Clavis Libri

Personagem

Apolón

Quem é

Apolón é o criado do homem do subsolo, e o retrato que o narrador lhe dedica no capítulo VIII da Segunda Parte é o mais longo que o livro faz de um personagem secundário. É um homem de idade, solene, que às vezes trabalha de alfaiate: cabelo muito louro, com um topete untado de óleo, boca severa e o ar de quem nunca duvidou de si, de uma pedanteria que o narrador compara à vaidade de Alexandre da Macedônia. Cicia, e parece se orgulhar disso, e lê o Saltério em voz cantada atrás do tabique, à noitinha, como quem encomenda um defunto. Cobra sete rublos por mês, sem comida, para fazer, nas palavras do narrador, quase nada (capítulo III da Segunda Parte, capítulo VIII da Segunda Parte).

Está com ele há sete anos, e o narrador não consegue despedi-lo. O apartamento é a casca em que ele se esconde da humanidade, e Apolón, sem que ele saiba dizer por quê, lhe parece pertencer a essa casca. Chama-o de úlcera e de flagelo mandado pela providência.

Trajetória

Apolón aparece antes de entrar em cena, pelo dinheiro. No capítulo III da Segunda Parte, na véspera do jantar, dos nove rublos que o narrador tem, sete são o salário dele, que vence no dia seguinte, e o narrador sabe que não pagá-lo seria impossível, pelo gênio do homem, e mesmo assim sabe que não pagará e que irá. Na tarde do jantar, Apolón espera o pagamento desde a manhã e, por orgulho, não fala, e o narrador sai sem olhar para ele. No capítulo VIII da Segunda Parte, quando o narrador lhe pede que leve a Símonov uma carta com seis rublos dentro, o criado se torna mais respeitoso ao saber que há dinheiro e aceita ir.

Naqueles dias o narrador, furioso com todos, decide castigá-lo e não pagar por duas semanas, plano que acalentava havia dois anos, só para provar que pode.

«не хочу, не хочу, просто не хочу выдать ему жалованье, не хочу, потому что так хочу», потому что на это «моя воля господская», não quero, não quero, simplesmente não quero lhe pagar o salário, não quero porque assim eu quero, porque para isso tenho a minha vontade de senhor.
Segunda Parte: A propósito da neve molhada

Apolón responde sem falar. Fixa nele um olhar severo por minutos, ao entrar e ao sair; entra devagar no quarto, para à porta com uma mão atrás e olha com desprezo; vai embora e volta duas horas depois; suspira, medindo com o suspiro a profundidade da queda moral do patrão. O narrador diz conhecer de cor essa tática e não resiste a ela: não passa de quatro dias. Explode, exige ser respondido, chama o criado de carrasco, mostra os sete rublos e diz que só os entregará se ele vier de cabeça baixa pedir perdão. Apolón responde que não tem de que pedir perdão e que o patrão, ao chamá-lo de carrasco, é que lhe deu motivo para reclamar ao delegado de quarteirão. Quando o narrador, tomado, manda que ele chame o inspetor contra si mesmo, Apolón ri, pergunta onde se viu um homem ir às autoridades contra si e continua a enfiar a linha.

É nesse momento que Liza abre a porta. Apolón, olhando severo para o narrador, dá passagem a ela e não quer sair da sala, observando os dois com ironia.

No capítulo IX da Segunda Parte fica parado dois minutos diante deles e sai, sem que isso melhore nada. O narrador corre a ele, joga-lhe os sete rublos e lhe pede aos sussurros que traga da taberna chá e dez biscoitos. Apolón olha o dinheiro de soslaio, sem dizer nada, termina de enfiar a linha, levanta-se devagar, tira os óculos devagar, conta o dinheiro devagar, pergunta por cima do ombro se leva a porção inteira e sai. Volta com o chá e sai de novo sem olhar para nenhum dos dois, e o chá parece ao narrador, depois de tudo, indecentemente banal. O narrador acrescenta, ao descrevê-lo, o que ele veio a ser: Apolón agora se emprega para ler o Saltério nos enterros, extermina ratos e faz graxa de sapato.

Temas que encarna

Apolón mostra o limite do querer independente que o narrador defende na Primeira Parte. A vontade de senhor que ele ensaia, querer porque quer, só se exerce se o outro pedir, e é justamente o que o criado não faz; o capricho que devia afirmar a independência depende de um gesto que não vem. Apolón é por isso Destino e livre-arbítrio em pequena escala e Ação e inação em vitória: quase não faz nada, e é ele quem decide o desfecho de cada embate. O Orgulho dele, que não pede o salário, enfrenta o do patrão, que não o paga, e é o dele que dura mais.

O texto só dá Apolón pela boca do narrador, e é preciso separar o que se vê do que se supõe. Vê-se que ele quer o salário sem pedi-lo, que conhece o ponto fraco do patrão e que nunca perde a compostura. Supõe-se, por conta do narrador, que o julgue o último tolo do mundo e que só o mantenha por causa do pagamento mensal. Duas leituras do personagem: o único antagonista que vence todas as vezes e a quem o narrador, por isso, odeia como a ninguém; ou o espelho em que ele vê a própria impotência, uma figura de pedantismo e de silêncio que ele não consegue expulsar porque faz parte da casca onde mora.

Relações