Quem é
Schwartz é colega de Piotr Ivánovitch e de Ivan Ilitch Golovin no tribunal, em cena só no capítulo I e lembrado numa frase do capítulo IV. No velório, o narrador o mostra pelos olhos de Piotr Ivánovitch: suíças à inglesa, figura magra de fraque, uma solenidade elegante que contradiz o caráter brincalhão dele e que, ali, ganha um sal especial. Não diz uma palavra em discurso direto: fala com piscadelas, com as sobrancelhas e com o olhar, e o narrador traduz o que eles dizem.
Trajetória
No capítulo I ele desce a escada da casa do morto, vê Piotr Ivánovitch entrar, para e lhe pisca o olho, como quem diz que Ivan Ilitch se arranjou mal e que eles dois estão melhor. Fica no alto da escada para combinar onde jogar vint naquela noite (O vint) e, com um movimento das sobrancelhas, indica a Piotr a sala do morto. Depois espera-o na sala de passagem, de pernas abertas, brincando com a cartola atrás das costas, e a figura limpa e elegante dele refresca Piotr: aquele homem está acima do abatimento e não se deixa vencer por impressões tristes. Quando a viúva anuncia a missa, inclina-se de modo indefinido, sem aceitar nem recusar. Ao ver Piotr levado pela viúva, pisca-lhe tristemente: lá se vai o vint, arranjam outro parceiro, ou jogam a cinco quando ele se livrar. Pouco depois, na sala cor-de-rosa, quando o medo toma Piotr Ivánovitch, é o rosto de Schwartz que confirma a ideia de costume:
ему на помощь пришла обычная мысль, что это случилось с Иваном Ильичом, а не с ним и что с ним этого случиться не должно и не может, veio em seu socorro a ideia de costume: aquilo tinha acontecido com Ivan Ilitch, e não com ele, e com ele não devia nem podia acontecer.
No capítulo IV, com Ivan Ilitch já doente, os colegas brincam com a desconfiança dele, e o que mais o irrita é Schwartz, pela vivacidade, pela brincadeira e pelo comme il faut, que lembram o próprio Ivan Ilitch dez anos antes.
Temas que encarna
Schwartz encarna a Aparência e realidade no estado mais puro: a forma sem nenhum abalo por dentro, a solenidade de fraque a serviço de um homem que pensa no carteado diante de um caixão. Por isso funciona como espelho nos dois capítulos em que aparece: no capítulo I Piotr Ivánovitch se mede por ele para não se abater, e no capítulo IV Ivan Ilitch se vê nele como era dez anos antes. É o que Ivan Ilitch foi, e o que a doença lhe tira.
O texto não lhe dá pensamento: o que ele quer é a partida, o que teme não aparece, o que sabe é estar acima. A leitura que o reduz a cinismo esbarra num detalhe do capítulo I: a piscadela do vint adiado é triste, e o narrador escolhe a palavra. O decoro dele inclui um gesto de pesar, do tamanho exato que a situação pede, e é isso, e não a falta de pesar, que o torna o retrato do comme il faut, que o capítulo IV nomeia.
Relações
- Piotr Ivánovitch: o colega com quem combina o vint e em quem se apoia contra o abatimento (capítulo I).
- Ivan Ilitch Golovin: o morto do capítulo I e o doente que se irrita com ele no capítulo IV.