Quem é
Piotr Ivánovitch é colega de Ivan Ilitch Golovin na Câmara Judiciária e o primeiro a saber da morte: no capítulo I, folheando a Gazeta recém-chegada no intervalo de uma sessão, lê o aviso fúnebre e o anuncia aos outros. Fora colega do morto na Escola de Jurisprudência, conhecera-o menino alegre, colegial e depois parceiro de jogo, e se julgava devedor dele. O velório inteiro, a parte mais longa do capítulo I, é contado pelos olhos dele, e por isso ele é a porta de entrada do leitor no livro: o primeiro a olhar o morto é um vivo que não quer pensar na morte.
Trajetória
No gabinete, a primeira ideia dele é pedir a transferência do cunhado de Kaluga, o que deixaria a mulher contente; em voz alta diz que já esperava e que é uma pena. O narrador generaliza o que sente o grupo inteiro:
самый факт смерти близкого знакомого вызвал во всех, узнавших про нее, как всегда, чувство радости о том, что умер он, а не я, o próprio fato da morte de um conhecido próximo despertou em todos os que souberam dela, como sempre, o sentimento de alegria por ter morrido ele, e não eu.
Conta a notícia à mulher no jantar, veste a casaca e vai à casa do morto. Na escada, Schwartz lhe pisca o olho, como quem diz que o morto se arranjou mal, e para no alto para combinar a partida de vint (O vint). Na sala do morto ele não sabe o que fazer, benze-se e se inclina um pouco, olha o rosto e lê ali uma censura aos vivos, que lhe parece fora de lugar; benze-se de novo, depressa demais para o decoro, e sai. A figura de Schwartz o refresca. Prascóvia Fiódorovna Golovina o leva à sala cor-de-rosa (A sala decorada), onde ele luta com um pufe de molas estragadas, e, ao ouvir que o morto gritou três dias, sente medo por si, um medo que passa logo:
ему на помощь пришла обычная мысль, что это случилось с Иваном Ильичом, а не с ним и что с ним этого случиться не должно и не может, veio em seu socorro a ideia de costume: aquilo tinha acontecido com Ivan Ilitch, e não com ele, e com ele não devia nem podia acontecer.
Acalmado, pergunta pelos pormenores da agonia com interesse, responde à consulta da viúva sobre a pensão no mesmo registro em que ela a faz, e sai. Na sala de jantar cruza com Lisa, que o cumprimenta como se ele tivesse culpa de alguma coisa, e com Vássia, tão parecido com o pai que lhe lembra o Ivan Ilitch da Escola de Jurisprudência. Assiste à missa sem olhar o morto e sai entre os primeiros. Na antessala, Gerássim lhe responde que todos vão parar lá. Lá fora, respira com prazer o ar limpo e chega à casa de Fiódor Vassílievitch a tempo de entrar como quinto na partida.
Depois do capítulo I ele só reaparece de passagem. No capítulo IV, Prascóvia Fiódorovna conta aos conhecidos que o marido fica no vint até uma da manhã, e ele retruca que foi uma vez só, na casa de Piotr Ivánovitch. No capítulo V, depois do olhar do cunhado, Ivan Ilitch decide ir à casa dele, porque ele tem um amigo médico, e é por esse amigo que ouve a explicação do apêndice que lhe dá uma noite de esperança antes da descoberta.
Temas que encarna
Piotr Ivánovitch encarna a Morte vista de fora, pelo vivo que não quer pensar nela. Cada gesto dele no capítulo I é uma forma de decoro que o poupa: o cálculo do cunhado, a cruz no ângulo certo, a mão apertada na hora certa, a ideia de costume que devolve a morte a Ivan Ilitch, a partida que não se desmarca. É a mesma defesa que o morto usará contra o silogismo de Caio no capítulo VI, e o livro a mostra primeiro num homem saudável, para que o leitor a reconheça depois no doente.
O que ele quer é cumprir as obrigações sem que elas lhe custem a noite; o que teme aparece num instante, quando a morte deixa de ser do outro; o que sabe é o roteiro de cada situação, e o narrador insiste em que ele o sabe (benzer-se nunca faz mal, apertar a mão, suspirar, dizer creia-me). Onde se engana o texto deixa ao leitor: ele acha que o medo se resolve com a ideia de costume, e o livro inteiro que segue é a história de um homem em quem essa ideia parou de funcionar.
Leituras divergentes
Ele pode ser lido como caricatura do colega indiferente ou como o homem comum que o narrador não condena, e o capítulo I sustenta as duas. Há o cálculo do cunhado, o pufe, a pensão e o carteado; mas há também a dívida que ele sente com o morto, a ida ao velório, o medo verdadeiro diante do relato dos gritos e o desvio do olhar durante a missa, que é incômodo e não desprezo. O narrador o põe dentro de um como sempre que inclui todo mundo que soube da morte, e com isso inclui o leitor.
Relações
- Ivan Ilitch Golovin: colega da Escola de Jurisprudência e da Câmara, parceiro de vint (capítulo I, capítulo IV), que o procura por causa do amigo médico (capítulo V).
- Schwartz: o colega com quem combina a partida no velório e em quem se apoia contra o abatimento (capítulo I).
- Prascóvia Fiódorovna Golovina: a viúva que lhe pede conselho sobre a pensão (capítulo I).
- Gerássim: o criado que lhe responde sobre a morte na saída (capítulo I).
- Lisa e Vássia: os filhos do morto, que ele encontra antes da missa (capítulo I).