O tema na obra
O orgulho da obra tem o nome que o narrador lhe dá, vaidade, e a forma de uma pele arrancada, como ele mesmo diz. O homem do subsolo mede cada cena por quem o viu e como, e a Segunda Parte é a sequência de três ocasiões em que ele se expõe para ser visto e sai ferido. O que o move não é conquistar nada: é não ser deixado de fora.
Na Primeira Parte o traço já está lá, em tom de teoria. No capítulo II da Primeira Parte ele confessa ser suscetível como um corcunda ou um anão, e que haveria momentos em que até um tapa na cara lhe daria a alegria do desespero. No capítulo VI da Primeira Parte sonha ser preguiçoso porque assim teria uma definição positiva e poderia se respeitar. No capítulo X da Primeira Parte recusa tomar o galinheiro por palácio, por gratidão, e a recusa pode ser lida como dignidade ou como vaidade: aceita o abrigo, não aceita o título.
курятника не приму за дворец из благодарности, não aceitarei o galinheiro como palácio, por gratidão.
A Segunda Parte começa pela ferida. No capítulo I da Segunda Parte, o que ele não perdoa no oficial do bilhar não é o gesto, é ter sido removido sem ser notado.
Я бы даже побои простил, но никак не мог простить того, что он меня переставил и так окончательно не заметил, Até uma surra eu teria perdoado, mas de jeito nenhum podia perdoar que ele me tirasse de um lugar para pôr em outro e não me notasse de maneira tão completa.
E dá a razão de ter-se calado ali, que não é a que se esperaria.
Струсил я тут не из трусости, а из безграничнейшего тщеславия, Acovardei-me ali, mas não por covardia: por uma vaidade sem limites.
O oficial nunca saberá do plano, e por isso a desforra é um monólogo: anos de ódio, muito preparo, uma gola nova (A roupa e a gola de castor) e um choque de olhos fechados. No capítulo III da Segunda Parte o orgulho tem origem na escola, órfão e zombado, quando ele se fechou num orgulho assustado, ferido e desmedido, e no mesmo capítulo vai ao jantar justamente porque é inconveniente ir. No capítulo IV da Segunda Parte anda três horas pela sala para mostrar que passa bem sem os colegas, e quando enfim pede perdão a Zvierkóv, recebe a resposta que o desarma.
Обидели? В-вы! Ми-ня! Знайте, милостивый государь, что вы никогда и ни при каких обстоятельствах не можете меня обидеть!, Ofendeu? O se-nhor! A mim! Saiba, prezado senhor, que o senhor nunca, em circunstância alguma, pode me ofender!
Zvierkóv nega que haja ofensa possível, e o narrador, que só se afirma como ofendido ou como ofensor, fica sem lugar. No capítulo V da Segunda Parte, ao entrar na casa, ele se alegra de que a moça o veja repulsivo.
я именно рад, что покажусь ей отвратительным; мне это приятно…, estou justamente contente por parecer-lhe repulsivo; isso me é agradável...
No capítulo VIII da Segunda Parte, depois da carta de desculpas a Símonov, o orgulho de Apolón, que não pede o salário, enfrenta o dele, que não o paga, e o dele cede primeiro. O ponto mais alto vem no capítulo IX da Segunda Parte, quando ele grita a Liza o que o orgulho é, uma pele arrancada.
так знай же, что стыжусь, больше всего стыжусь, пуще всего боюсь, пуще того, если б я воровал, потому что я тщеславен так, как будто с меня кожу содрали, и мне уж от одного воздуха больно, pois saiba que me envergonho, e como me envergonho, que mais do que tudo receio isso, mais até do que se tivesse roubado, porque sou vaidoso como se me tivessem arrancado a pele, e só o ar já me dói.
E no capítulo X da Segunda Parte o fecho vira acusação ao leitor: levou até o extremo o que os outros fazem pela metade.
Что же собственно до меня касается, то ведь я только доводил в моей жизни до крайности то, что вы не осмеливались доводить и до половины, да еще трусость свою принимали за благоразумие, и тем утешались, обманывая сами себя, Quanto a mim, o que fiz foi só levar até o extremo, na minha vida, aquilo que vocês não ousavam levar nem até a metade, e ainda tomavam a sua covardia por prudência e com isso se consolavam, enganando a si mesmos.
O orgulho do narrador, assim, não é nem arrogância nem humildade. É o ponto em que a lucidez e a ferida se cruzam, e os nomes que ele dá a si, camundongo, mosca, covarde, escravo, são a mesma ferida dita de dentro (O camundongo).
Quem o encarna
O homem do subsolo, que faz do orgulho uma medida de todas as cenas. Zvierkóv, que não tem dele a ferida e por isso o desarma; Apolón, cujo orgulho de silêncio vence o do patrão; Fierfítchkin, que joga com a honra mais melindrosa e é, segundo o narrador, covarde por dentro; e Liza, cuja dignidade aparece quando mostra a carta do estudante (capítulo VII da Segunda Parte) e quando começa a se levantar, ofendida, no capítulo IX da Segunda Parte.
Onde aparece
- Segunda Parte, capítulo I: O homem do subsolo não perdoa o oficial que o tira do caminho na sala de bilhar sem o notar, e diz que se acovardou ali por vaidade sem limites.
- Segunda Parte, capítulo I: O homem do subsolo passa muito tempo preparando um choque de ombros com o oficial na Niévski, troca a gola do capote por uma de castor e vence de olhos fechados.
- Segunda Parte, capítulo III: O homem do subsolo se convida para o jantar de despedida de Zvierkóv, certo de que assim vencerá a todos de uma vez, e os colegas o acolhem com frieza.
- Segunda Parte, capítulo III: O homem do subsolo conta que, na escola, órfão e zombado, fechou-se num orgulho assustado, ferido e desmedido, e que estudou o melhor possível para escapar das zombarias.
- Segunda Parte, capítulo IV: O homem do subsolo anda da mesa à estufa durante três horas para mostrar que passa bem sem os colegas, e entende que humilhar-se assim não podia ser mais voluntário.
- Segunda Parte, capítulo IV: Zvierkóv responde ao pedido de perdão do homem do subsolo que ele nunca poderá ofendê-lo, e o homem do subsolo decide que ou todos lhe imploram a amizade de joelhos, ou ele dá uma bofetada em Zvierkóv.
- Segunda Parte, capítulo VIII: O homem do subsolo escreve a Símonov uma carta de cavalheiro que mente sobre a bebida e aprova o tom que dá a entender que encara tudo com independência.
- Segunda Parte, capítulo IX: O homem do subsolo grita a Liza que se envergonha da pobreza mais do que de um roubo, porque é vaidoso como se lhe tivessem arrancado a pele.
- Segunda Parte, capítulo X: O homem do subsolo diz que levou até o extremo o que os leitores não ousam levar nem até a metade, e que eles tomam a covardia por prudência.
Onde as leituras divergem
O orgulho do narrador se lê de dois modos. Numa leitura é o sintoma de um homem que, por ser lúcido, não suporta o que vê de si, e que reage à humilhação com humilhação maior. Na outra, é a vaidade do tipo que Dostoiévski satiriza: o romântico russo que entende tudo, cede a tudo e se ocupa de proveito prático, tema que o próprio narrador desenvolve no capítulo I da Segunda Parte. Joseph Frank lê a Segunda Parte como paródia do romantismo social dos anos 1840.
O que as duas leituras não conseguem separar é a vaidade e a lucidez. O narrador sabe que cada gesto seu é inútil e o faz, e a frase em que ele se atribui uma coragem que os outros não têm é a mesma que mostra um homem que, para existir, precisa que alguém o veja. Por isso nenhuma das cenas lhe devolve o que ele procura: a atenção que ele consegue vem sempre como ofensa.