Pelo critério do mundo dele, Ivan Ilitch teve uma vida boa; pelo critério que a novela acaba adotando, não, e é essa diferença que o livro dramatiza.
Pelo critério do mundo, tinha tudo: carreira em ascensão, casa elogiada, família de aparência decorosa, o jogo de vint com bons parceiros. Os colegas gostavam dele, e o próprio Ivan Ilitch, até adoecer, achava que a vida corria como devia, leve, agradável e decorosa. No capítulo IX, quando a voz da alma lhe pergunta se viveu bem, ele revê as alegrias e vê que elas se desfazem quanto mais perto do presente; só as da infância resistem. Conclui que descia a montanha imaginando que subia.
No capítulo XI vem a suspeita de que toda a vida consciente foi não aquilo, e no XII a certeza de que a vida foi boa é o que o prende no saco preto. Mas o livro não condena com simplicidade: o narrador diz que a história dele foi a mais simples e a mais comum, o que sugere que o erro é de muita gente. E o último capítulo deixa a porta aberta: tudo foi não aquilo, mas ainda se pode fazer aquilo.
Há duas leituras. Numa, a novela acusa um homem que escolheu copiar os de cima. Noutra, descreve uma classe inteira, e Ivan Ilitch é um exemplo entre outros. O texto sustenta as duas.