Memórias do Subsolo fala do que sobra de um homem quando ele recusa a razão, o cálculo e a utopia e não tem nada para pôr no lugar: um narrador lúcido e paralisado, que defende a liberdade de querer o que quiser e a usa, sobretudo, para ferir a si mesmo e aos outros.
Na Primeira Parte, o homem do subsolo argumenta que o cálculo do interesse não esgota o homem. Para ele o homem precisa de "um querer independente, custe o que custar essa independência", ainda que esse querer o prejudique, e por isso recusa o palácio de cristal, a utopia em que tudo estaria calculado. Diz também que o sofrimento "é a única causa da consciência".
Na Segunda Parte, o argumento ganha corpo em três cenas de humilhação, e o livro mostra o custo da tese: o narrador sabe o que sente, ensaia cada gesto como cena de livro e age pior do que o roteiro. Liza, a moça que o escuta, responde ao que ele sente e não ao que ele faz, e é isso que ele não suporta.
Antes do texto, Dostoiévski avisa que o narrador é inventado, mas que pessoas como ele "não só podem, mas até devem existir em nossa sociedade". O livro pergunta, então, o que acontece quando a lucidez não leva a nenhuma ação.