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Personagem

Zvierkóv

Quem é

Zvierkóv é o colega de escola do homem do subsolo em cuja homenagem acontece o jantar do Hôtel de Paris. Oficial, parte para servir numa província distante, e os antigos colegas se cotizam para lhe dar um jantar de despedida (capítulo III da Segunda Parte). Na escola era um menino bonito e vivaz, de quem todos gostavam, estudava mal e saiu bem da escola graças a proteção; no último ano herdou duzentas almas e passou a fanfarronar. O narrador o descreve como vulgar no mais alto grau e, ao mesmo tempo, como bom rapaz, mesmo quando se gabava, e conta que até os que se diziam cheios de honra faziam festa a ele, não por interesse, mas por ele ser um favorecido da natureza.

O sobrenome vem de zvier, a palavra russa para animal selvagem.

Tudo o que se sabe dele passa pelo narrador, que o odeia desde a escola. Odeia a voz segura, a admiração pelas próprias piadas, o rosto bonito e tolo (pelo qual, diz, trocaria de bom grado o seu, inteligente) e as maneiras de oficial dos anos quarenta. Por isso Zvierkóv chega ao leitor visto de baixo, e o que ele pensa, quer ou teme só aparece em gestos.

Trajetória

No capítulo III da Segunda Parte, antes de ele aparecer, a escola dá a medida da relação. Uma vez o narrador, que era calado, investiu contra ele quando se gabou de que nenhuma camponesa de sua aldeia escaparia ao direito de senhor; os outros aplaudiram a bravata, e ele investiu por isso; venceu a discussão, mas Zvierkóv riu e ficou com o riso do seu lado, sem rancor, e depois o venceu outras vezes, de passagem. Anos depois deixou de cumprimentá-lo na rua, e o narrador supõe que fosse por medo de se comprometer. Vê-o uma vez no teatro, de alamares, curvando-se diante das filhas de um general antigo, e nos anos seguintes o vê decair, inchar e engordar, a ponto de prever que aos trinta estará flácido. É esse o homem a quem o narrador, ao se convidar para o jantar, espera impressionar junto com os demais.

No capítulo IV da Segunda Parte Zvierkóv entra à frente dos outros, cumprimenta com uma amabilidade cautelosa, quase de general, diz com ceceio e vogais arrastadas que se admira do desejo do narrador de juntar-se a eles, e o interroga sobre onde trabalha, por que deixou o emprego, quanto ganha. O narrador esperava piadas e recebe proteção, e a hipótese de que Zvierkóv se julgue incomparavelmente superior sem querer ofender o sufoca mais que um insulto. Zvierkóv acha o salário modesto, nota que ele emagreceu e mudou, olha-lhe a roupa, impõe silêncio quando a discussão esquenta e conta como quase se casou anteontem, uma história cheia de generais e camaristas, em que ele ocupa quase o primeiro lugar. Mais tarde, no sofá, recosta-se com um pé na mesinha e cumpre o que Fierfítchkin previra: põe à mesa três garrafas suas.

No brinde, o narrador faz um discurso sem plano contra a frase e os fraseadores e termina bebendo à saúde dele. Zvierkóv se levanta, se curva, agradece, pálido de ofensa, contém os outros e diz que ele mesmo saberá mostrar quanto aprecia aquelas palavras. Mais tarde, quando o narrador lhe pede perdão e amizade, depois de três horas de passeio pela sala, responde com sílabas arrastadas:

Обидели? В-вы! Ми-ня! Знайте, милостивый государь, что вы никогда и ни при каких обстоятельствах не можете меня обидеть!, Ofendeu? O se-nhor! A mim! Saiba, prezado senhor, que o senhor nunca, em circunstância alguma, pode me ofender!
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Antes de sair, grita que Olímpia é dele, e os outros riem. Em seguida desaparece do livro. No capítulo V da Segunda Parte o narrador corre atrás para esbofeteá-lo, o imagina no sofá com Olímpia e não o encontra. Zvierkóv só volta como assunto: no capítulo VIII da Segunda Parte o narrador quer salvar a reputação diante dele, e no capítulo IX da Segunda Parte confessa a Liza que foi à casa para bater num oficial e descontou nela o que não pôde descontar nele.

Temas que encarna

Zvierkóv é a ofensa que não registra. O Orgulho do narrador precisa de alguém que se sinta atingido, e Zvierkóv, na única vez em que parece atingido, devolve com educação e depois nega que haja ofensa possível. Com isso tira do narrador o que ele tinha ido buscar, uma briga em que existiria para eles. Na Segunda Parte, aliás, o mundo não responde ao argumento: o narrador tem a lucidez e perde, e Zvierkóv, que ele tem por tolo, fecha a noite sem demonstrar nada.

O texto não dá o interior de Zvierkóv, e os gestos mostram um homem que quer ser o centro de uma despedida com Olímpia, vinho e histórias, e que acolhe o intruso com uma generosidade de quem não o vê como rival. O que sabe, pelo que se vê, é ocupar o lugar: os outros o escutam quase com veneração. Duas leituras da frase final: desprezo calculado, que recusa ao narrador a dignidade de ser ofendido por ele, ou ingenuidade de quem de fato não o registra e fala a verdade. O narrador não decide, e a Segunda Parte depende dessa dúvida.

Relações