A tecla de piano é a imagem de um homem reduzido a peça de mecanismo, cujos atos seriam tocados de fora pelas leis da natureza. O homem do subsolo a usa para dizer o que o homem seria se houvesse uma fórmula do seu querer, e para defender o ato que prova que ele não é tecla.
No capítulo VII, a ciência do futuro ensinará ao homem que ele não tem vontade nem capricho, que é uma tecla de piano ou um pino de órgão. No VIII, o narrador leva a hipótese ao fim: se um dia se achar a fórmula dos nossos quereres, o homem "se transformará de homem em pino de órgão ou coisa parecida", pois o que é um homem sem desejos, sem vontade e sem quereres?
A resposta é o ato sem cálculo. O homem, mesmo coberto de bens, faria por ingratidão alguma sujeira e desejaria o absurdo mais destrutivo, para provar que é gente: "vai se convencer de que é um homem, e não uma tecla de piano!" Se faltarem meios, inventará destruição, caos e sofrimento, e lançará uma maldição.
A imagem é a forma do medo do narrador: ser previsível. Duas leituras: o heroísmo da recusa, ou a irrisão de um homem que só se afirma quando perde. Na Segunda Parte o gesto volta em miniatura: ele decide não pagar o salário de Apolón só para provar que pode, e ensaia dizer que não quer "porque assim eu quero".