Quem é
O narrador de Noites Brancas não tem nome. É um homem de vinte e seis anos que mora há oito em São Petersburgo sem ter feito um só conhecido, e que se apresenta como sonhador (Primeira Noite) e, na noite seguinte, como um tipo (Segunda Noite). Mora num quarto de paredes verdes e enfumaçadas, com teias no teto (A teia de aranha e o quarto) e uma criada, Matriona, e vive de devaneio: conhece a cidade pelas fachadas e pelos rostos que cruza todo dia, conversa com as casas e cria romances inteiros na imaginação. O livro é a lembrança que ele escreve de quatro noites e uma manhã, e o leitor só vê o que ele viu, já tocado pelo que ele sabe do fim. Ele quer companhia e teme a vida que a companhia pede; descreve a própria doença com precisão e ironia; e se engana justamente onde mais se conhece, ao tomar por ternura dirigida a ele a alegria de Nástienka, que espera outro homem.
O subtítulo da novela, Romance sentimental. Das lembranças de um sonhador, faz dele o autor das lembranças.
Trajetória
Na Primeira Noite, três dias de angústia sem causa terminam numa descoberta: a cidade inteira parte para as casas de campo e ninguém o convidou. Ele chama de abandono a partida de pessoas que não sabem quem ele é:
Мне страшно стало оставаться одному, и целых три дня я бродил по городу в глубокой тоске, решительно не понимая, что со мной делается., Deu-me medo ficar sozinho, e por três dias inteiros vaguei pela cidade numa angústia profunda, sem entender de jeito nenhum o que se passava comigo.
No mesmo começo ele dá voz às casas que conhece e sofre de verdade com uma casinha cor-de-rosa pintada de amarelo. Volta tarde pelo cais de um canal, cantarolando, e vê uma moça que chora encostada à grade. O que o detém na hora de falar é a literatura:
непременно бы произнес: «Сударыня!» — если б только не знал, что это восклицание уже тысячу раз произносилось во всех русских великосветских романах, eu teria sem falta dito: Minha senhora!, se não soubesse que essa exclamação já fora pronunciada mil vezes em todos os romances russos da alta sociedade.
Um bêbado de fraque persegue a moça, e o Sonhador, com uma bengala nodosa na mão, resolve a situação sem precisar dizer nada. Dá-lhe o braço, explica que treme porque é tímido com as mulheres e nunca conheceu nenhuma, e diz de quem já se apaixonou:
Да ни в кого, в идеал, в ту, которая приснится во сне. Я создаю в мечтах целые романы, Ora, por ninguém, por um ideal, por aquela que aparece em sonho. Eu crio romances inteiros nos meus devaneios.
Quando ela quer se despedir, ele pede para voltar ao mesmo lugar e à mesma hora (O cais e o banco), e o motivo que dá é o de quem já trata o encontro como lembrança:
Я мечтатель; у меня так мало действительной жизни, что я такие минуты, как эту, как теперь, считаю так редко, что не могу не повторять этих минут в мечтаньях, Eu sou um sonhador; tenho tão pouca vida real que momentos como este, como agora, conto-os tão raramente que não posso deixar de repeti-los em devaneio.
Ela aceita voltar, com a condição de que ele não se apaixone, e ele vai embora feliz demais para entrar em casa: anda até o dia clarear.
Я был так счастлив… до завтра!, Eu estava tão feliz... até amanhã!
Na Segunda Noite, chega ao cais duas horas antes. Nástienka pede que ele conte a sua história, e ele responde que não tem história, só a solidão:
так, жил, как у нас говорится, сам по себе, то есть один совершенно, — один, один вполне, — понимаете, что такое один?, assim, vivi, como se diz por aqui, por minha conta, quer dizer, inteiramente só, só, completamente só; entende o que é estar só?
Assume então uma pose de livro e fala do sonhador em terceira pessoa, como de um bicho que se esconde da luz num canto da cidade:
Селится он большею частию где-нибудь в неприступном углу, как будто таится в нем даже от дневного света, и уж если заберется к себе, то так и прирастет к своему углу, как улитка, Instala-se quase sempre num canto inacessível, como se nele se escondesse até da luz do dia, e, uma vez recolhido, gruda-se ao seu canto como um caracol.
Conta a hora do fim do expediente, quando a deusa fantasia de Jukóvski tece para o herói uma vida inventada, a velhinha que lhe pede o caminho e o faz tremer, o jantar que ele não nota até Matriona lhe trazer o cachimbo. Diz do devaneio que é felicidade e veneno ao mesmo tempo:
Новый сон — новое счастие! Новый прием утонченного, сладострастного яда!, Novo sonho, nova felicidade! Nova dose de um veneno refinado e voluptuoso!
Enumera os papéis que o devaneio lhe dá (amigo de Hoffmann, as heroínas de Walter Scott, Hus diante dos prelados, a casinha em Kolomna) e chega ao ponto alto do discurso, a vida inventada como obra de arte:
потому что он сам художник своей жизни и творит ее себе каждый час по новому произволу, porque ele mesmo é o artista da sua vida e a cria para si a cada hora, ao seu arbítrio, de um jeito novo.
O discurso termina num romance completo, com jardim abandonado, palácio na Itália e um amigo que irrompe gritando que chegou de Pavlovsk. Ele espera que Nástienka gargalhe, ela não ri, e ele larga a pose. Diz que perdeu os melhores anos e que a fantasia já se cansa:
я уже принужден справлять годовщину своих ощущений, годовщину того, что было прежде так мило, чего в сущности никогда не бывало, já me vejo obrigado a comemorar o aniversário das minhas sensações, o aniversário do que antes era tão querido e que, no fundo, nunca aconteceu.
E faz a si mesmo, na segunda pessoa, a pergunta que o atormenta ao rever os lugares de um ano antes:
что же ты сделал с своими годами? куда ты схоронил свое лучшее время? Ты жил или нет?, o que você fez dos seus anos? onde enterrou o seu melhor tempo? Você viveu ou não?
Depois ouve a história dela, dá o conselho que ela pede, dita uma carta inteira em nome dela e descobre que a carta já estava escrita e lacrada (A carta). Os dois se lembram de Rosina, e ele aceita levar a carta aos conhecidos que a farão chegar ao inquilino.
Na Terceira Noite, escreve num dia de chuva em que ela não vem. Conta o terceiro encontro com um possessivo (A noite branca):
Вчера было наше третье свиданье, наша третья белая ночь…, Ontem foi o nosso terceiro encontro, a nossa terceira noite branca...
Ao escrever, entende que tomou a ternura dela por moeda verdadeira, quando era alegria pela chegada do outro. Na noite contada, ele solta a mão dela ao ouvir passos, pergunta as horas para que ela conte as badaladas e logo se arrepende, passando a consolá-la com argumentos que o encantam. Quando ela pergunta se agora estão juntos para sempre, ele não responde a ela, só ao papel:
О! Настенька, Настенька! Если б ты знала, в каком я теперь одиночестве!, Oh, Nástienka, Nástienka! Se você soubesse em que solidão eu estou agora!
Na Quarta Noite, Nástienka recebe a notícia de que não há carta, chora apoiada na grade e pergunta se ele abandonaria uma moça que viesse a ele por conta própria. Ele não aguenta:
Это несбыточно, но я вас люблю, Настенька! вот что!, É impossível, mas eu amo você, Nástienka! É isso!
O amor que oferece se põe de antemão no segundo lugar:
что если б вы еще и любили его и продолжали любить того, которого я не знаю, то все-таки не заметили бы, что моя любовь как-нибудь там для вас тяжела, que, se a senhora ainda o amasse e continuasse a amar aquele que eu não conheço, mesmo assim não perceberia que o meu amor pesa de algum modo sobre a senhora.
Por algumas horas, a vida que ele só imaginava vira plano: os mil e duzentos que ele tem, a pensão da avó, as duas criadas juntas, o mezanino que ele vai alugar para ser o inquilino dela. Um moço passa, para e chama Nástienka pelo nome; ela corre para o outro, volta para beijá-lo e vai embora levando o outro pela mão. Ele fica muito tempo olhando.
Na Manhã, com febre, recebe de Matriona a carta de Nástienka, relê, deixa-a cair e cobre o rosto. Matriona anuncia que tirou a teia do teto, e ele vê a criada, o quarto e a casa da frente envelhecerem de repente:
я увидел себя таким, как я теперь, ровно через пятнадцать лет, постаревшим, в той же комнате, так же одиноким, с той же Матреной, eu me vi tal como sou agora, daqui a exatamente quinze anos, envelhecido, no mesmo quarto, tão sozinho quanto agora, com a mesma Matriona.
Recusa guardar rancor e termina abençoando-a pelo que recebeu:
Боже мой! Целая минута блаженства! Да разве этого мало хоть бы и на всю жизнь человеческую?.., Meu Deus! Um minuto inteiro de bem-aventurança! Será isso pouco, mesmo para uma vida humana inteira?...
Temas que encarna
O Sonhador é o único personagem do livro que sabe nomear o próprio mecanismo. Na Segunda Noite ele descreve o sonhador como tipo, em terceira pessoa, e chama o devaneio de felicidade e veneno na mesma linha; o que a novela mostra em seguida é que o diagnóstico não o cura. Na Terceira Noite ele se encanta com os próprios argumentos ao consolar Nástienka, e na Quarta Noite vive em poucas horas uma vida inteira de planos, como vivia os romances do quarto. Saber descrever o devaneio não o tira de dentro dele.
Ele quer, desde a primeira noite, um dia de vida real, e a primeira coisa que faz com a vida real é transformá-la em lembrança. Pede para voltar ao cais para lembrar o encontro antes que o encontro termine (Primeira Noite), confessa que já comemora aniversários de sensações que nunca aconteceram (Segunda Noite) e termina guardando o minuto que teve como coisa inteira (Manhã). O devaneio e a memória, nele, são a mesma operação: tirar da hora presente uma imagem que se possa revisitar sozinho. A novela, escrita como lembrança, é o último exemplo dessa operação, e a mais bem-sucedida.
Leituras divergentes
O fim admite duas leituras, e o texto as deixa lado a lado. Numa, a bênção da Manhã é gratidão verdadeira: um homem que passou a vida sonhando recebeu um minuto real, e chamá-lo de inteiro é a primeira vez que ele se contenta com o que existe. Na outra, a bênção é o último devaneio: ele acaba de se ver sozinho no mesmo quarto daqui a quinze anos, e se dá o papel nobre de quem abençoa, porque esse papel ele sabe representar.
As duas leituras dependem da mesma frase final, que termina em pergunta e não em afirmação, e por isso nenhuma vence. O que pesa contra a leitura irônica é que o Sonhador, na Quarta Noite, ofereceu de fato um amor que não exigia ser preferido, antes de saber que seria deixado; o que pesa contra a leitura consoladora é que a visão dos quinze anos vem antes da bênção e não é desmentida por ela. Do lado da obra posterior, Memórias do Subsolo retoma o homem de Petersburgo que vive num canto, sem a ternura deste narrador.
Relações
- Nástienka: a moça que ele encontra chorando no cais na Primeira Noite, a quem conta a vida na Segunda Noite, por quem se declara na Quarta Noite e que o deixa pelo inquilino no fim da mesma noite.
- O inquilino: o rival que ele nunca vê até a Quarta Noite; o Sonhador leva a carta que o chama de volta (Segunda Noite) e planeja ocupar o mezanino que foi dele.
- Matriona: a criada que cultiva a teia do teto na Primeira Noite, lhe traz o cachimbo na Segunda Noite e a carta na Manhã.
- A avó: entra nos planos dele na Quarta Noite, quando os dois combinam levar a avó para a vida em comum.