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Personagem

A avó

Quem é

A avó de Nástienka é uma velha cega, dona de uma casinha de madeira de três janelas, tão velha quanto ela, com um mezanino que aluga. Criou a neta órfã, ensinou-lhe francês e pagou um professor, e vive da pensão e do aluguel do mezanino, que juntos são quase toda a renda da casa. Foi mais rica um dia e ainda fala dos bons tempos. Nunca aparece em cena: tudo o que se sabe dela vem da história de Nástienka, na Segunda Noite, contado pela neta, que ri dela e a defende na mesma frase. O que ela quer é guardar a neta; o que teme, pelo que diz dos romances que leu, é o moço que seduz uma moça com promessa de casamento e a abandona.

Trajetória

Na Segunda Noite, ainda antes da história, Nástienka conta de passagem que mora com a avó cega e que há dois anos a avó a prende ao vestido com um alfinete. Na história de Nástienka, na Segunda Noite, explica a origem do castigo, uma travessura aos quinze anos que ela não revela:

взяла булавку и пришпилила мое платье к своему, да тут и сказала, что так мы будем всю жизнь сидеть, если, разумеется, я не сделаюсь лучше, pegou um alfinete e prendeu o meu vestido ao dela, e ali mesmo disse que assim ficaríamos sentadas a vida inteira, a menos, é claro, que eu me tornasse melhor.
Segunda Noite: O sonhador e a história de Nástienka

A avó dorme na poltrona, e foi assim que Nástienka pôs em seu lugar Fiekla, a criada surda; a avó acordou, perguntou alguma coisa, e Fiekla desprendeu o alfinete e fugiu. Quando chega o novo inquilino, a avó o aceita porque ele não pechincha, pergunta à neta se ele é moço e bonito e a proíbe de olhá-lo, lembrando que nos velhos tempos era diferente: nos velhos tempos ela era mais moça, o sol mais quente e o creme azedava mais devagar. É ela, faladeira, quem manda a neta buscar o ábaco diante do inquilino, e é a poltrona dela que se arrasta quando Nástienka se levanta esquecida do alfinete. Aceita com agradecimento os livros franceses que ele oferece, mas quer saber se são morais, diz que leu muitos romances de sedução e que eram tão bem escritos que se passava a noite lendo e, ao saber que são de Walter Scott, manda procurar bilhetes de amor debaixo da encadernação. Quando o inquilino oferece o camarote do Barbeiro de Sevilha, ela grita de alegria: nos velhos tempos fez o papel de Rosina num teatro caseiro. Vai à ópera, cega, porque queria ouvir música e, diz a neta, porque queria agradá-la.

Na Quarta Noite, entra nos planos do Sonhador e de Nástienka, que combinam levá-la junto, já que ela tem pensão e não os incomodará, e a neta conta que a avó quer alugar o mezanino vazio a um moço. Na mesma noite, Nástienka aponta a vigilância dela como possível origem de todo o seu amor:

может быть, и вся любовь моя была обман чувств, воображения, может быть, началась она шалостью, пустяками, оттого, что я была под надзором у бабушки?, talvez todo o meu amor tenha sido uma ilusão dos sentidos, da imaginação, talvez tenha começado por travessura, por ninharias, porque eu vivia sob a vigilância da avó?
Terceira e Quarta Noites e a Manhã: A espera e o desfecho

Temas que encarna

A avó é a memória do livro em forma de pessoa: tudo nela aponta para os velhos tempos, e o que ela traz para o presente é justamente o que vai mudar a vida da neta. Foi Rosina num teatro caseiro e aceita a ópera de Rossini por saudade (O Barbeiro de Sevilha), e é nessa ópera que a neta entende que o inquilino a quer (história de Nástienka, na Segunda Noite). Leu os romances de sedução que proíbe, e o que ela teme é o enredo que a neta quase vive.

O alfinete é o olho que ela não tem, e a pena que dá, a vida inteira, diz quanto ela teme perder a neta. Nástienka a chama de engraçada e diz que a ama um pouco, e as duas coisas valem: a vigilância que prende é também a única proteção que uma velha cega pode dar a uma órfã.

Leituras divergentes

Num modo de ler, a avó é a carcereira de Nástienka, e a trouxa da história de Nástienka, na Segunda Noite é uma fuga da casa dela tanto quanto um gesto de amor. Noutro, ela é a velha boa que a neta descreve, que vai à ópera para alegrar a neta e que, com o Barbeiro de Sevilha, faz sem saber o papel da casamenteira.

O texto dá as duas pela boca da mesma narradora, e a ironia está em que a avó favorece o que proíbe: pergunta se o inquilino é bonito, leva a neta à ópera dele e, na Quarta Noite, quer de novo um moço no mezanino.

Relações