. Saúda a terra e os Penates, e manda cem embaixadores a Latino. A guerra que vem em seguida nasce sem ele, da vontade de Juno, da serpente de Alecto e de um cervo ferido.

Salve, fatis mihi debita tellus; / Vosque, ait, o fidi Trojae, salvete, Penates. / Hic domus, haec patria est, salve, terra devida a mim pelos fados; e vós, disse ele, ó fiéis Penates de Troia, salve! Aqui está a casa, esta é a pátria.
Livro VII: A chegada ao Lácio

No Livro VIII o deus do rio Tibre lhe promete casa certa e Penates certos, e a porca branca com trinta filhotes aparece como sinal: ele a sacrifica a Juno, a deusa que o persegue, porque o sonho mandou. Sobe o rio, firma aliança com Evandro, recebe dele o filho Palante e os cavaleiros, e ganha da mãe as armas que Vulcano forjou. Admira o escudo, onde está gravada a história dos descendentes, sem saber ler o que carrega.

Hic tibi certa domus, certi, ne absiste, Penates; / Neu belli terrere minis: tumor omnis et irae / Concessere deum, aqui tens casa certa e Penates certos, não desistas; não te assustes com as ameaças da guerra: todo o inchaço da ira dos deuses cedeu.
Livro VIII: O escudo
Talia per clypeum Vulcani, dona parentis, / Miratur, rerumque ignarus, imagine gaudet, / Attollens humero famamque et fata nepotum, tais coisas, pelo escudo de Vulcano, presente da mãe, ele admira e, sem saber das coisas, alegra-se com a imagem, erguendo ao ombro a fama e os destinos dos descendentes.
Livro VIII: O escudo

No Livro IX ele não aparece, e mesmo assim tudo parte dele: a ausência abre a brecha por onde Turno ataca, a ordem que deixou mantém os troianos atrás do muro, e é a ele que Niso e Euríalo querem levar o aviso.

No Livro X volta à guerra, avisado pelas ninfas, e a morte de Palante o transforma. Recusa o resgate de Mago, dizendo que Turno acabou com as trocas de guerra ao matar o rapaz, e captura oito jovens para a pira dele. Com Lauso, que se atira contra ele para salvar o pai Mezêncio, é diferente: avisa antes de golpear, e depois do golpe devolve ao morto as armas e o corpo, porque a imagem do amor de Lauso pelo pai lhe vem à mente.

Argenti atque auri memoras quae multa talenta, / Gnatis parce tuis: belli commercia Turnus / Sustulit ista prior, jam tum Pallante perempto. / Hoc patris Anchisae Manes, hoc sentit Iulus, a prata e o ouro de que falas em tantos talentos, guarda-os para teus filhos: Turno foi o primeiro a abolir esses negócios de guerra, quando matou Palante. Isto sentem as sombras de meu pai Anquises e Iulo.
Livro X: A batalha
Quid tibi nunc, miserande puer, pro laudibus istis, / Quid pius Aeneas tanta dabit indole dignum? / Arma, quibus laetatus, habe tua: teque parentum / Manibus et cineri (si qua est ea cura) remitto. / Hoc tamen infelix miseram solabere mortem; / Aeneae magni dextra cadis, que dará agora, pobre menino, em troca de tais louvores, que dará o piedoso Enéias digno de tamanha índole? Guarda as armas de que te orgulhavas; e te devolvo às sombras e às cinzas de teus pais, se isso lhes importa. Mas terás, infeliz, este consolo na tua triste morte: cais pela mão do grande Enéias.
Livro X: A batalha

No Livro XI ergue as armas de Mezêncio como troféu e, diante do corpo de Palante, reconhece que não cumpriu o que prometera ao pai. Concede a trégua que os latinos pedem para enterrar os mortos, com a observação de que daria paz também aos vivos, e recebe de Evandro a cobrança de que a mão dele deve Turno ao filho e ao pai.

Hi nostri reditus, exspectatique triumphi? / Haec mea magna fides!, é este o nosso regresso, são estes os triunfos esperados? Esta é a minha grande fé!
Livro XI: Camila
Pacem me exanimis et Martis sorte peremptis / Oratis? equidem et vivis concedere vellem., pedis paz aos mortos e aos abatidos pela sorte de Marte? Eu a concederia de bom grado também aos vivos.
Livro XI: Camila

No Livro XII jura que não quer reino, que os dois povos terão leis iguais e que Latino comandará, e quando o tratado se rompe tira o elmo e estende a mão aberta para detê-lo. Uma flecha de origem desconhecida o fere, Vênus cura a ferida em segredo, e ele beija Ascânio por cima do elmo antes de voltar à luta. Por sugestão de Vênus ameaça arrasar a cidade de Latino, o que contradiz o que jurou. No fim hesita diante de Turno caído, que lhe pede a vida em nome do pai dele, até ver no ombro do vencido o talim de Palante, e o mata.

Quo ruitis? quaeve ista repens discordia surgit? / O cohibete iras! ictum jam foedus et omnes / Compositae leges, mihi jus concurrere soli, para onde correis? Que discórdia repentina é esta? Oh, contende as iras! O tratado já foi selado e as condições estão todas acordadas: só a mim cabe o direito de combater.
Livro XII: Turno
Tune hinc spoliis indute meorum / Eripiare mihi? Pallas te hoc vulnere, Pallas / Immolat et poenam scelerato ex sanguine sumit, tu, vestido com os despojos dos meus, escaparás de mim daqui? Palante, Palante te imola com este golpe e cobra a pena do teu sangue criminoso.
Livro XII: Turno

Temas que encarna

O tema que o define é o Dever: Enéias age por ordem de Heitor, dos Penates, de Mercúrio e de Anquises, e o poema mede quanto isso custa a quem está perto dele, de Creúsa a Dido e Palinuro. A ele se liga o Destino e livre-arbítrio, porque ele diz a Dido que não segue a Itália por vontade própria e, no fim, escolhe o golpe contra Turno por ira, e não só porque Evandro o pediu. O Lar, exílio e retorno aparece na imagem que o define, o homem que carrega os Penates e o pai de uma cidade perdida para um lugar que nunca viu, e o Império e colonialismo na fundação que ele prepara sem conhecer, como mostra o escudo. A Paixão entra pela relação com Dido, e a Guerra pela mudança que a morte de Palante provoca nele no Livro X.

O Livro I apresenta o fundador de Roma como náufrago que inveja os mortos, e o Livro XII o mostra matando um suplicante em nome de um rapaz morto. Entre os dois extremos, o poema faz de Enéias alguém que carrega mais do que decide, e cobra dele cada escolha em vidas alheias. O mesmo fato se lê de outro modo: quem carrega sem decidir não é só instrumento, porque nos momentos em que hesita, no Livro IV e no Livro XII, a hesitação é dele e o poema a registra.

Relações

  • Anquises: o pai que ele carrega nos ombros, que decide por ele os rumos da errância até morrer em Drépano e depois o chama ao Averno.
  • Ascânio: o filho que vai pela mão, o futuro que justifica o abandono de Dido e a quem ele deixa a lição do valor.
  • Creúsa: a primeira esposa, perdida na fuga, cuja sombra anuncia o exílio.
  • Dido: a rainha que o acolhe e que ele deixa por ordem dos deuses, e que no Averno não lhe responde.
  • Vênus: a mãe que o protege, o guia disfarçada e lhe entrega as armas.
  • Juno: a deusa que o persegue por sete anos de errância e depois pela guerra no Lácio.
  • Turno: o rival no Lácio, que ele mata no último verso do poema.
  • Palante e Evandro: o jovem aliado cuja morte o muda e o pai que lhe cobra a vingança.

Na Ilíada, antes de Virgílio

Na Ilíada ele é salvo por deuses duas vezes, e as duas pelo mesmo motivo: tem destino próprio, fora daquela guerra. No canto V, ferido por uma pedra atirada por Diomedes, é protegido pela própria Afrodite, que o cobre com o corpo e é ferida no lugar dele. No canto XX, sob ataque de Aquiles, é Poseidon quem o retira do combate, contra o partido grego dos deuses, porque o Destino reserva a ele sobreviver à queda de Troia. Homero assinala esse destino sem desenvolvê-lo, e é o que Virgílio narra séculos depois.

Na arte

A fuga de Troia, com o pai nos ombros e o filho pela mão, está na pintura A Fuga de Enéias de Troia e na escultura Enéias, Anquises e Ascânio.