Vale a pena, e por razões que se confirmam na leitura. É uma novela de doze capítulos, sem partes, que ficam mais curtos até o fim; a história cabe numa frase (um juiz adoece e morre) e dela sai uma pergunta que a novela responde por cenas, na ordem em que narra: o que a vida correta tem a ver com a morte.
O que ela oferece é um modo de ler diferente do suspense. O livro começa pelo velório, e o leitor sabe desde a primeira página como acaba; por isso olha o caminho, e a pergunta passa a ser o que a morte faz ver da vida que a precedeu. O tempo da novela encolhe junto com o doente: anos, meses, um dia, uma noite, semanas, três dias e um instante. E os personagens são poucos e nítidos, do colega que se benze e vai jogar vint ao criado Gerássim, o único que não mente.
Algumas cenas ficam: os colegas que pensam nas promoções e sentem alegria porque morreu ele, e não eu; o médico que veste diante do doente o ar que o doente vestia diante dos réus; o silogismo de Caio, correto para Caio e para ninguém mais; o criado que diz que todos vamos morrer, por que não me esforçar?; a luz no lugar da morte. O fim admite duas leituras, religiosa e moral, e o texto sustenta as duas, de modo que o livro rende conversa depois de lido.
Foi publicada em 1886, depois da crise religiosa em que Tolstói passou a rejeitar os próprios romances, entre eles Guerra e Paz e Ana Karênina. Quem a lê vê o escritor depois dessa mudança, em formato curto.