O livro não dá nome à doença que mata Ivan Ilitch. O que o texto oferece são duas pistas que nunca se fecham: uma disputa de médicos entre o rim flutuante e o apêndice, e uma queda de escadinha ao pendurar cortinas, que o próprio doente toma como começo de tudo.
A queda está no capítulo III. Ivan Ilitch sobe numa escadinha para mostrar ao estofador como quer o drapeado, pisa em falso e se segura; só bate de lado no puxador do caixilho, a dor passa e à noite ele ri do susto. Os sinais vêm no capítulo IV: um gosto estranho na boca e um incômodo no lado esquerdo da barriga. Na noite da descoberta ele refaz a história da doença desde o começo, e o começo é o tombo; no capítulo VI, diante da cortina, pensa que ali perdeu a vida como num assalto.
Os médicos não resolvem nada. O médico famoso trata o caso como Ivan Ilitch tratava os réus: para ele não havia a questão da vida do paciente, havia uma disputa entre o rim flutuante e o apêndice, que decide a favor do apêndice. Um médico amigo fala depois de uma coisinha no apêndice que se pode corrigir, e Ivan Ilitch volta animado. Na mesma noite entende que o caso não é o apêndice nem o rim, é a vida e a morte. E no capítulo VIII o médico famoso volta a falar de rim e apêndice e, perguntado, diz apenas que há possibilidade.
Por isso as duas pistas servem à leitura, não ao diagnóstico. Se o tombo é causa real, a morte nasce do gesto mais característico da vida que ela encerra, o zelo com a casa decorada. Se é a causa que Ivan Ilitch escolhe, é só mais uma explicação de órgão e de acidente, do mesmo tipo do rim e do apêndice, e o texto nunca diz o que ele tem. O que a novela leva a sério é a mentira em volta: o principal tormento de Ivan Ilitch é a mentira, aceita por todos, de que ele está apenas doente e não morrendo.