Pode ser, com uma ressalva: é curto, tem cerca de 140 páginas, e traz o homem do subsolo inteiro pela primeira vez, mas a Primeira Parte é um monólogo sem enredo, que muita gente acha áspero. Quem aceita isso entra no livro que prepara os grandes romances do autor.
A favor: é um livro de duas partes bem distintas, e a segunda, cerca de duas vezes mais longa que a primeira, é narrativa, com cenas, diálogos e personagens como Liza, Zvierkóv e Apolón. O narrador é o tipo que voltará, repartido, nos grandes romances seguintes, e conhecê-lo aqui ajuda a reconhecê-lo depois.
Contra: o narrador é desagradável de propósito, ataca o leitor, se contradiz e, no fim da Primeira Parte, diz que não crê no que escreveu. Não há ninguém para torcer, e a Primeira Parte pede paciência com argumentos que se desmancham no capítulo XI.
Uma dica é não tentar fechar o argumento da Primeira Parte, porque ele mesmo o desmente. Leia-a como a voz de um homem, e não como uma tese, e deixe que a Segunda Parte mostre o que a voz custa a quem convive com ela. Quem prefere um romance de enredo pode começar por outro Dostoiévski e voltar a este depois.