Quem é
O velhinho da Fontanka é um desconhecido que o Sonhador encontra todo santo dia, à mesma hora, no cais da Fontanka, em São Petersburgo, e com quem nunca falou. Aparece num só parágrafo, no começo da Primeira Noite, entre os rostos que o Sonhador conhece de vista e de que vive sem lhes dirigir a palavra. Não tem nome nem fala. O que se sabe dele é o que o Sonhador vê: um rosto importante e pensativo, um homem que murmura sozinho e agita a mão esquerda, e que leva na direita uma bengala comprida e nodosa, de castão de ouro. O que ele quer ou teme, o texto não diz; o que o Sonhador lhe atribui é a amizade que ele mesmo sente: o velho teria reparado nele, se interessaria por ele de coração e ficaria abatido se um dia ele faltasse à hora de sempre. É o retrato mais completo, no livro, do único convívio que o Sonhador tinha antes de Nástienka.
Trajetória
Na Primeira Noite, o Sonhador passa três dias angustiado sem entender por quê, e a angústia vem justamente da falta desses rostos:
Мне страшно стало оставаться одному, и целых три дня я бродил по городу в глубокой тоске, решительно не понимая, что со мной делается., Deu-me medo ficar sozinho, e por três dias inteiros vaguei pela cidade numa angústia profunda, sem entender de jeito nenhum o que se passava comigo.
Ele explica que, em oito anos de cidade, quase não fez um conhecido, mas que conhece Petersburgo inteira: no Niévski, no jardim, no cais, cruza todo dia, à mesma hora, as mesmas pessoas, que não o conhecem e cujas fisionomias ele estudou a ponto de se alegrar quando estão alegres e de se entristecer quando se anuviam. O velhinho é o caso extremo, aquele com quem, diz, quase fez amizade. Os dois às vezes quase se cumprimentam, sobretudo quando ambos estão de bom humor. Um dia, depois de dois dias sem se verem, chegaram a levar a mão ao chapéu ao mesmo tempo; deram-se conta a tempo, baixaram a mão e passaram um pelo outro com simpatia. Logo depois o Sonhador passa às casas, que também o cumprimentam, e à casinha cor-de-rosa que os pintores estragaram:
слышу жалобный крик: «А меня красят в желтую краску!», ouço um grito queixoso: Estão me pintando de amarelo!
O velhinho não volta a aparecer. Mas, na mesma noite, quando um senhor de fraque, bêbado, corre atrás da moça do cais, o Sonhador tem por acaso na mão direita uma bengala nodosa, como a do velho, e é com ela que atravessa num instante a rua que, minutos antes, não ousara atravessar.
Temas que encarna
O velhinho é o espelho do Sonhador antes que o livro lhe dê um interlocutor. Os dois fazem o mesmo trajeto à mesma hora, cada um sozinho; o velho murmura e gesticula para ninguém, como o herói do discurso da Segunda Noite, que volta para casa sorrindo e fazendo gestos, a ponto de os passantes rirem dele; e a bengala nodosa que o velho leva na direita é a que o Sonhador tem na sua quando enfrenta o bêbado da Primeira Noite. É a Solidão e isolamento como convívio sem palavra: um laço verdadeiro, com saudade e simpatia, que não chega a um cumprimento.
O velho é também o futuro do Sonhador, e o livro o devolve no fim sem o nomear. Na Manhã, depois da carta de Nástienka, o Sonhador se imagina daqui a quinze anos:
я увидел себя таким, как я теперь, ровно через пятнадцать лет, постаревшим, в той же комнате, так же одиноким, с той же Матреной, eu me vi tal como sou agora, daqui a exatamente quinze anos, envelhecido, no mesmo quarto, tão sozinho quanto agora, com a mesma Matriona.
Um homem envelhecido e sozinho, que faz todo dia o mesmo caminho e conhece a cidade sem conhecer ninguém, é o que ele via na Fontanka na primeira página. E quando imagina o velho abatido pela falta dele, empresta-lhe a angústia que ele próprio sentiu ao ver sumirem os rostos de sempre.
Leituras divergentes
Num modo de ler, o laço é inteiramente imaginado. O Sonhador diz que o velho reparou nele e que ficaria abatido com a sua ausência, mas tudo o que sabe do velho é a cara; a amizade é mais um dos romances que ele cria nos devaneios, e o velho é tão interlocutor quanto as casas que falam. Noutro modo, o laço é recíproco, e o texto dá a prova: no dia do reencontro, os dois levam a mão ao chapéu ao mesmo tempo, e os dois a baixam. O velho também viveria de rostos conhecidos de vista.
O gesto partilhado pesa a favor da segunda leitura, e é ele que dá graça ao parágrafo: os dois quase se cumprimentam e os dois desistem, como se o cumprimento já fosse o começo de uma conversa. O que o Sonhador consegue com a moça do cais, na mesma Primeira Noite, é exatamente o que não consegue com o velho, passar do gesto à palavra, e só consegue porque um bêbado e uma bengala decidem por ele.
Relações
- O Sonhador: o passante que o encontra todo dia na Fontanka, quase faz amizade com ele e quase o cumprimenta, na Primeira Noite.
- Nástienka: nunca a vê; é com ela que o Sonhador passa do gesto à palavra, na mesma Primeira Noite, com uma bengala nodosa como a do velho na mão.