O homem do subsolo é o narrador sem nome: um ex-funcionário de quarenta anos que escreve de um canto de São Petersburgo e que, antes de dizer qualquer outra coisa, se apresenta pelos defeitos. A primeira frase é "Sou um homem doente… Sou um homem mau. Sou um homem pouco atraente."
Ele conta que foi assessor colegial, posto médio do funcionalismo imperial, que serviu só para ter o que comer, herdou seis mil rublos de um parente distante e se aposentou na hora. Vive num quarto ruim nos arredores, com uma criada velha, e sabe que o clima da cidade lhe faz mal e que a vida ali é cara para o que tem, e fica. Escreve para "senhores" que ele mesmo inventa e desmente no fim.
Logo depois de se chamar de mau, desmente a apresentação: mentiu, e nunca conseguiu ser coisa alguma, "nem mau, nem bom, nem canalha, nem honesto, nem herói, nem inseto". A Segunda Parte o mostra aos vinte e quatro anos, solitário e orgulhoso, repetindo em atos o que a primeira argumenta.
Antes de ele falar, Dostoiévski avisa que o personagem é inventado, mas que gente assim existe. Por isso o homem do subsolo é lido ao mesmo tempo como indivíduo e como tipo, e o título que o nomeia, sem nome próprio, aponta para o segundo.