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Personagem

Ivan Ilitch Golovin

Quem é

Ivan Ilitch Golovin é o homem cuja morte dá título à novela: membro da Câmara Judiciária, morto aos quarenta e cinco anos, em 4 de fevereiro de 1882, segundo o aviso fúnebre que os colegas leem no jornal no capítulo I. Filho de um conselheiro privado de Petersburgo, segundo de três irmãos, formado na Escola de Jurisprudência, passa de funcionário de missões especiais a juiz de instrução, promotor adjunto e promotor (capítulo II) e, depois do ano difícil de 1880, a um posto de cinco mil rublos no ministério da Justiça (capítulo III). É casado com Prascóvia Fiódorovna Golovina e pai de Lisa e de Vássia. O livro o mostra duas vezes: primeiro morto, no caixão do capítulo I, pelos olhos de Piotr Ivánovitch; depois vivo, do começo da carreira ao grito final, do capítulo II ao capítulo XII. A régua com que ele mede tudo cabe em duas palavras que o narrador repete: a vida deve correr de modo agradável e decoroso.

O russo diz приятно и прилично (agradável e decoroso, tradução nossa), e a segunda palavra volta no capítulo VIII, na mentira decorosa que a família não ousa romper diante dele.

Trajetória

No capítulo I ele aparece só como corpo, mais magro, mais bonito e mais significativo do que fora vivo, e o rosto diz duas coisas a quem olha:

На лице было выражение того, что то, что нужно было сделать, сделано, и сделано правильно. Кроме того, в этом выражении был еще упрек или напоминание живым., No rosto havia a expressão de que o que era preciso fazer estava feito, e feito corretamente. Além disso, havia nessa expressão ainda uma censura, ou um lembrete, aos vivos.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No capítulo II o narrador volta ao começo e dá o juízo antes da biografia:

Прошедшая история жизни Ивана Ильича была самая простая и обыкновенная и самая ужасная, A história passada da vida de Ivan Ilitch foi a mais simples, a mais comum e a mais terrível.
Capítulos I a III: O velório e a vida

Já na Escola ele é o que será a vida toda: capaz, alegre, sociável e rigoroso no que considera seu dever, e o dever é o que as pessoas mais bem situadas consideram dever. O narrador dá a imagem que o orienta:

он, как муха к свету, тянулся к наивысше поставленным в свете людям, усваивал себе их приемы, их взгляды на жизнь и с ними устанавливал дружеские отношения, ele, como mosca à luz, era atraído pelas pessoas mais bem situadas na sociedade, adotava os modos delas, as suas maneiras de ver a vida, e com elas estabelecia relações de amizade.
Capítulos I a III: O velório e a vida

Os atos da juventude que lhe davam nojo não são julgados de novo; são esquecidos quando ele vê gente bem situada fazer o mesmo:

он не то что признал их хорошими, но совершенно забыл их и нисколько не огорчался воспоминаниями о них, não é que os tenha considerado bons, mas esqueceu-os por completo e não se afligia nem um pouco com a lembrança deles.
Capítulos I a III: O velório e a vida

Ao sair da Escola leva nos berloques uma medalhinha com a inscrição respice finem (olha o fim). Como juiz de instrução descobre o gosto do poder, que nunca usa com abuso, e a técnica de reduzir qualquer caso ao papel. O casamento com Prascóvia Fiódorovna junta as duas medidas dele:

Иван Ильич женился по обоим соображениям: он делал приятное для себя, приобретая такую жену, и вместе с тем делал то, что наивысше поставленные люди считали правильным., Ivan Ilitch casou-se pelas duas razões: fazia uma coisa agradável para si, adquirindo uma mulher assim, e ao mesmo tempo fazia o que as pessoas mais bem situadas consideravam correto.
Capítulos I a III: O velório e a vida

Quando a mulher, na primeira gravidez, passa a exigir atenção e a fazer cenas, ele conclui que a vida conjugal perturba o agradável e o decoroso e se protege dela com o serviço; em dezessete anos de transferências e promoções, o casal perde três filhos.

No capítulo III, preterido duas vezes em 1880, ele sente pela primeira vez uma angústia insuportável longe do serviço, vai a Petersburgo e volta com o posto de cinco mil rublos. Monta sozinho a casa nova (A sala decorada) e, ao mostrar ao estofador como queria o drapeado, cai da escadinha (A queda e a cortina):

Раз он влез на лесенку, чтобы показать непонимающему обойщику, как он хочет драпировать, оступился и упал, но, как сильный и ловкий человек, удержался, только боком стукнулся об ручку рамы., Uma vez subiu numa escadinha para mostrar ao estofador, que não entendia, como queria o drapeado, pisou em falso e caiu, mas, como homem forte e ágil, segurou-se, e só bateu de lado no puxador do caixilho.
Capítulos I a III: O velório e a vida

O tombo não lhe pesa. A vida volta a correr leve, e o ofício pede excluir tudo o que é vivo:

Во всем этом надо было уметь исключать все то сырое, жизненное, что всегда нарушает правильность течения служебных дел, Em tudo isso era preciso saber excluir tudo o que é cru, vivo, que sempre perturba a regularidade do andamento dos assuntos do serviço.
Capítulos I a III: O velório e a vida

A única alegria que ele tem por verdadeira é um jogo de cartas (O vint):

Радости служебные были радости самолюбия; радости общественные были радости тщеславия; но настоящие радости Ивана Ильича были радости игры в винт., As alegrias do serviço eram alegrias do amor-próprio; as alegrias sociais eram alegrias da vaidade; mas as verdadeiras alegrias de Ivan Ilitch eram as alegrias do jogo de vint.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No capítulo IV o gosto estranho na boca e o peso no flanco estragam o humor e a mesa da família. O médico famoso o trata como ele tratava os réus, e Ivan Ilitch o reconhece:

Все было точно так же, как в суде. Как он в суде делал вид над подсудимыми, так точно над ним знаменитый доктор делал тоже вид., Era tudo exatamente como no tribunal. Assim como ele, no tribunal, assumia um ar diante dos réus, exatamente assim o médico famoso assumia um ar diante dele.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

Ele passa a viver dos remédios e de escutar a dor, consulta outros médicos e, numa noite de vint, perde o slam sem que o sofrimento do parceiro lhe importe. No capítulo V o olhar do cunhado o leva ao espelho e, sozinho à noite, ele entende:

Не в слепой кишке, не в почке дело, а в жизни и… смерти. Да, жизнь была и вот уходит, уходит, и я не могу удержать ее., Não é o apêndice, não é o rim, o caso é a vida e... a morte. Sim, a vida existia, e eis que vai embora, vai embora, e eu não posso detê-la.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VI não consegue aplicar a si o silogismo que aprendera na escola:

Тот пример силлогизма, которому он учился в логике Кизеветера: Кай — человек, люди смертны, потому Кай смертен, казался ему во всю его жизнь правильным только по отношению к Каю, но никак не к нему, Aquele exemplo de silogismo que estudara na lógica de Kiesewetter, Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe a vida inteira correto somente em relação a Caio, mas de modo nenhum em relação a ele.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

Procura os biombos de antes, o tribunal e a sala de visitas, e a dor os atravessa. Diante da cortina, chega à conclusão que o horroriza:

И правда, что здесь, на этой гардине, я, как на штурме, потерял жизнь. Неужели? Как ужасно и как глупо!, E é verdade que aqui, nesta cortina, eu perdi a vida como num assalto. Será possível? Que horror, e que estupidez!
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VII, no terceiro mês, o tormento é a mentira de todos e, junto com ela, o desejo de ser consolado como criança, que ele mesmo esconde quando o colega Shebek vem visitá-lo:

Главное мучение Ивана Ильича была ложь, — та, всеми почему-то признанная ложь, что он только болен, а не умирает, O principal tormento de Ivan Ilitch era a mentira, aquela mentira, por algum motivo aceita por todos, de que ele estava apenas doente, e não morrendo.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira
хотелось того, чтоб его, как дитя больное, пожалел бы кто-нибудь. Ему хотелось, чтоб его приласкали, поцеловали, поплакали бы над ним, как ласкают и утешают детей., queria que alguém tivesse pena dele como de uma criança doente. Queria que o acariciassem, beijassem, chorassem por ele, como se acaricia e consola as crianças.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

Só Gerássim o alivia, segurando-lhe as pernas (As pernas nos ombros de Gerássim).

No capítulo VIII o dia inteiro é de médicos, e à noite a família, que ele mesmo animara a tomar o camarote, vai ver Sarah Bernhardt. No capítulo IX o ópio o empurra para dentro de um saco preto (O saco preto), ele chora pela crueldade e pela ausência de Deus, a voz da alma lhe pergunta se viveu bem e agradavelmente, e ele afasta a única hipótese que explicaria o horror:

«Может быть, я жил не так, как должно?» — приходило ему вдруг в голову. «Но как же не так, когда я делал все как следует?», Talvez eu tenha vivido não como se devia? vinha-lhe de repente à cabeça. Mas como não, se eu fiz tudo como se deve? dizia a si mesmo.
Capítulos VIII a XII: A morte

No capítulo X, de rosto voltado para o encosto do sofá, vive só da memória, que corre de volta até a infância (A luz):

Одна точка светлая там, назади, в начале жизни, а потом все чернее и чернее и все быстрее и быстрее., Um ponto luminoso lá atrás, no começo da vida, e depois tudo cada vez mais negro, e cada vez mais rápido.
Capítulos VIII a XII: A morte

No capítulo XI, diante do rosto sonolento de Gerássim, a hipótese que ele afastava se impõe:

а что, как и в самом деле вся моя жизнь, сознательная жизнь, была «не то», e se de fato toda a minha vida, a minha vida consciente, não foi «aquilo»?
Capítulos VIII a XII: A morte

Aceita confessar e comungar a pedido da mulher, sente alívio e esperança, e a pergunta dela, se não está melhor, devolve-lhe o ódio. No capítulo XII grita por três dias, preso no saco preto pela convicção de que a vida dele foi boa:

Пролезть же ему мешает признанье того, что жизнь его была хорошая., O que o impede de passar é o reconhecimento de que a sua vida foi boa.
Capítulos VIII a XII: A morte

No fim do terceiro dia o filho lhe beija a mão, ele tem pena do menino e da mulher, tenta pedir perdão e diz outra palavra:

Он хотел сказать еще «прости», но сказал «пропусти», и, не в силах уже будучи поправиться, махнул рукою, зная, что поймет тот, кому надо, Quis dizer ainda «perdoa», mas disse «deixa passar» e, já sem forças para se corrigir, fez um gesto com a mão, sabendo que entenderia quem precisava entender.
Capítulos VIII a XII: A morte

Procura então o medo da morte e não o encontra:

Он искал своего прежнего привычного страха смерти и не находил его. Где она? Какая смерть? Страха никакого не было, потому что и смерти не было. Вместо смерти был свет., Ele procurou o seu medo habitual da morte, o de antes, e não o encontrou. Onde ela está? Que morte? Não havia medo nenhum, porque também não havia morte. Em lugar da morte havia luz.
Capítulos VIII a XII: A morte

Temas que encarna

Ivan Ilitch encarna a vida conduzida inteira por uma régua de fora, e por isso é o melhor juiz dos outros e o pior de si. A técnica que aprende como juiz de instrução e domina no capítulo III, separar o caso do que é vivo, é a mesma que o médico usa nele no capítulo IV, e a defesa que o prende no saco preto no capítulo XII é a lembrança de ter feito tudo como se devia, isto é, como os de cima ensinavam. O livro deixa que ele atribua a doença a uma queda ao pendurar cortinas, o gesto mais característico da vida que levou, e só o deixa passar quando a atenção dele sai de si e vai para o filho e a mulher.

Até o capítulo IX ele quer uma coisa só: viver como antes, bem e agradavelmente. O que teme não é apenas a dor, é a pergunta da voz da alma, porque responder que viveu errado o obrigaria a julgar a vida com um critério que ele não tem. O que sabe é sempre técnico: lê o ar de importância do médico porque o vestiu no tribunal, sabe que a família mente porque mentiu a vida inteira em nome do decoro. Onde se engana é em achar que a correção o põe a salvo, e o texto mostra o engano desde a medalhinha do capítulo II, que manda olhar o fim a quem nunca olha.

A novela é a história da Morte dele, mas o movimento que a organiza é o da Verdade e mentira: primeiro ele mente aos outros e a si, depois sofre a mentira dos outros, e por último deixa de mentir a si mesmo, no capítulo XI e no capítulo XII. A pergunta pelo Sentido da vida nasce só nesse terceiro tempo.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras da culpa dele. Numa, Ivan Ilitch é o homem comum, e o horror está no que a vida dele tem de comum: o narrador chama a vida dele de a mais simples, a mais comum e a mais terrível no capítulo II, os colegas do capítulo I vivem do mesmo jeito, e a casa dele, no capítulo III, é igual à de todos os que querem parecer ricos. Noutra, ele responde pelo que sufocou: no capítulo XI ele mesmo admite que os impulsos quase imperceptíveis contra o que os de cima chamavam de bom, que afastava de si, podiam ser o verdadeiro, e no capítulo IX recusa a pergunta que a voz da alma lhe faz. A primeira leitura faz do livro o retrato de uma classe; a segunda, o caso de um homem que teve a escolha diante de si e a afastou. O desfecho do capítulo XII cabe nas duas, porque a passagem vem quando ele larga a justificação, e não quando é absolvido.

Também diverge o peso da comunhão do capítulo XI. Lida como etapa, ela traz alívio e esperança e prepara a luz do capítulo seguinte; lida como mais um biombo, a esperança que ela traz volta logo ao apêndice e à operação proposta, e o que a desfaz é uma pergunta da mulher. O texto registra as duas coisas e não as ordena.

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