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Tema em A Morte de Ivan Ilitch

Aparência e realidade

O que parece e o que é: hipocrisia, fingimento, máscara social, ilusão, percepção enganada.

O tema na obra

A aparência, na novela, tem um nome que o narrador repete: o decoroso (приличное, tradução nossa), o que fica bem aos olhos das pessoas mais bem situadas. Ivan Ilitch Golovin mede a vida por essa régua do começo ao fim da carreira, e a régua governa também a morte dele: o velório, a doença tratada como incômodo, o teatro. A realidade aparece em poucas coisas que a régua não alcança: o cheiro do cadáver, a dor no flanco, o silêncio da família diante do doente, o criado que diz que todos vão morrer.

No capítulo I, diante do caixão, Piotr Ivánovitch sabe que benzer-se nunca faz mal e lê no rosto do morto algo que não esperava:

На лице было выражение того, что то, что нужно было сделать, сделано, и сделано правильно. Кроме того, в этом выражении был еще упрек или напоминание живым., No rosto havia a expressão de que o que era preciso fazer estava feito, e feito corretamente. Além disso, havia nessa expressão ainda uma censura, ou um lembrete, aos vivos.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No capítulo II o narrador mostra de onde vem a régua de Ivan Ilitch:

он, как муха к свету, тянулся к наивысше поставленным в свете людям, усваивал себе их приемы, их взгляды на жизнь и с ними устанавливал дружеские отношения, ele, como mosca à luz, era atraído pelas pessoas mais bem situadas na sociedade, adotava os modos delas, as suas maneiras de ver a vida, e com elas estabelecia relações de amizade.
Capítulos I a III: O velório e a vida

O casamento, no mesmo capítulo, é decidido por ela:

Иван Ильич женился по обоим соображениям: он делал приятное для себя, приобретая такую жену, и вместе с тем делал то, что наивысше поставленные люди считали правильным., Ivan Ilitch casou-se pelas duas razões: fazia uma coisa agradável para si, adquirindo uma mulher assim, e ao mesmo tempo fazia o que as pessoas mais bem situadas consideravam correto.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No capítulo III, a casa que ele acha única é igual à de toda a gente da mesma espécie:

В сущности же, было то самое, что бывает у всех не совсем богатых людей, но таких, которые хотят быть похожими на богатых и потому только похожи друг на друга, Na verdade, era aquilo mesmo que há na casa de todas as pessoas não muito ricas, mas que querem parecer-se com os ricos e por isso só se parecem umas com as outras.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No mesmo capítulo, o ofício pede excluir o que é vivo:

Во всем этом надо было уметь исключать все то сырое, жизненное, что всегда нарушает правильность течения служебных дел, Em tudo isso era preciso saber excluir tudo o que é cru, vivo, que sempre perturba a regularidade do andamento dos assuntos do serviço.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No capítulo IV ele reconhece no médico a aparência que vestia no tribunal:

Все было точно так же, как в суде. Как он в суде делал вид над подсудимыми, так точно над ним знаменитый доктор делал тоже вид., Era tudo exatamente como no tribunal. Assim como ele, no tribunal, assumia um ar diante dos réus, exatamente assim o médico famoso assumia um ar diante dele.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VIII, a família fala de Sarah Bernhardt, da elegância e do realismo da atriz, a conversa de sempre, até que o noivo da filha olha para o doente e se cala. No capítulo XI, Ivan Ilitch vê na roupa, no corpo e na voz da mulher tudo aquilo de que viveu, e entende que foi engano.

A aparência da novela não esconde um segredo: esconde a morte, e com ela a vida. O narrador do capítulo III diz que a casa de Ivan Ilitch só se parece com as outras; o do capítulo XI diz que o que ele viveu era um engano enorme que esconde a vida e a morte. A realidade, quando chega, não é nenhuma revelação escondida, é o que estava à vista de todos e ninguém nomeava: que ele vai morrer, e que a vida decorosa não o preparou para isso.

Quem o encarna

Ivan Ilitch é a aparência construída com esforço, a sala, a carreira, o casamento correto. Schwartz é a aparência sem nenhum abalo, a solenidade de fraque no velório (capítulo I) que lembra a Ivan Ilitch, doente, ele mesmo dez anos antes (capítulo IV). Prascóvia Fiódorovna Golovina e Lisa mantêm a aparência da casa enquanto ele piora, a temporada, o noivado, o camarote. Gerássim, que leva o urinol sem vergonha e sem fingir, é a realidade sem forma.

Onde aparece

  • Capítulo I: O velório inteiro é feito de gestos decorosos, a cruz, a mão apertada, o pufe rebelde, a pensão, a partida que não se desmarca.
  • Capítulo II: Ivan Ilitch se orienta pelas pessoas mais bem situadas como mosca à luz e casa pelo agradável e pelo correto.
  • Capítulo III: A casa nova, que Ivan Ilitch acha única, é igual à de todos os que querem parecer ricos, e o ofício dele exige excluir o que é vivo.
  • Capítulo IV: O médico famoso assume diante de Ivan Ilitch o ar que ele assumia diante dos réus, e Schwartz o irrita com o comme il faut que já foi dele.
  • Capítulo VI: A sala decorada serve a Ivan Ilitch de biombo contra a morte enquanto ele arruma o álbum.
  • Capítulo VIII: A família vai ver Sarah Bernhardt, e a conversa sobre o realismo da atriz para diante do doente.
  • Capítulo XI: Ivan Ilitch vê na mulher, na filha e no médico tudo aquilo de que viveu, e vê que era engano.

Onde as leituras divergem

A régua de Ivan Ilitch se lê como defeito pessoal ou como forma de uma classe. O capítulo III favorece a segunda (a casa é igual à de todos os que querem parecer ricos, e por isso só se parecem uns com os outros), o capítulo XI a primeira (os impulsos contra o que os de cima chamavam de bom eram dele, e ele os sufocou).

O próprio texto tem as duas coisas na mesma cena do capítulo VIII: a família fala do realismo de uma atriz enquanto evita a realidade que tem diante de si, e o narrador não escolhe entre o ridículo da conversa e o medo que ela esconde.