Quem é
O homem do subsolo não tem nome. Quem escreve é um ex-funcionário de quarenta anos, assessor colegial (posto médio do funcionalismo imperial), que serviu só para ter o que comer, herdou seis mil rublos de um parente distante e se aposentou logo em seguida, e que vive num canto de São Petersburgo, num quarto ruim nos arredores, com uma criada velha (capítulo I da Primeira Parte). Dirige-se a "senhores" que ele mesmo inventa, e a obra o mostra em dois tempos: na Primeira Parte ele argumenta, aos quarenta anos, e na Segunda volta aos vinte e quatro e conta o que fez, época que Joseph Frank situa em 1848. Vive na cidade que ele próprio descreve como a mais abstrata e premeditada do globo (capítulo II da Primeira Parte), sabe que o clima lhe faz mal e que a vida ali é cara para o dinheiro dele, e fica (capítulo I da Primeira Parte).
Antes de ele abrir a boca, Dostoiévski o apresenta como inventado e, mesmo assim, necessário:
И автор записок и самые «Записки», разумеется, вымышлены. Тем не менее такие лица, как сочинитель таких записок, не только могут, но даже должны существовать в нашем обществе, Tanto o autor das memórias quanto as próprias Memórias são, é claro, inventados. Mesmo assim, pessoas como o escritor de tais notas não só podem, mas até devem existir em nossa sociedade.
Tudo o que se sabe dele vem do que ele escolhe contar, na ordem em que escolhe, para um público que ele inventa e desmente no fim. O que ele diz de si e o que ele faz precisam, por isso, ser lidos separadamente: o primeiro é argumento, o segundo é cena.
Trajetória
Na Primeira Parte, o homem do subsolo se apresenta pelo defeito, antes que alguém o aponte (capítulo I da Primeira Parte), e logo desmente a apresentação: diz que mentiu ao se chamar mau e que não chegou a ser coisa alguma, nem canalha, nem honesto, nem herói, nem inseto.
Я не только злым, но даже и ничем не сумел сделаться: ни злым, ни добрым, ни подлецом, ни честным, ни героем, ни насекомым., Não consegui me tornar não só mau, mas nem mesmo coisa alguma: nem mau, nem bom, nem canalha, nem honesto, nem herói, nem inseto.
No capítulo II da Primeira Parte ele dá a razão: tem consciência demais, e o prazer que acha na humilhação vem de vê-la com nitidez.
наслаждение было тут именно от слишком яркого сознания своего унижения, o prazer vinha justamente da consciência viva demais da própria humilhação.
No capítulo III da Primeira Parte opõe a si o homem de ação, por quem sente Inveja, e se descreve como o camundongo: o homem de consciência hipertrofiada que se rebaixa sozinho e se recolhe ao subsolo. Recusa-se também a se reconciliar com o muro de pedra, as leis da natureza e a aritmética, só porque lhe faltam forças para rompê-lo. A paralisia ganha explicação no capítulo V da Primeira Parte: cada causa que ele encontra arrasta outra, anterior, e ele não consegue parar numa delas.
они вследствие своей ограниченности ближайшие и второстепенные причины за первоначальные принимают, таким образом скорее и легче других убеждаются, что непреложное основание своему делу нашли, ну и успокоиваются, eles, em consequência da sua limitação, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas primeiras e, assim, se convencem mais depressa e mais facilmente que os outros de que acharam o fundamento inabalável da sua obra, e então se tranquilizam.
A virada vem no capítulo VII da Primeira Parte, quando ele passa da lucidez à defesa do que a lista de vantagens omite.
Человеку надо — одного только самостоятельного хотенья, чего бы эта самостоятельность ни стоила и к чему бы ни привела., O homem precisa de uma coisa só: de um querer independente, custe o que custar essa independência e aonde quer que ela leve.
No capítulo VIII da Primeira Parte leva a hipótese ao limite: se houvesse uma fórmula para o querer, o homem seria a tecla de piano, e por isso desejaria o absurdo, para provar que não é. No capítulo IX da Primeira Parte dá ao sofrimento o lugar central da tese.
Страдание — да ведь это единственная причина сознания., O sofrimento, afinal, é a única causa da consciência.
No capítulo X da Primeira Parte recusa o palácio de cristal e diz que entraria num galinheiro para fugir da chuva, sem chamá-lo de palácio por gratidão. No capítulo XI da Primeira Parte desmente quase tudo, e o desmentido inclui o interlocutor que ele próprio inventara.
Разумеется, все эти ваши слова я сам теперь сочинил. Это тоже из подполья., É claro que todas essas suas palavras fui eu mesmo que compus agora. Isso também vem do subsolo.
A Primeira Parte termina com ele escolhendo contar uma lembrança que o aperta, e a escolha vem da neve molhada, que cai na rua naquele dia. Na Segunda Parte a lucidez continua inteira e deixa de servir de argumento: acompanha cada gesto sem impedir nenhum. No capítulo I da Segunda Parte, o que ele não perdoa no oficial que o tira do caminho na sala de bilhar é o outro não o ter notado.
Я бы даже побои простил, но никак не мог простить того, что он меня переставил и так окончательно не заметил, Até uma surra eu teria perdoado, mas de jeito nenhum podia perdoar que ele me tirasse de um lugar para pôr em outro e não me notasse de maneira tão completa.
Daí vêm anos de ódio, muito preparo, um empréstimo para trocar a gola do capote (A roupa e a gola de castor) e um choque de ombros na Niévski, de olhos fechados, que o oficial finge não ter sentido. No capítulo III da Segunda Parte ele se convida para o jantar de despedida de Zvierkóv, e a decisão de ir se explica pelo que a torna inconveniente.
Но потому-то я и бесился, что наверно знал, что поеду; что нарочно поеду; и чем бестактнее, чем неприличнее будет мне ехать, тем скорее и поеду, Mas era justamente por isso que eu me enfurecia: sabia com certeza que iria; que iria de propósito; e quanto mais indelicado, quanto mais indecoroso fosse ir, mais depressa eu iria.
No capítulo IV da Segunda Parte a mesa o trata como inofensivo, e ele responde andando da mesa à estufa durante três horas, sabendo que prova o contrário do que quer provar.
Бессовестнее и добровольнее унижать себя самому было уже невозможно, и я вполне, вполне понимал это и все-таки продолжал ходить от стола до печки и обратно, Humilhar-se a si mesmo de modo mais descarado e mais voluntário já não era possível, e eu entendia isso perfeitamente, perfeitamente, e mesmo assim continuava a andar da mesa à estufa e de volta.
No capítulo V da Segunda Parte, de trenó, ensaia a bofetada, o duelo e o perdão final, e sabe de onde tirou a cena.
Я было даже заплакал, хотя совершенно точно знал в это же самое мгновение, что все это из Сильвио и из «Маскарада» Лермонтова, Cheguei até a chorar, embora soubesse com toda a exatidão, naquele mesmo instante, que aquilo tudo vinha de Sílvio e da Mascarada, de Liérmontov.
A casa está vazia, o plano se desfaz sem que ele tenha de decidir, e entra Liza. No capítulo VI da Segunda Parte e no capítulo VII da Segunda Parte ele passa da provocação ao sermão: descreve a ela uma cova cheia d'água que diz ter visto e nunca viu, o fim numa casa da Siênaia e o apagamento do nome dela, e fala, como ela lhe aponta com timidez, de um modo livresco, que ele admite ter usado de propósito.
Я знал, что говорю туго, выделанно, даже книжно, одним словом, я иначе и не умел, как «точно по книжке». Но это не смущало меня; я ведь знал, предчувствовал, что меня поймут и что самая эта книжность может еще больше подспорить делу, Eu sabia que falava de modo travado, artificial, até livresco; em suma, só sabia falar assim, como num livro. Mas isso não me embaraçava; eu sabia, pressentia que me entenderiam e que a própria literatice podia ajudar ainda mais o negócio.
No capítulo VIII da Segunda Parte escreve a Símonov uma carta de cavalheiro que mente sobre a bebida, passa três dias esperando Liza e temendo que ela venha, e a briga com Apolón por causa do salário é interrompida pela chegada dela. No capítulo IX da Segunda Parte, de roupão diante dela, diz a verdade aos gritos: foi à casa para descontar a humilhação do jantar em alguém.
от чего спасать! Да я, может, сам тебя хуже, de que salvar! Ora, eu mesmo talvez seja pior que você.
Quando Liza responde com um abraço, ele sente vergonha, depois posse, e no capítulo X da Segunda Parte dá a forma do que chama de amor.
Во-первых, я и полюбить уж не мог, потому что, повторяю, любить у меня — значило тиранствовать и нравственно превосходствовать, Em primeiro lugar, eu já nem podia amar, porque, repito, para mim amar significava tiranizar e ter superioridade moral.
Ela sai, deixa sobre a mesa a cédula de cinco rublos que ele lhe enfiara na mão, e ele corre atrás dela e para na esquina sem alcançá-la. Nunca mais a viu. O texto se interrompe numa acusação ao leitor, e uma observação do editor avisa que as memórias continuam, mas que ali se pode parar.
Что же собственно до меня касается, то ведь я только доводил в моей жизни до крайности то, что вы не осмеливались доводить и до половины, да еще трусость свою принимали за благоразумие, и тем утешались, обманывая сами себя, Quanto a mim, o que fiz foi só levar até o extremo, na minha vida, aquilo que vocês não ousavam levar nem até a metade, e ainda tomavam a sua covardia por prudência e com isso se consolavam, enganando a si mesmos.
Temas que encarna
O homem do subsolo é a objeção ao cálculo feita por quem conhece o cálculo. A Razão que ele recusa na Primeira Parte é a que ele pratica em cada página, e é essa familiaridade que o deixa na Ação e inação: pensa a causa da causa e não começa. O que defende em troca, o querer independente, é Destino e livre-arbítrio pelo avesso, uma liberdade que só se afirma contrariando o que lhe convém. Na Segunda Parte o Orgulho ferido faz de cada encontro uma cena de desforra, o Sofrimento é o que ele mantém para provar a si mesmo que sente, e o Amor é o único terreno em que essa lógica encontra alguém, Liza, que não responde nos termos dele.
O que ele quer, nas cenas, é um lugar na cena dos outros: ser notado, nem que seja como ofensor (capítulo I da Segunda Parte, capítulo IV da Segunda Parte). O que teme é ser visto sem disfarce: ser flagrado fingindo (capítulo I da Primeira Parte), ser visto de roupão por quem quis impressionar (capítulo IX da Segunda Parte). O que sabe é tudo sobre si e quase nada sobre o outro: antecipa cada consequência dos próprios atos e é pego de surpresa pela cédula de Liza sobre a mesa (capítulo X da Segunda Parte). Onde se engana: acredita que a lucidez o protege do que faz, que a desforra se mede por ser reconhecido e que amar é exercer superioridade, e por isso lê como troca de papéis o abraço que o acolhe. O texto dá duas origens para isso e não escolhe entre elas: a vaidade que ele confessa como pele arrancada (capítulo IX da Segunda Parte), ou a escola em que, órfão e zombado, aprendeu a se medir pelo olhar de quem o ridicularizava (capítulo III da Segunda Parte).
Leituras divergentes
Joseph Frank rejeita duas leituras do homem do subsolo, a que o toma como porta-voz de Dostoiévski contra a razão e a que o toma como caso clínico, e lê o texto como sátira: o narrador aceita por inteiro as duas ideologias que o autor quer refutar, o determinismo utilitarista de Tchernichévski na Primeira Parte e o romantismo social dos anos 1840 na Segunda, e as leva às últimas consequências até que se destruam por dentro. O aviso do autor que abre o texto, com o personagem declarado inventado e típico, sustenta essa chave.
As duas leituras se tocam no capítulo final: o narrador diz ter levado até o extremo o que os leitores não levam nem até a metade (capítulo X da Segunda Parte), e a frase tanto confirma a sátira, porque ele se atribui uma coragem que os outros não têm, quanto a desmonta, porque a mesma frase vem de quem acabou de parar numa esquina sem alcançar Liza. Quem lê o livro como defesa da liberdade precisa explicar a Segunda Parte, e quem o lê como caso clínico precisa explicar a Primeira.
Relações
- Liza: a moça da casa a quem ele faz o sermão e a quem humilha de propósito, e a única que o responde sem entrar no jogo dele (capítulo VI da Segunda Parte, capítulo VII da Segunda Parte, capítulo IX da Segunda Parte, capítulo X da Segunda Parte).
- Apolón: o criado que o domina com o silêncio, de quem ele não consegue se livrar em sete anos e cujo salário tenta reter para provar que pode (capítulo VIII da Segunda Parte, capítulo IX da Segunda Parte).
- Zvierkóv: o colega de escola que ele odeia pela beleza e pela sorte, e que o trata com uma amabilidade de protetor (capítulo III da Segunda Parte, capítulo IV da Segunda Parte).
- Símonov: o único conhecido da escola que ainda o recebe (capítulo II da Segunda Parte) e de quem ele toma emprestados seis rublos na saída do jantar (capítulo IV da Segunda Parte).
- Trudoliúbov e Fierfítchkin: os dois colegas que o recebem como a mais comum das moscas (capítulo III da Segunda Parte) e o tratam no jantar, um com impaciência e o outro com troça (capítulo IV da Segunda Parte).
- Antón Antônitch Siétotchkin, o chefe de seção que lhe empresta dinheiro duas vezes e em cuja casa ele aguenta quatro horas de visita para adiar o desejo de abraçar a humanidade (capítulo I da Segunda Parte, capítulo II da Segunda Parte, capítulo VIII da Segunda Parte).