Quem é
Vássia, Vassíli Ivánovitch, é o filho mais novo de Ivan Ilitch Golovin e de Prascóvia Fiódorovna Golovina, um dos dois filhos do casal que sobrevivem aos três que morrem pequenos. É ginasiano de treze ou catorze anos no capítulo I, tão parecido com o pai que Piotr Ivánovitch vê nele o pequeno Ivan Ilitch da Escola de Jurisprudência. Quase não fala e quase não é visto: entra nas cenas sem ser notado, e é exatamente por isso que o livro lhe reserva o gesto que coincide com a passagem do pai, no capítulo XII.
Trajetória
No capítulo I, logo depois de Piotr Ivánovitch cumprimentar a irmã dele e o noivo dela, o menino aparece de debaixo da escada, de olhos chorados e com aquele olhar que o narrador atribui aos meninos de treze, catorze anos que já não são inocentes; ao ver o visitante, franze a cara, severo e envergonhado.
No capítulo II ele é objeto de discórdia entre os pais: Ivan Ilitch o queria na Escola de Jurisprudência, onde ele mesmo estudou, e a mãe, de pirraça, o pôs no ginásio. Estuda razoavelmente. No capítulo III tem uma sala de estudo na casa nova e aprende com cuidado, com professores particulares, o que se ensina no ginásio. No capítulo IV, nas implicâncias do pai à mesa, aparece o cotovelo do filho sobre a toalha.
No capítulo VIII, de manhã, o lacaio Piotr conta ao doente que Vassíli Ivánovitch foi ao ginásio. À noite, quando a família vem se despedir antes do teatro, ele entra atrás de Lisa e do noivo dela, sem que ninguém o note, de uniforme novo, de luvas e com olheiras terríveis, cujo sentido Ivan Ilitch conhece. O filho sempre lhe dera pena, e o olhar assustado e compadecido dele lhe metia medo. O narrador diz o que o pai pensa: fora Gerássim, só Vássia parecia entender e ter pena.
No capítulo XII, no fim do terceiro dia de gritos, uma hora antes da morte, ele entra devagar no quarto, o braço do pai que se debate cai sobre a cabeça dele, e o menino o segura, aperta-o contra os lábios e chora. No mesmo instante, diz o texto, Ivan Ilitch cai no buraco e vê a luz (A luz). Abre os olhos, olha o filho e tem pena dele; aponta-o à mulher com o olhar, e tenta pedir perdão:
Он хотел сказать еще «прости», но сказал «пропусти», и, не в силах уже будучи поправиться, махнул рукою, зная, что поймет тот, кому надо, Quis dizer ainda «perdoa», mas disse «deixa passar» e, já sem forças para se corrigir, fez um gesto com a mão, sabendo que entenderia quem precisava entender.
Temas que encarna
Vássia encarna a Compaixão e caridade que não passa pela fala. O livro o põe ao lado de Gerássim no capítulo VIII, os dois únicos que, aos olhos do pai, entendem e têm pena, e no capítulo XII o gesto dele, beijar a mão que cai, chega no mesmo instante em que o pai, preso no saco preto, encontra a passagem. No fim, a pena que Ivan Ilitch sente por outro, e não por si, começa por ele, que sempre lhe dera pena.
O que ele quer o texto não diz; o que sente aparece no rosto, nos olhos chorados do capítulo I e no olhar assustado do capítulo VIII. O que sabe é o que o pai acha que ele sabe, e o pai acerta: no capítulo XII ele entra de mansinho, sozinho, e é o primeiro a tocar o pai. Onde se engana o livro não mostra, porque não lhe dá nenhum julgamento para errar.
Leituras divergentes
O texto sustenta duas leituras do menino. Numa, Vássia é a repetição do pai: é o pequeno Ivan Ilitch do capítulo I, e as olheiras do capítulo VIII, cujo sentido o pai conhece, ligam-no aos atos da juventude que Ivan Ilitch esqueceu no capítulo II, de modo que a mesma vida pode recomeçar nele. Noutra, Vássia é a abertura que a casa não tem: o único da família que tem pena, aquele cujo beijo coincide com a luz, e a quem o pai, no fim, olha com pena dele e não de si. O livro termina antes de dizer qual das duas se cumpre, e o menino sai de cena chorando.
Relações
- Ivan Ilitch Golovin: o pai, de quem é a cópia aos olhos de Piotr Ivánovitch (capítulo I) e cuja mão beija no fim (capítulo XII).
- Prascóvia Fiódorovna Golovina: a mãe, que o pôs no ginásio contra a vontade do pai (capítulo II) e a quem o pai o aponta no último dia (capítulo XII).
- Gerássim: o único, além dele, que parece ao doente entender e ter pena (capítulo VIII).
- Lisa: a irmã, atrás de quem ele entra sem ser notado (capítulo VIII).
- Piotr Ivánovitch: que o vê no velório e reconhece nele o pai menino (capítulo I).