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Personagem

Matriona

Quem é

Matriona é a criada do Sonhador, uma velha que cozinha, serve a mesa e cuida do quarto dele, ou não cuida: o teto está coberto de teias que ela cultiva com sucesso (A teia de aranha e o quarto). Fala pouco, chama o patrão de paizinho, e é a única pessoa com quem o Sonhador convive todos os dias. Ele a descreve como boa e sem imaginação nenhuma, e é por isso que ela importa: no quarto de um homem que vive de devaneio, ela é a vida que não sonha. Não quer nada que o texto diga, e não sabe de nada do que acontece no cais.

Trajetória

Na Primeira Noite, angustiado sem saber por quê, o Sonhador olha as paredes verdes e enfumaçadas e o teto coberto de teias, chama Matriona e lhe dá uma bronca paterna pela sujeira; ela o olha surpresa e sai sem responder, e a teia continua no lugar.

Na Segunda Noite, entra no discurso do Sonhador: pensativa e sempre triste, é ela quem tira a mesa e traz o cachimbo ao herói que jantou sem perceber, e é a cafeteira dela, fervendo na cozinha, que ele usa como imagem da imaginação que esquenta devagar no quarto.

Na Quarta Noite, nos planos com Nástienka, o Sonhador recomenda Matriona (é boa, só não tem imaginação nenhuma) e Nástienka decide que ela e Fiekla vão morar juntas.

Na Manhã, ela lhe traz a carta de Nástienka, que chegou pelo correio da cidade, e, quando ele deixa a carta cair e cobre o rosto, fala:

А паутину-то я всю с потолка сняла; теперь хоть женись, гостей созывай, E a teia de aranha, eu tirei toda do teto; agora pode até casar e chamar convidados.
Terceira e Quarta Noites e a Manhã: A espera e o desfecho

Ele a olha e a vê de repente velha, encurvada, e o quarto envelhecido com ela. A última visão do futuro inclui a criada:

я увидел себя таким, как я теперь, ровно через пятнадцать лет, постаревшим, в той же комнате, так же одиноким, с той же Матреной, eu me vi tal como sou agora, daqui a exatamente quinze anos, envelhecido, no mesmo quarto, tão sozinho quanto agora, com a mesma Matriona.
Terceira e Quarta Noites e a Manhã: A espera e o desfecho

Temas que encarna

Matriona é o relógio do quarto. Na Primeira Noite, a teia dela marca o tempo parado de um homem que não muda nada na própria vida; na Manhã, a teia tirada marca o fim das noites, e o rosto dela envelhecendo diante dele é a forma que o tempo toma quando ele volta a ficar só.

A teia que a bronca da primeira noite não tirou sai no dia da carta, por conta própria, e Matriona anuncia o quarto pronto para um casamento que não vai acontecer. A frase não tem intenção nenhuma, e por isso fere: quem não tem imaginação diz exatamente o que o Sonhador imaginou na Quarta Noite.

Leituras divergentes

Ela pode ser lida como contraste cômico, a criada prosaica que serve de chão ao devaneio, como na cafeteira da Segunda Noite e na recomendação da Quarta Noite. Pode ser lida também como a companhia que o Sonhador terá de fato, a única que o livro garante: na visão da Manhã, daqui a quinze anos estará a mesma Matriona, que não ficou nem um pouco mais esperta.

As duas leituras se encontram na Manhã: o mesmo traço que a fazia cômica, a falta de imaginação, é o que a torna o retrato do futuro dele, um futuro sem nada a imaginar.

Relações