O muro de pedra é a imagem com que o homem do subsolo nomeia o limite que as leis da natureza, as ciências naturais e a matemática põem ao homem: o impossível, diante do qual outros se acalmam e ele não.
No capítulo III, o homem de ação, quando a vingança o toma, avança como um touro de chifres baixos e só um muro o detém, diante do qual cede com sinceridade, porque o muro lhe parece uma solução que tranquiliza. O narrador não cede e não rompe: "É claro que não vou romper um muro desses com a testa, se realmente não tiver força para romper, mas também não vou me conformar com ele só porque tenho diante de mim um muro de pedra e minhas forças não bastaram."
Ele separa, assim, duas coisas que o homem de ação junta: não conseguir vencer o muro e aceitá-lo. É a menor forma de resistência e a única que tem. O muro volta no capítulo V, quando a ofensa vira fatum, como uma dor de dentes de que ninguém é culpado, e só resta bater nele; e no capítulo IX, sob o nome de dois e dois são quatro. Na Segunda Parte, a palavra aparece em outro sentido: o homem decente do seu tempo é covarde e escravo, e os valentes só o são até certo muro.
O texto deixa duas leituras abertas: a dignidade de quem não se dobra ao que o esmaga, ou a teimosia estéril de quem recusa um muro que continua de pé.