Clavis Libri

Personagem

Gerássim

Quem é

Gerássim é o criado de copa da casa dos Golovin, um jovem mujique limpo, viçoso, engordado pela comida da cidade, sempre alegre e claro, como o descreve o capítulo VII. É a personagem de menos falas e de mais peso do livro: aparece no velório do capítulo I como o enfermeiro de que Ivan Ilitch Golovin gostava especialmente, e é o único que, nos meses da doença, não mente ao doente. Segura as pernas do patrão nos ombros noites inteiras (As pernas nos ombros de Gerássim), fala da morte como coisa de todos e, sem uma palavra, está na origem da suspeita que decide o fim, no capítulo XI.

O russo o chama de буфетный мужик (mujique de copa, tradução nossa): o camponês que serve na copa de uma casa da cidade, a mesma condição que o capítulo I lhe dá quando o chama de mujique.

Trajetória

No capítulo I passa pela sala do morto com passos leves, espalhando alguma coisa pelo chão, e só então Piotr Ivánovitch sente o cheiro do cadáver e se lembra de tê-lo visto fazendo as vezes de enfermeiro. Na saída, remexe os casacos com as mãos fortes até achar o do visitante, que lhe faz uma pergunta só para dizer alguma coisa:

Что, брат Герасим? — сказал Петр Иванович, чтобы сказать что-нибудь. — Жалко? — Божья воля. Все там же будем, E então, irmão Gerássim? disse Piotr Ivánovitch, para dizer alguma coisa. Dá pena? É a vontade de Deus. Todos vamos parar lá.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No capítulo IV aparece só de passagem: Prascóvia Fiódorovna Golovina diz que vai mandá-lo à farmácia com a receita do médico famoso.

No capítulo VII o texto o põe no lugar mais baixo da casa, e é ali que ele vira o consolo do doente: quem leva o urinol é ele. Um dia, sem forças para subir as calças, Ivan Ilitch cai numa poltrona e olha com horror as coxas nuas e fracas. Gerássim entra de botas grossas, cheirando a alcatrão e a ar de inverno, de avental limpo e mangas arregaçadas, e, sem olhar o doente, contendo para não ofendê-lo a alegria de viver que lhe brilha no rosto, vai até o urinol. Quando Ivan Ilitch o chama, estremece, com medo de ter errado em alguma coisa. O patrão se desculpa pelo serviço desagradável, e ele sorri e pergunta por que não haveria de se esforçar, estando o patrão doente. Leva-o quase no colo até o sofá, põe-lhe as pernas numa cadeira e depois, a pedido dele, mais alto, e Ivan Ilitch sente menos dor. Daí em diante é chamado para segurar as pernas nos ombros e para conversar, passa noites assim, diz que dorme depois e às vezes passa a tratar o patrão por tu. Quando Ivan Ilitch o manda descansar, diz o que ninguém mais diz:

Все умирать будем. Отчего же не потрудиться?, Todos vamos morrer. Por que não me esforçar?
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

O narrador explica a frase: ele não se cansa porque faz o trabalho por um homem que está morrendo e espera que, quando chegar a vez dele, alguém faça o mesmo. E marca o contraste com a casa inteira:

Главное мучение Ивана Ильича была ложь, — та, всеми почему-то признанная ложь, что он только болен, а не умирает, O principal tormento de Ivan Ilitch era a mentira, aquela mentira, por algum motivo aceita por todos, de que ele estava apenas doente, e não morrendo.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VIII a manhã só é manhã porque Gerássim saiu e o lacaio Piotr entrou; Prascóvia Fiódorovna se queixa ao médico das pernas postas nos ombros dele; o narrador diz que, fora Gerássim, só Vássia parecia a Ivan Ilitch entender e ter pena; e quando a família sai para o teatro, o doente manda chamá-lo. No capítulo IX a mulher quer dispensá-lo para passar ela a noite, e Ivan Ilitch não deixa; depois do ópio, acorda com Gerássim cochilando ao pé da cama, paciente, com as pernas magras do patrão sobre os ombros. Ivan Ilitch o manda sair e só então, sozinho, chora como criança.

No capítulo XI ele não está em cena, mas é por ele que a cena começa: na noite anterior, olhando o rosto sonolento, bondoso e de maçãs salientes do criado, Ivan Ilitch deixa pela primeira vez de afastar a pergunta decisiva:

а что, как и в самом деле вся моя жизнь, сознательная жизнь, была «не то», e se de fato toda a minha vida, a minha vida consciente, não foi «aquilo»?
Capítulos VIII a XII: A morte

Temas que encarna

Gerássim encarna a Compaixão e caridade sem a mentira que a casa chama de cuidado. Ele não poupa o doente da verdade e não se poupa do serviço sujo, e as duas coisas vêm da mesma frase: se todos vamos morrer, cuidar de quem morre é o que cada um espera receber. O livro o põe nas duas pontas: dele é a única fala franca sobre a morte no velório do capítulo I, e é diante do rosto dele que nasce, no capítulo XI, a suspeita de que a vida inteira não foi aquilo.

O alívio físico e o moral chegam juntos. Com as pernas erguidas Ivan Ilitch quase não sente dor, no capítulo VII, e é também só com Gerássim que ele se sente bem, porque é o único que entende a situação e tem pena dele. A saúde e a alegria dos outros ofendem o doente; as de Gerássim o acalmam, porque não vêm acompanhadas de fingimento. Ele é o polo da Verdade e mentira que a família evita.

O que ele quer o texto quase não diz, e mal lhe dá pensamento próprio: ele existe pelo que faz e pelo que Ivan Ilitch vê nele. O que sabe é o que todos sabem e calam, que o patrão está morrendo; a diferença é que ele não acha necessário esconder. Onde se engana o livro não mostra; a única coisa que o faz estremecer, no capítulo VII, é o medo de ter falhado no serviço. Ele trata a Morte do patrão como a dele mesmo, e é isso que os colegas do capítulo I não conseguem.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras da bondade dele. Numa, é a compaixão cristã simples do camponês para quem a morte é a vontade de Deus, como ele diz no capítulo I, e o serviço ao moribundo é obra que se faz sem pesar. Noutra, mais seca, é reciprocidade: o narrador do capítulo VII explica que ele não se cansa porque espera que alguém faça o mesmo por ele, e a saúde e a juventude que o texto não para de mostrar o põem longe do que vê. As duas cabem no mesmo homem, e a segunda não diminui a primeira: mostra que a caridade dele não precisa esquecer a própria morte para existir, ao contrário da calma dos colegas do capítulo I, que só suportam a morte de Ivan Ilitch pensando que não é a deles.

Também se pode perguntar se Gerássim é personagem ou é função, e o texto dá razões para as duas respostas. Ele quase não tem história nem desejo, o que o aproxima de figura exemplar; mas o livro o descreve com uma precisão física (o cheiro de alcatrão, as mangas arregaçadas, o susto de ter errado, o cochilo paciente) que não dá a mais ninguém da casa.

Relações