Clavis Libri

Personagem

Prascóvia Fiódorovna Golovina

Quem é

Prascóvia Fiódorovna Golovina, nascida Míkhel, é a mulher de Ivan Ilitch Golovin. No capítulo II é a moça mais atraente, inteligente e brilhante do círculo dele na cidade de província, de boa família nobre, nada feia e com um pequeno patrimônio, que se apaixona por ele dançando no fim das noites. Casados, perdem três filhos e criam Lisa e Vássia. Quase tudo o que o leitor sabe dela vem do lado do marido, com a régua dele, e o narrador marca isso: no capítulo II a irritação dela parece sem motivo a Ivan Ilitch, e o texto não diz se o era. Ela abre o livro como viúva, no capítulo I, e o fecha ao pé da cama, de boca aberta e lágrimas no rosto, no capítulo XII.

Trajetória

No capítulo I, baixa, gorda, toda de preto, recebe Piotr Ivánovitch com a frase que o decoro pede, leva-o à sala de cretone cor-de-rosa (A sala decorada), discute com o copeiro Sokolov o preço do lugar no cemitério, diz que acha fingimento afirmar que a dor impede de cuidar das coisas práticas e conta que o marido gritou três dias sem parar. Então chega ao assunto pelo qual o chamou:

Она сделала вид, что спрашивает у Петра Ивановича совета о пенсионе [...] но что ей хотелось узнать, нельзя ли как-нибудь вытянуть еще побольше денег, Ela fingiu pedir a Piotr Ivánovitch um conselho sobre a pensão [...] mas o que queria saber era se não haveria algum jeito de arrancar ainda mais dinheiro.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No capítulo II o casamento corre bem até a primeira gravidez; depois ela passa a ter ciúmes, a exigir atenção e a fazer cenas, e insulta o marido com a decisão evidente de não parar até que ele fique em casa e se aborreça como ela. Quando o serviço o afasta, ela o censura por todas as desgraças da família, a morte de dois filhos entre elas, e põe o menino no ginásio, contra a vontade dele, de pirraça.

No capítulo III passa o verão de 1880 com o marido na propriedade do irmão; quando ele volta de Petersburgo com o novo posto, ela finge acreditar em tudo o que ele conta, não o contradiz em nada e faz planos que são os dele, e o casal faz as pazes. Depois vem o baile, a conta de quarenta e cinco rublos dos doces, e ela o chama de imbecil e molenga.

No capítulo IV percebe que o mau humor dele à mesa é um estado doentio, para de responder e faz disso um grande mérito. O narrador mostra por dentro o que ela sente:

Решив, что муж ее имеет ужасный характер и сделал несчастие ее жизни, она стала жалеть себя. И чем больше она жалела себя, тем больше ненавидела мужа. Она стала желать, чтоб он умер, но не могла этого желать, потому что тогда не было бы жалованья., Tendo decidido que o marido tinha um gênio terrível e fizera a infelicidade da vida dela, começou a ter pena de si mesma. E quanto mais pena tinha de si, mais odiava o marido. Começou a desejar que ele morresse, mas não podia desejá-lo, porque então não haveria salário.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

Ela exige que ele vá ao médico famoso, ouve o relato da consulta só até a metade porque a filha entra de chapéu para sair com ela, e diante dos conhecidos fixa uma versão: ele não segue o tratamento, come esturjão, fica no vint até uma da manhã e assim atormenta a família.

No capítulo V, quando o irmão diz que Ivan Ilitch é um homem morto, ela responde que ninguém sabe o que ele tem. À noite ouve o barulho no quarto dele, oferece chamar o médico famoso sem poupar dinheiro e o beija na testa:

Он ненавидел ее всеми силами души в то время, как она целовала его, и делал усилия, чтобы не оттолкнуть ее., Ele a odiava com todas as forças da alma enquanto ela o beijava, e fazia esforço para não empurrá-la.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VI é ela quem diz que ele deixe os criados mudarem o álbum de lugar, que vai se machucar de novo, e a frase faz a dor atravessar o biombo da sala (A queda e a cortina).

No capítulo VIII conta ao médico que o marido não obedece e fica com as pernas nos ombros de Gerássim (As pernas nos ombros de Gerássim), anuncia que chamou o médico famoso dizendo que o faz por si, e chora ao sair para pagar os honorários, depois de ver o olhar de esperança do marido. À noite vai ao teatro com a filha e o noivo, dizendo que preferia ficar. No capítulo IX volta tarde e quer mandar Gerássim embora para ficar ela com o marido, e ele não deixa.

No capítulo XI entra para dar a notícia do pedido de casamento de Lisa, recebe um olhar de ódio antes de dá-la, pede que ele se confesse e comungue, por ela, e depois da comunhão pergunta se ele não está melhor. A pergunta faz o contrário do que ela queria: Ivan Ilitch vê na roupa, no corpo, no rosto e na voz dela tudo aquilo de que viveu. No capítulo XII é dela, e do filho, que o marido tem pena no fim:

Он хотел сказать еще «прости», но сказал «пропусти», и, не в силах уже будучи поправиться, махнул рукою, зная, что поймет тот, кому надо, Quis dizer ainda «perdoa», mas disse «deixa passar» e, já sem forças para se corrigir, fez um gesto com a mão, sabendo que entenderia quem precisava entender.
Capítulos VIII a XII: A morte

Temas que encarna

Prascóvia Fiódorovna encarna a Aparência e realidade do lado da casa: ela não mente mais do que o marido, mente na mesma língua dele. A consulta sobre a pensão no capítulo I, a paciência que vira mérito no capítulo IV, a versão para os conhecidos e o médico caro oferecido no capítulo V são as formas decorosas que Ivan Ilitch aprendeu e praticou. O que ele odeia nela a partir do capítulo V é a imagem da própria vida, e é isso que o capítulo XI diz quando ele se vê nela.

O que ela quer é que a vida da casa continue: o salário, o noivado da filha, o camarote. O que teme o texto diz no capítulo IV: que o marido morra e o salário acabe, e ao mesmo tempo que ele viva e a infelicidade dela continue. Sabe mais do que diz, a começar pela pensão; onde se engana é em tratar como doença o que ele já sabe que é morte, e por isso cada gesto de cuidado dela chega a ele como insulto, parte da Verdade e mentira que o cerca.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras dela. Numa, é a figura que o livro simplifica: vista sempre por Ivan Ilitch ou por Piotr Ivánovitch, ela só calcula, a pensão no capítulo I, o salário no capítulo IV, o camarote no capítulo VIII. Noutra, o livro deixa frestas que a complicam: chora ao pagar o médico famoso no capítulo VIII, depois do olhar de esperança do marido; quer passar a noite com ele no capítulo IX; e no capítulo XII está ao lado da cama, em lágrimas, quando ele já não grita. A segunda leitura não a absolve, mostra que o decoro também a prendia, e que a pena que o marido sente no fim alcança alguém que talvez tivesse pena dele do único jeito que sabia ter.

Relações