Capítulos I a III: O velório e a vida
o próprio fato da morte de um conhecido próximo despertou em todos os que souberam dela, como sempre, o sentimento de alegria por ter morrido ele, e não eu.
Explicação e análise
No intervalo de uma sessão do tribunal, Piotr Ivánovitch lê no jornal o aviso fúnebre de Ivan Ilitch, colega de Câmara Judiciária morto em 4 de fevereiro de 1882. Antes de qualquer lamento, cada um dos presentes calcula o que a vaga abre para as promoções, e o narrador resume o que todos sentiram, sem exceção, numa só frase.
A expressão como sempre põe o leitor no grupo dos colegas. O sentimento não é maldade de ninguém em particular: é o alívio de quem se vê fora do alcance do que acaba de atingir outro. A frase passa de ele para eu sem aviso, e é esse eu, posto a salvo pelos vivos no velório, que a doença vai tornar impossível de proteger. Por isso ela serve de abertura ao livro inteiro: a morte alheia chega aos vivos como notícia sobre a sorte deles, e o decoro dos pêsames cobre uma alegria que ninguém confessa. Quem lê já viu o caixão e sabe que esse alívio dura pouco.
O texto deixa duas leituras abertas. Pode ser uma ironia do narrador sobre a hipocrisia dos pêsames. Pode ser também a constatação de um reflexo de defesa que não depende de caráter e que o leitor reconhece em si mesmo.
No rosto havia a expressão de que o que era preciso fazer estava feito, e feito corretamente. Além disso, havia nessa expressão ainda uma censura, ou um lembrete, aos vivos.
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 24 citações de A Morte de Ivan Ilitch está na assinatura.
E então, irmão Gerássim? disse Piotr Ivánovitch, para dizer alguma coisa. Dá pena? É a vontade de Deus. Todos vamos parar lá.
Explicação e análise
A história passada da vida de Ivan Ilitch foi a mais simples, a mais comum e a mais terrível.
Explicação e análise
ele, como mosca à luz, era atraído pelas pessoas mais bem situadas na sociedade, adotava os modos delas, as suas maneiras de ver a vida, e com elas estabelecia relações de amizade.
Explicação e análise
Ivan Ilitch casou-se pelas duas razões: fazia uma coisa agradável para si, adquirindo uma mulher assim, e ao mesmo tempo fazia o que as pessoas mais bem situadas consideravam correto.
Explicação e análise
Na verdade, era aquilo mesmo que há na casa de todas as pessoas não muito ricas, mas que querem parecer-se com os ricos e por isso só se parecem umas com as outras.
Explicação e análise
Uma vez subiu numa escadinha para mostrar ao estofador, que não entendia, como queria o drapeado, pisou em falso e caiu, mas, como homem forte e ágil, segurou-se, e só bateu de lado no puxador do caixilho.
Explicação e análise
As alegrias do serviço eram alegrias do amor-próprio; as alegrias sociais eram alegrias da vaidade; mas as verdadeiras alegrias de Ivan Ilitch eram as alegrias do jogo de vint.
Explicação e análise
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira
Era tudo exatamente como no tribunal. Assim como ele, no tribunal, assumia um ar diante dos réus, exatamente assim o médico famoso assumia um ar diante dele.
Explicação e análise
Não havia a questão da vida de Ivan Ilitch, havia uma disputa entre o rim flutuante e o apêndice.
Explicação e análise
Não é o apêndice, não é o rim, o caso é a vida e... a morte. Sim, a vida existia, e eis que vai embora, vai embora, e eu não posso detê-la.
Explicação e análise
Antes havia luz, e agora há treva. Antes eu estava aqui, e agora vou para lá! Para onde?
Explicação e análise
Aquele exemplo de silogismo que estudara na lógica de Kiesewetter, Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe a vida inteira correto somente em relação a Caio, mas de modo nenhum em relação a ele.
Explicação e análise
E é verdade que aqui, nesta cortina, eu perdi a vida como num assalto. Será possível? Que horror, e que estupidez!
Explicação e análise
O principal tormento de Ivan Ilitch era a mentira, aquela mentira, por algum motivo aceita por todos, de que ele estava apenas doente, e não morrendo.
Explicação e análise
Todos vamos morrer. Por que não me esforçar?
Explicação e análise
queria que alguém tivesse pena dele como de uma criança doente. Queria que o acariciassem, beijassem, chorassem por ele, como se acaricia e consola as crianças.
Explicação e análise
Capítulos VIII a XII: A morte
todos tinham medo de que de repente a mentira decorosa se rompesse de algum modo, e ficasse claro para todos o que era.
Explicação e análise
Chorava por sua impotência, por sua terrível solidão, pela crueldade das pessoas, pela crueldade de Deus, pela ausência de Deus.
Explicação e análise
Era como se eu descesse a montanha num passo regular, imaginando que subia. Foi assim mesmo. Na opinião pública eu subia a montanha, e na mesma medida a vida fugia debaixo de mim... E pronto, agora morre!
Explicação e análise
Talvez eu tenha vivido não como se devia? vinha-lhe de repente à cabeça. Mas como não, se eu fiz tudo como se deve? dizia a si mesmo.
Explicação e análise
e se de fato toda a minha vida, a minha vida consciente, não foi «aquilo»?
Explicação e análise
O que o impede de passar é o reconhecimento de que a sua vida foi boa.
Explicação e análise
Quis dizer ainda «perdoa», mas disse «deixa passar» e, já sem forças para se corrigir, fez um gesto com a mão, sabendo que entenderia quem precisava entender.
Explicação e análise
Ele procurou o seu medo habitual da morte, o de antes, e não o encontrou. Onde ela está? Que morte? Não havia medo nenhum, porque também não havia morte. Em lugar da morte havia luz.