No fim de A Morte de Ivan Ilitch, a luz que ocupa o lugar da morte é o sinal de que o medo desaparece e de que ele, afinal, vê o que não via: assim que sente pena do filho e da mulher, procura o medo habitual da morte, não o encontra e descobre que no lugar da morte havia luz.
A luz atravessa a novela em quatro pontos. No capítulo II, a mesma palavra russa, свет, quer dizer luz e alta sociedade, e o narrador diz que Ivan Ilitch, como a mosca à luz, se orientava pelas pessoas mais bem situadas. No capítulo V, o cunhado diz que não há luz nos olhos dele, e à noite o próprio doente pensa: antes havia luz, agora há treva. No capítulo X, a memória lhe mostra um ponto luminoso lá atrás, no começo da vida, e depois tudo cada vez mais negro. No capítulo XII, ao cair no fundo do saco preto, vê algo brilhar.
A luz só volta depois de dois gestos: deixar de se defender, ao largar a certeza de que a vida foi boa, e sentir pena dos outros. Ele diz em voz alta: então é isso! Que alegria! E quando alguém diz junto dele que acabou, repete na alma: acabou a morte.
As duas leituras do fim cabem no texto. Na religiosa, a luz é graça, preparada pela confissão e pela comunhão do capítulo XI. Na moral, é uma descoberta própria, a de que o medo cede quando a atenção passa de si para os outros. O livro põe as duas coisas no mesmo instante.