Sim, A Morte de Ivan Ilitch é um bom livro para começar a ler Tolstói: é curta, tem doze capítulos e uma trama que cabe numa frase, e traz os temas que ele nunca largou, a morte, a mentira e o sentido da vida.
A novela evita o que costuma assustar nos romances russos longos. São cerca de 68 páginas, com poucos personagens centrais (Ivan Ilitch, a mulher, a filha, o filho, o colega Piotr Ivánovitch e o criado Gerássim) e um narrador que explica o que cada um pensa. Começa pelo velório e depois conta tudo em ordem, de modo que o leitor não se perde.
O que pede atenção é o vocabulário do mundo dele: Câmara Judiciária, juiz de instrução, a Escola de Jurisprudência, o vint, que é um jogo de cartas, e os nomes russos completos, com nome e patronímico, como Prascóvia Fiódorovna. Nada disso exige conhecimento prévio, e o texto explica pelo uso.
É também uma boa porta de entrada porque foi escrita em 1886, depois da crise religiosa em que Tolstói passou a rejeitar os romances anteriores, entre eles Guerra e Paz e Ana Karênina. Quem lê a novela vê o escritor depois dessa mudança, em formato curto, e pode passar em seguida, se quiser, aos romances longos.