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Personagem

Liza

Quem é

Liza é a moça da casa para onde o homem do subsolo vai depois do jantar. Tem vinte anos, é russa, de Riga, filha de pequeno-burgueses que moram lá, e está há duas semanas na casa, uma loja de modas de fachada que de dia vende e à noite recebe quem tem recomendação (capítulo V da Segunda Parte, capítulo VI da Segunda Parte). Entra em cena sem nome, no fim do capítulo V da Segunda Parte: rosto fresco, um pouco pálido, sobrancelhas retas e escuras, olhar sério e levemente espantado. O nome só aparece no capítulo VI da Segunda Parte, quando ele acorda ao lado dela e pergunta. Da vida que a trouxe até ali ela diz o mínimo: deve dinheiro à dona, não decidiu ficar e irá embora assim que pagar (capítulo VII da Segunda Parte).

Tudo o que se sabe dela vem do narrador, que a descreve, a prega, a humilha e a perde, e de umas poucas falas. O que ela faz é pouco e sempre inesperado para ele: responde seco, chora no travesseiro, corre para mostrar uma carta, vai à casa dele, o abraça e deixa uma cédula sobre a mesa.

Trajetória

Na madrugada do capítulo VI da Segunda Parte as respostas dela são curtas. Quando ele lhe pede que pense na casa do pai, ela devolve a pergunta de se lá não seria pior, e quando ele desenha o casamento por amor, com a briga que termina em reconciliação e o bebê que morde o seio da mãe, ela começa uma frase com timidez, a corta, e o que sai é a observação de que ele fala como quem lê num livro.

Что-то вы… точно как по книге, Você parece... falar como se fosse por um livro.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Ele ouve só a troça, e é a troça que decide o sermão do capítulo VII da Segunda Parte. O sermão tira dela, uma a uma, a saúde, a casa, a lembrança dos anos limpos na casa do pai e por fim o nome.

имя твое исчезнет с лица земли — так, как бы совсем тебя никогда не бывало и не рождалось!, seu nome vai desaparecer da face da terra, como se você jamais tivesse existido nem nascido!
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Ela o escuta no escuro e a resposta é do corpo: de bruços, agarrada ao travesseiro, mordendo o travesseiro e a própria mão até sangrar, para que ninguém na casa saiba do tormento. Quando ele tenta falar e pedir que se acalme, ela aperta as mãos dele com tanta força que ele entende que não é isso e se cala. Antes de ele sair, ela o detém na porta, volta correndo e lhe estende uma carta de um estudante de medicina, escrita em estilo empolado e com um sentimento que não se finge: uma declaração de amor respeitosa, de alguém que a conheceu criança em Riga e a reencontrou num baile. Ela a mostra com um triunfo quase infantil, depois de ter ouvido o pior sobre si. Ele lê, não diz nada, aperta a mão dela e vai embora, tendo-lhe dado o endereço.

Liza só vem ao fim do capítulo VIII da Segunda Parte, alguns dias depois, quando ele se esquecera dela de manhã e depois não pensara em outra coisa, e a encontra no meio da briga com Apolón. No capítulo IX da Segunda Parte ela se perturba ao vê-lo de roupão, senta, espera algo, e quando ele lhe grita a verdade (foi à casa dela para bater num oficial, não o achou e descontou nela a humilhação do jantar) ela empalidece, cai na cadeira e o ouve de olhos abertos. Depois, em vez de sair, o abraça.

Она поняла из всего этого то, что женщина всегда прежде всего поймет, если искренно любит, а именно: что я сам несчастлив, Ela entendeu de tudo isso o que uma mulher sempre entende antes de qualquer coisa, se ama de verdade, a saber: que eu mesmo era infeliz.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

A frase é do narrador, e a explicação que ele dá ao gesto dela vem de quem a perdeu. No capítulo X da Segunda Parte ela se recolhe atrás do biombo, sentada no chão, e quando ele bate de leve no biombo se levanta, veste a peliça, olha-o pesadamente e se despede. Ele lhe abre a mão e põe nela o dinheiro.

Но я не хочу лгать и потому говорю прямо, что я разжал ей руку и положил в нее… со злости, Mas não quero mentir, e por isso digo sem rodeios que abri a mão dela e pus nela... de raiva.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Ela sai e deixa a cédula sobre a mesa. O narrador diz que não podia esperar isso dela, corre atrás, para numa esquina da rua deserta e volta. O que ela sente depois não é contado.

Temas que encarna

Liza é o ponto em que o texto tira do homem do subsolo a conta que ele faz de tudo. É a única pessoa que ele não consegue ler pelo repertório: o Sílvio de Púchkin e a Mascarada de Liérmontov servem à bofetada, o modelo de redenção que a epígrafe de Nekrássov evoca serve ao sermão, mas o abraço, a carta e a cédula não vêm de livro. Por isso ela concentra o Amor, porque é com ela que o que ele chama de amor se mostra como superioridade moral, o Orgulho, porque a vergonha de ser visto por ela decide cada gesto do capítulo IX da Segunda Parte, e o Sofrimento, porque o dela, calado e físico, contrasta com o que ele diz sentir e com o que arranja para sentir.

O que ela quer, pelo que mostra, é pagar a dívida e sair, e ser vista como a carta a vê. O que teme é a zombaria: segundo o narrador, a hesitação do capítulo VI da Segunda Parte é a defesa de quem foi tocado e se esconde atrás da troça. O que sabe, desde o primeiro quadro do casamento, é que ele fala em livro, e isso ela diz na cara dele. Onde se engana, se é que se engana: em vir à casa dele esperando o salvador que ele esboçara, como ele lhe grita, embora o texto só traga isso pela voz dele. Duas leituras do abraço: compreensão exata da infelicidade dele, como o narrador afirma, ou a explicação que lhe convém, em que ele é o infeliz e ela quem compreende, e que o deixa livre para a posse que vem em seguida.

Leituras divergentes

Joseph Frank lê o episódio como paródia de uma cena de O que fazer?, de Tchernichévski, em que um herói redime uma prostituta com facilidade angélica, e vê no gesto final de Liza, deixar o dinheiro e sair em silêncio, a única dignidade intacta do livro.

A paródia se vê na inversão: o redentor é quem acaba abraçado e quem não suporta a troca de papéis. O texto também deixa uma leitura menos polêmica: Liza é a única que age sem plano, e é isso que o narrador não perdoa.

Liza tem uma equivalente na Sônia de Crime e Castigo, e a diferença está no desfecho: Sônia vai à Sibéria atrás de Raskólnikov, e Liza some, sem que o narrador saiba dela.

Никогда больше я не встречал Лизу и ничего не слыхал о ней, Nunca mais encontrei Liza e nada ouvi sobre ela.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Relações