A neve molhada é o tempo e o título da Segunda Parte: uma precipitação entre a neve e a água, amarela e turva, que não congela nem escorre, só suja, e que o homem do subsolo escolhe como pretexto para contar a lembrança que não o larga.
No fim da Primeira Parte, ele escreve: "Hoje cai neve, quase molhada, amarela, turva." A neve lhe trouxe à memória um episódio antigo, e ele decide: "Pois então que seja uma narrativa a propósito da neve molhada." O título da Segunda Parte, "A propósito da neve molhada", nasce dessa frase.
Dentro da lembrança a neve acompanha cada passo: cai sobre o cocheiro e sobre a égua que tosse, derrete sob a gravata do narrador a caminho da casa de Liza, estende-se quase vertical na rua deserta depois que ela vai embora. Entra também na fala dele. Para assustar Liza, descreve um enterro com neve molhada, coveiros xingando e água na cova, e deixa escapar, entre parênteses, que nunca viu aquilo: "Nem uma vez eu vira aquilo, e nunca estivera em Vólkovo, só ouvira contar."
O texto deixa duas leituras abertas: a neve é um pretexto banal para começar a contar, ou o primeiro sinal de que a lembrança tem mais poder sobre ele do que o argumento.